sexta-feira, 17 de abril de 2026

Cinema Paradiso em Terras Alencarinas

Texto compartilhado do site cinema audivisual ufc

Cinema Paradiso em Terras Alencarinas

Em um dia de sol escaldante, procurando há quase uma hora a Rua Padre Graça, finalmente a encontramos. Uma ruela que abrangia dois quarteirões, tão desligada da correria da cidade que nos sentimos transportados ao interior. Era um lugar quase bucólico: as crianças brincando na rua, as senhoras conversando sentadas na calçada e os homens jogando xadrez na praça. O Cine Nazaré, com todo o seu jeitão de cinema antigo de cidade pequena, não poderia estar mais bem localizado.

Fomos recebidos por Raimundo Carneiro de Sousa, o Seu Vavá. Um senhor aparentemente comum. Aparentemente. Foi só começarmos a gravar para que cada fio de cabelo que tínhamos se arrepiasse. Sentíamos como se estivéssemos conversando pessoalmente com o personagem Totó, de Cinema Paradiso. Descobrimos que, assim como os filmes, um projecionista também é capaz de nos encantar.

A paixão de Seu Vavá pelo cinema vem desde criança, quando se esgueirava para ver os filmes pela fresta da porta do cinema, pois não tinha dinheiro para o ingresso. Daí a fazer suas próprias sessões de cinema para os amigos não custou muito. Ele mesmo criou o projetor, parco e improvisado, mas era um sucesso. O jovem sonhador cresceu, mas a vida o impelia ao cinema. Seu Vavá começou a trabalhar, primeiramente para frades alemães pertencentes à Ordem Franciscana Menor, que fundaram o Cine Familiar, em 1935. Encomendaram a ele quadros e molduras para a Igreja. Posteriormente, as encomendas passaram a ser também para o cinema, como tabuletas para propaganda dos filmes, conserto e confecção de cadeiras, entre outros. Seu Vavá sempre procurava entregar as encomendas na hora das sessões, podendo, assim, assistir ao maior número de filmes e seriados possíveis.

Somente em 1949 Seu Vavá foi de fato contratado como funcionário do Cine Familiar. De início, fazia a limpeza do salão, passando mais tarde a assumir o encargo de entregar os rolos de filme 35mm ao escritório do Grupo Severiano Ribeiro, que alugava filmes aos exibidores locais.

O Grupo Severiano Ribeiro, à época, exibia os filmes bem antes dos exibidores de bairro. Já assumindo a tarefa de ajudante de operador, Seu Vavá assistia ao máximo de filmes que podia no Cine Majestic, no Cine Moderno ou no Cine Diogo, que eram os grandes exibidores da época. Como os frades só alugariam o filme meses depois, Seu Vavá anotava todas as cenas que os frades achariam impróprias (como uma mulher com trajes de banho, ou um beijo acalorado), para depois serem feitos os cortes necessários.

Não demorou muito para que, habilidoso, assumisse o cargo de projecionista efetivo do Cine Familiar. Os frades ainda lhe deram uma passagem de avião e lhe enviaram para a grande cidade de São Paulo, para que ele fizesse cursos de mecânica e eletrônica em uma fábrica. Quando voltou para Fortaleza, os frades aparelharam novamente o cinema, com equipamentos mais modernos, e o reformaram. Seu Vavá tornou-se então o novo gerente do Cine Familiar em 1952.

Empolgado e orgulhoso, Seu Vavá nos contou que, com a reforma e com a nova gerência, o Cine Familiar tornou-se o único entre os cinemas de rua que tinha ar condicionado também na cabine de projeção, além de quatro amplificadores, cabine com dois projetores e tela cinemascope importada, o que também tinha como benefício o fato de o cinema nunca ter parado uma sessão sequer por falha nos equipamentos.

Com tantas vantagens, o novo cine Familiar contava com os mesmos confortos e qualidades de cinemas grandes, o que começou, segundo Seu Vavá, a incomodar o Grupo Severiano Ribeiro. Começaram a aparecer, então, dificuldades de se alugar filmes da distribuidora. O jeito foi fazer amizades com a Cinemar, que trazia filmes de Recife, que era um centro de referência na distribuição de filmes pelo Brasil. Mesmo conseguindo o apoio de bons fornecedores, a Severiano Ribeiro ainda detinha maior quantidade de filmes, o que resultou em um recuo de fornecimento, uma vez que o Severiano deixaria de alugar tais filmes e o Cinemar perderia vários clientes.

Foi quando Seu Vavá conheceu o gerente que coordenou a Metro no Recife, que forneceu a ele os filmes da programação para o Cine Familiar. Com a volta de tais filmes depois de muitos anos sem serem exibidos, o sucesso foi certeiro. O cinema dos frades voltou a fervilhar, mesmo com a mutilação que a ação do tempo provocou neles. Mas até nisso o Seu Vavá conseguiu se virar: ele inventou uma máquina que permitia ver o filme na mão, de modo a coordená-lo. Deste modo, os filmes foram “reeditados”, fazendo com que os danos não fossem tão evidentes.

Foi então que um dia apareceu à porta do Cinema Familiar o dono do Severiano Ribeiro em pessoa para oferecer uma grande quantidade de filmes para que o Cine Familiar voltasse a ser parte do grande grupo. O acordo foi aceito, uma vez que estava cada vez mais difícil conseguir filmes dos distribuidores de Recife. O acordo trouxe vantagens para a nova fase do cinema dos frades. O cinema de bairro lançava os filmes não mais meses depois do lançamento deles em grandes salas de cinema, mas simultaneamente a tais exibidores.

Seu Vavá, estranhando tantas vantagens, acabou descobrindo que em São Paulo uma nova e grande distribuidora visava atrair cinemas independentes de todo o país, inclusive os nordestinos. Foi quando o Cine Familiar rompeu com a Severiano Ribeiro e fechou contrato com a empresa paulista Fama Films. Como esta distribuidora pertencia a dois irmãos italianos, o Cine agora exibia filmes italianos de arte, fazendo com que iniciasse os tempos de glória do Cine Familiar. Filas de virar as esquinas se formavam para as exibições dos novos filmes.

Mas, em 1968, o Cine Familiar estava fechando. Segundo Seu Vavá, os motivos eram claros: a igreja não mais suportava os filmes não tão censurados que o cinema dos frades exibia, o que ocasionou o fechamento da sala. Já os frades anunciaram que a exibição de mais filmes causaria prejuízo para eles, o que não fazia muito sentido, uma vez que o cinema estava a todo vapor, lotando em todas as seções e lucrando em sua bilheteria.

Foi então que nosso Totó particular decidiu ter seu próprio cinema. Achando que finalmente poderia ter liberdade para projetar os filmes que bem entendesse, comprou o Cine Nazaré, que já havia funcionado anos antes. No entanto, era o auge da ditadura militar. Seu Vavá se viu obrigado a dançar conforme a música. Ao início de cada sessão, 4m de filme com a carta da censura eram projetados na tela, mesmo as sessões da tarde eram proibidas para menores de 18 anos e, novamente, Seu Vavá viu-se obrigado a mutilar filmes e mais filmes para que se adequassem à censura. Sucumbindo à pressão, o cinema fechou em 1974.

No entanto, quando a sua mulher adoeceu, Seu Vavá sentiu-se impelido a reabrir o cinema. Em 2008, aquelas poltronas vermelhas serviram de encosto para ávidos cinéfilos mais uma vez. Diferentemente dos caríssimos multiplex de hoje em dia, o Cine Nazaré é democrático. Uma urna de madeira na entrada deixa bem claro: paga quem puder, e o quanto quiser. Difícil é decidir um preço justo a pagar pela nostalgia de assistir a filmes clássicos em um dos poucos cinemas de rua remanescentes.

Em um dia de sol escaldante, procurando há quase uma hora a Rua Padre Graça, finalmente a encontramos. Uma ruela que abrangia dois quarteirões, tão desligada da correria da cidade que nos sentimos transportados ao interior. Era um lugar quase bucólico: as crianças brincando na rua, as senhoras conversando sentadas na calçada e os homens jogando xadrez na praça. O Cine Nazaré, com todo o seu jeitão de cinema antigo de cidade pequena, não poderia estar mais bem localizado.

Fomos recebidos por Raimundo Carneiro de Sousa, o Seu Vavá. Um senhor aparentemente comum. Aparentemente. Foi só começarmos a gravar para que cada fio de cabelo que tínhamos se arrepiasse. Sentíamos como se estivéssemos conversando pessoalmente com o personagem Totó, de Cinema Paradiso. Descobrimos que, assim como os filmes, um projecionista também é capaz de nos encantar.

A paixão de Seu Vavá pelo cinema vem desde criança, quando se esgueirava para ver os filmes pela fresta da porta do cinema, pois não tinha dinheiro para o ingresso. Daí a fazer suas próprias sessões de cinema para os amigos não custou muito. Ele mesmo criou o projetor, parco e improvisado, mas era um sucesso. O jovem sonhador cresceu, mas a vida o impelia ao cinema. Seu Vavá começou a trabalhar, primeiramente para frades alemães pertencentes à Ordem Franciscana Menor, que fundaram o Cine Familiar, em 1935. Encomendaram a ele quadros e molduras para a Igreja. Posteriormente, as encomendas passaram a ser também para o cinema, como tabuletas para propaganda dos filmes, conserto e confecção de cadeiras, entre outros. Seu Vavá sempre procurava entregar as encomendas na hora das sessões, podendo, assim, assistir ao maior número de filmes e seriados possíveis.

Somente em 1949 Seu Vavá foi de fato contratado como funcionário do Cine Familiar. De início, fazia a limpeza do salão, passando mais tarde a assumir o encargo de entregar os rolos de filme 35mm ao escritório do Grupo Severiano Ribeiro, que alugava filmes aos exibidores locais.

O Grupo Severiano Ribeiro, à época, exibia os filmes bem antes dos exibidores de bairro. Já assumindo a tarefa de ajudante de operador, Seu Vavá assistia ao máximo de filmes que podia no Cine Majestic, no Cine Moderno ou no Cine Diogo, que eram os grandes exibidores da época. Como os frades só alugariam o filme meses depois, Seu Vavá anotava todas as cenas que os frades achariam impróprias (como uma mulher com trajes de banho, ou um beijo acalorado), para depois serem feitos os cortes necessários.

Não demorou muito para que, habilidoso, assumisse o cargo de projecionista efetivo do Cine Familiar. Os frades ainda lhe deram uma passagem de avião e lhe enviaram para a grande cidade de São Paulo, para que ele fizesse cursos de mecânica e eletrônica em uma fábrica. Quando voltou para Fortaleza, os frades aparelharam novamente o cinema, com equipamentos mais modernos, e o reformaram. Seu Vavá tornou-se então o novo gerente do Cine Familiar em 1952.

Empolgado e orgulhoso, Seu Vavá nos contou que, com a reforma e com a nova gerência, o Cine Familiar tornou-se o único entre os cinemas de rua que tinha ar condicionado também na cabine de projeção, além de quatro amplificadores, cabine com dois projetores e tela cinemascope importada, o que também tinha como benefício o fato de o cinema nunca ter parado uma sessão sequer por falha nos equipamentos.

Com tantas vantagens, o novo cine Familiar contava com os mesmos confortos e qualidades de cinemas grandes, o que começou, segundo Seu Vavá, a incomodar o Grupo Severiano Ribeiro. Começaram a aparecer, então, dificuldades de se alugar filmes da distribuidora. O jeito foi fazer amizades com a Cinemar, que trazia filmes de Recife, que era um centro de referência na distribuição de filmes pelo Brasil. Mesmo conseguindo o apoio de bons fornecedores, a Severiano Ribeiro ainda detinha maior quantidade de filmes, o que resultou em um recuo de fornecimento, uma vez que o Severiano deixaria de alugar tais filmes e o Cinemar perderia vários clientes.

Foi quando Seu Vavá conheceu o gerente que coordenou a Metro no Recife, que forneceu a ele os filmes da programação para o Cine Familiar. Com a volta de tais filmes depois de muitos anos sem serem exibidos, o sucesso foi certeiro. O cinema dos frades voltou a fervilhar, mesmo com a mutilação que a ação do tempo provocou neles. Mas até nisso o Seu Vavá conseguiu se virar: ele inventou uma máquina que permitia ver o filme na mão, de modo a coordená-lo. Deste modo, os filmes foram “reeditados”, fazendo com que os danos não fossem tão evidentes.

Foi então que um dia apareceu à porta do Cinema Familiar o dono do Severiano Ribeiro em pessoa para oferecer uma grande quantidade de filmes para que o Cine Familiar voltasse a ser parte do grande grupo. O acordo foi aceito, uma vez que estava cada vez mais difícil conseguir filmes dos distribuidores de Recife. O acordo trouxe vantagens para a nova fase do cinema dos frades. O cinema de bairro lançava os filmes não mais meses depois do lançamento deles em grandes salas de cinema, mas simultaneamente a tais exibidores.

Seu Vavá, estranhando tantas vantagens, acabou descobrindo que em São Paulo uma nova e grande distribuidora visava atrair cinemas independentes de todo o país, inclusive os nordestinos. Foi quando o Cine Familiar rompeu com a Severiano Ribeiro e fechou contrato com a empresa paulista Fama Films. Como esta distribuidora pertencia a dois irmãos italianos, o Cine agora exibia filmes italianos de arte, fazendo com que iniciasse os tempos de glória do Cine Familiar. Filas de virar as esquinas se formavam para as exibições dos novos filmes.

Mas, em 1968, o Cine Familiar estava fechando. Segundo Seu Vavá, os motivos eram claros: a igreja não mais suportava os filmes não tão censurados que o cinema dos frades exibia, o que ocasionou o fechamento da sala. Já os frades anunciaram que a exibição de mais filmes causaria prejuízo para eles, o que não fazia muito sentido, uma vez que o cinema estava a todo vapor, lotando em todas as seções e lucrando em sua bilheteria.

Foi então que nosso Totó particular decidiu ter seu próprio cinema. Achando que finalmente poderia ter liberdade para projetar os filmes que bem entendesse, comprou o Cine Nazaré, que já havia funcionado anos antes. No entanto, era o auge da ditadura militar. Seu Vavá se viu obrigado a dançar conforme a música. Ao início de cada sessão, 4m de filme com a carta da censura eram projetados na tela, mesmo as sessões da tarde eram proibidas para menores de 18 anos e, novamente, Seu Vavá viu-se obrigado a mutilar filmes e mais filmes para que se adequassem à censura. Sucumbindo à pressão, o cinema fechou em 1974.

No entanto, quando a sua mulher adoeceu, Seu Vavá sentiu-se impelido a reabrir o cinema. Em 2008, aquelas poltronas vermelhas serviram de encosto para ávidos cinéfilos mais uma vez. Diferentemente dos caríssimos multiplex de hoje em dia, o Cine Nazaré é democrático. Uma urna de madeira na entrada deixa bem claro: paga quem puder, e o quanto quiser. Difícil é decidir um preço justo a pagar pela nostalgia de assistir a filmes clássicos em um dos poucos cinemas de rua remanescentes.

Em um dia de sol escaldante, procurando há quase uma hora a Rua Padre Graça, finalmente a encontramos. Uma ruela que abrangia dois quarteirões, tão desligada da correria da cidade que nos sentimos transportados ao interior. Era um lugar quase bucólico: as crianças brincando na rua, as senhoras conversando sentadas na calçada e os homens jogando xadrez na praça. O Cine Nazaré, com todo o seu jeitão de cinema antigo de cidade pequena, não poderia estar mais bem localizado.

Fomos recebidos por Raimundo Carneiro de Sousa, o Seu Vavá. Um senhor aparentemente comum. Aparentemente. Foi só começarmos a gravar para que cada fio de cabelo que tínhamos se arrepiasse. Sentíamos como se estivéssemos conversando pessoalmente com o personagem Totó, de Cinema Paradiso. Descobrimos que, assim como os filmes, um projecionista também é capaz de nos encantar.

A paixão de Seu Vavá pelo cinema vem desde criança, quando se esgueirava para ver os filmes pela fresta da porta do cinema, pois não tinha dinheiro para o ingresso. Daí a fazer suas próprias sessões de cinema para os amigos não custou muito. Ele mesmo criou o projetor, parco e improvisado, mas era um sucesso. O jovem sonhador cresceu, mas a vida o impelia ao cinema. Seu Vavá começou a trabalhar, primeiramente para frades alemães pertencentes à Ordem Franciscana Menor, que fundaram o Cine Familiar, em 1935. Encomendaram a ele quadros e molduras para a Igreja. Posteriormente, as encomendas passaram a ser também para o cinema, como tabuletas para propaganda dos filmes, conserto e confecção de cadeiras, entre outros. Seu Vavá sempre procurava entregar as encomendas na hora das sessões, podendo, assim, assistir ao maior número de filmes e seriados possíveis.

Somente em 1949 Seu Vavá foi de fato contratado como funcionário do Cine Familiar. De início, fazia a limpeza do salão, passando mais tarde a assumir o encargo de entregar os rolos de filme 35mm ao escritório do Grupo Severiano Ribeiro, que alugava filmes aos exibidores locais.

O Grupo Severiano Ribeiro, à época, exibia os filmes bem antes dos exibidores de bairro. Já assumindo a tarefa de ajudante de operador, Seu Vavá assistia ao máximo de filmes que podia no Cine Majestic, no Cine Moderno ou no Cine Diogo, que eram os grandes exibidores da época. Como os frades só alugariam o filme meses depois, Seu Vavá anotava todas as cenas que os frades achariam impróprias (como uma mulher com trajes de banho, ou um beijo acalorado), para depois serem feitos os cortes necessários.

Não demorou muito para que, habilidoso, assumisse o cargo de projecionista efetivo do Cine Familiar. Os frades ainda lhe deram uma passagem de avião e lhe enviaram para a grande cidade de São Paulo, para que ele fizesse cursos de mecânica e eletrônica em uma fábrica. Quando voltou para Fortaleza, os frades aparelharam novamente o cinema, com equipamentos mais modernos, e o reformaram. Seu Vavá tornou-se então o novo gerente do Cine Familiar em 1952.

Empolgado e orgulhoso, Seu Vavá nos contou que, com a reforma e com a nova gerência, o Cine Familiar tornou-se o único entre os cinemas de rua que tinha ar condicionado também na cabine de projeção, além de quatro amplificadores, cabine com dois projetores e tela cinemascope importada, o que também tinha como benefício o fato de o cinema nunca ter parado uma sessão sequer por falha nos equipamentos.

Com tantas vantagens, o novo cine Familiar contava com os mesmos confortos e qualidades de cinemas grandes, o que começou, segundo Seu Vavá, a incomodar o Grupo Severiano Ribeiro. Começaram a aparecer, então, dificuldades de se alugar filmes da distribuidora. O jeito foi fazer amizades com a Cinemar, que trazia filmes de Recife, que era um centro de referência na distribuição de filmes pelo Brasil. Mesmo conseguindo o apoio de bons fornecedores, a Severiano Ribeiro ainda detinha maior quantidade de filmes, o que resultou em um recuo de fornecimento, uma vez que o Severiano deixaria de alugar tais filmes e o Cinemar perderia vários clientes.

Foi quando Seu Vavá conheceu o gerente que coordenou a Metro no Recife, que forneceu a ele os filmes da programação para o Cine Familiar. Com a volta de tais filmes depois de muitos anos sem serem exibidos, o sucesso foi certeiro. O cinema dos frades voltou a fervilhar, mesmo com a mutilação que a ação do tempo provocou neles. Mas até nisso o Seu Vavá conseguiu se virar: ele inventou uma máquina que permitia ver o filme na mão, de modo a coordená-lo. Deste modo, os filmes foram “reeditados”, fazendo com que os danos não fossem tão evidentes.

Foi então que um dia apareceu à porta do Cinema Familiar o dono do Severiano Ribeiro em pessoa para oferecer uma grande quantidade de filmes para que o Cine Familiar voltasse a ser parte do grande grupo. O acordo foi aceito, uma vez que estava cada vez mais difícil conseguir filmes dos distribuidores de Recife. O acordo trouxe vantagens para a nova fase do cinema dos frades. O cinema de bairro lançava os filmes não mais meses depois do lançamento deles em grandes salas de cinema, mas simultaneamente a tais exibidores.

Seu Vavá, estranhando tantas vantagens, acabou descobrindo que em São Paulo uma nova e grande distribuidora visava atrair cinemas independentes de todo o país, inclusive os nordestinos. Foi quando o Cine Familiar rompeu com a Severiano Ribeiro e fechou contrato com a empresa paulista Fama Films. Como esta distribuidora pertencia a dois irmãos italianos, o Cine agora exibia filmes italianos de arte, fazendo com que iniciasse os tempos de glória do Cine Familiar. Filas de virar as esquinas se formavam para as exibições dos novos filmes.

Mas, em 1968, o Cine Familiar estava fechando. Segundo Seu Vavá, os motivos eram claros: a igreja não mais suportava os filmes não tão censurados que o cinema dos frades exibia, o que ocasionou o fechamento da sala. Já os frades anunciaram que a exibição de mais filmes causaria prejuízo para eles, o que não fazia muito sentido, uma vez que o cinema estava a todo vapor, lotando em todas as seções e lucrando em sua bilheteria.

Foi então que nosso Totó particular decidiu ter seu próprio cinema. Achando que finalmente poderia ter liberdade para projetar os filmes que bem entendesse, comprou o Cine Nazaré, que já havia funcionado anos antes. No entanto, era o auge da ditadura militar. Seu Vavá se viu obrigado a dançar conforme a música. Ao início de cada sessão, 4m de filme com a carta da censura eram projetados na tela, mesmo as sessões da tarde eram proibidas para menores de 18 anos e, novamente, Seu Vavá viu-se obrigado a mutilar filmes e mais filmes para que se adequassem à censura. Sucumbindo à pressão, o cinema fechou em 1974.

No entanto, quando a sua mulher adoeceu, Seu Vavá sentiu-se impelido a reabrir o cinema. Em 2008, aquelas poltronas vermelhas serviram de encosto para ávidos cinéfilos mais uma vez. Diferentemente dos caríssimos multiplex de hoje em dia, o Cine Nazaré é democrático. Uma urna de madeira na entrada deixa bem claro: paga quem puder, e o quanto quiser. Difícil é decidir um preço justo a pagar pela nostalgia de assistir a filmes clássicos em um dos poucos cinemas de rua remanescentes.

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Ensaios para disciplina Cinema e Pensamento de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará.

Cinema e Pensamento

A criação de conceitos e o cinema. O que pensa no cinema: Movimento, Espaço, Tempo, Duração, Forma. A imagem-tempo e a imagem-movimento. O visível. O dizível. O Sensível. O intensivo e Percepção. Matéria e Memória. O Sentido, as cores, as imagens e os sons.

Prof. Osmar Gonçalves

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Texto reproduzido do site: www cinemaeaudiovisual ufc br

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Catador de sucata montou cinema na garagem de casa


Publicação compartilhada do site G1 GLOBO, de 24 de abril de 2008 

Catador de sucata montou cinema na garagem de casa

José Luiz Zagati exibe filmes há 10 anos em Taboão da Serra.

Na favela de Heliópolis, projeto de cinema também forma atores.

Por Carolina Iskandarian (Do G1, em São Paulo)

A iniciativa na favela de Paraisópolis, que inaugurou sua primeira sala de cinema na quarta-feira (23), pode ser a primeira de uma série se ali morar gente como o catador de sucata José Luiz Zagati. Há dez anos, ele exibe filmes para a comunidade carente da região de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Começou usando a garagem de sua casa. Quando viu que o espaço ficou apertado, resolveu vender o imóvel e construir um maior por ali mesmo.

“Se não tivesse vendido a casa, não teria conseguido montar o Mini Cine Tupy”, diz, orgulhoso, sobre o cinema que ocupa uma sala para cinqüenta pessoas na nova moradia. O nome é uma homenagem ao hoje extinto Cine Tupy, que Zagati freqüentava quando criança em Taboão da Serra.

“Sempre gostei muito de cinema. Costumo dizer que sou fã número 1 do Mazzaropi. Quando eu era criança, projetei um pedaço do filme dele que encontrei no lixo”, contou. Da sucata veio o projetor improvisado: um caixote, lentes de óculos, lâmpada e uma manivela de arame.

Aos 58 anos, o catador de lixo diz ser uma pessoa realizada, apesar de estar se sentindo “desesperançoso e triste”. “É muito difícil. Estou sem patrocínio”. As sessões acontecem às quartas-feiras e, além de não pagar nada, o espectador ainda ganha brindes. Zagati sorteia brinquedos e cadernos que consegue com doações.

“Eu penso muito no pobre. As crianças da minha periferia não vão ao shopping. Essas coisas (cinema) têm de ser criadas nas comunidades carentes porque as pessoas se sentem com mais dignidade”. E é com dignidade, catando sucata na rua, que Zagati sustenta a família. “Tem mês que tiro R$ 1mil ou R$ 2 mil. Tem mês que não tiro nada”. E mesmo assim o Mini Cine Tupy está de pé.

 Atuando na favela

A experiência cinematográfica também ganhou força na favela de Heliópolis, a maior de São Paulo. Desde 2003, o projeto Cine Favela leva a sétima arte aos cerca de 130 mil moradores da comunidade. Gente simples, que nunca tinha visto nada parecido e, de repente, virou até personagem de filme.

Além de exibir longas, a Associação Cultural e Artística de Heliópolis e Sacomã (ACAHS), uma das idealizadoras da iniciativa, promove uma oficina em que ensina a população local a atuar. “Tem de tudo. Pedreiro, dona-de-casa, aposentado”, contou Geneci Ledo, de 35 anos, integrante da associação. A comunidade já rodou “Gota de Sangue” e agora prepara “O Excluído”, que conta a história de um menino, morador da favela, que acaba virando bandido.

No começo, reinou a desconfiança. “Eu mesma não colocava fé no projeto. A gente começou com a cara e a coragem”, disse Geneci, que prefere produzir a atuar. Com desenvoltura, a dona-de-casa fala sobre cenário, textos, seqüências, continuidade da cena. Hoje, os filmes são passados em uma sala, montada na casa onde um bar seria demolido. É no mesmo espaço que fica a oficina de atores de Heliópolis.

O projeto contou com o apoio do Sesc Ipiranga e recebe doações também. As sessões dão gratuitas e acontecem de 15 em 15 dias, aos domingos. “O cinema mudou bastante coisa por aqui. As pessoas elogiam. Muitos não conheciam, não tinham acesso à cultura”, afirmou Geneci, que garante a distribuição gratuita de pipoca a cada exibição. “A gente faz uma vaquinha para poder comprar”.

Texto reproduzido do site: g1 globo com/Noticias/SaoPaulo

segunda-feira, 13 de abril de 2026

'O meu Cinema Paradiso', por CEL

Publicação compartilhada do site CELULA POP, de 8 de junho de 2021

O meu Cinema Paradiso
Por CEL *

 Via de regra, todo mundo tem um Cinema Paradiso, talvez mais de um. Eu acho que tenho vários e eles são marcos da passagem do tempo. A inexorável, imparável, paciente passagem dos dias e anos. Os Cinemas Paradiso são como carimbos que recebemos da vida sempre que mudamos de fase no jogo. Ou fichas que ganhamos por ficarmos sóbrios mais um dia. Pois bem, se você não está entendendo nada, eu te esclareço. “Cinema Paradiso” é o nome de um filme belíssimo, triste que só ele, dirigido pelo italiano Giuseppe Tornatore em 1988, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro daquele ano e que contem uma das trilhas sonoras mais emblemáticas da carreira de Ennio Morricone. A história, resumidamente, é sobre a amizade de um garoto e um projecionista de uma cidadezinha pobre do sul da Itália. Em comum a ambos há a paixão pelo cinema como arte e pelo cinema como ponto de sociabilidade, no caso, o que dá nome ao longa. É nele que o povo da cidade se encontra, as crianças entram escondidas, tudo acontece. A paixão é tanta que o menino Totó, após idas e vindas da juventude, termina como um cineasta famoso, fato que lhe dará prestígio e fama, mas nunca lhe devolverá a felicidade perdida naqueles dias de juventude. E, bem, o final de “Cinema Paradiso” é um dos mais belos de todos os tempos. É impossível não se emocionar. Ponto final.

Pois bem, o seu Cinema Paradiso não precisa, necessariamente, ser um cinema. Pode ser uma rua, um colégio, um lugar onde você via shows…É importante que seja um espaço que você frequentou em outra época, ou em várias épocas. É um lugar que traz boas memórias, que tem o poder de despertar lembranças de tempos idos. Um lugar no qual você esteve com caras e roupas diferentes. Em suma, é um lugar no qual você irá se encontrar, se rever. E, como eu disse, a gente às vezes tem vários. Eu tenho o Cine Roxy como um Cinema Paradiso da minha vida e ontem recebi a notícia triste de que ele encerrou suas atividades. O imóvel, tombado, situado na esquina entre a Rua Bolívar e a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, está à venda por 30 milhões de reais. A condição é: quem comprar deverá manter a condição de casa de espetáculo, afinal de contas, está lá no decreto de tombamento.

O Roxy é um daqueles marcos que definem o próprio bairro de Copacabana, Zona Sul do Rio. Ele está lá desde 1938 e faria 83 anos por agora. Quando o bairro tornou-se um destino procuradíssimo por uma emergente classe média, o Roxy já estava lá. Minha família o frequentou e, como consequência natural, eu também fui lá inúmeras vezes. Vi filmes emblemáticos na sua sala enorme, com som Sensurround e projeção Cinemascope. As cadeiras tremiam. Fui com meu avô, fui com minha mãe. Fui sozinho, fui com namoradas e minha ex-mulher. Era um lugar que eu ia pra ter certeza de que Copacabana não foi uma ilusão na minha lembrança. Ele estava lá, firme. Os Cinemas Paradiso são lugares que te lembram de você, que te dão força quando a vida turva os pensamentos, sabe? O Roxy estava lá, pronto para me dizer: – olha, você veio mesmo aqui, lembra? Então…

Nos anos 1990, a enorme sala se fragmentou em três. Tudo bem, continuou sendo o Roxy, apenas com uma maquiagem diferente. Era uma parada obrigatória em tempos distintos. Era passagem inevitável quando eu ia na saudosa Copadiscos, que ficava na Nossa Senhora, pertinho do cinema, onde eu comprei meus primeiros discos de The Cure e The Police. O Roxy era o lugar em que a gente ia depois de passar no Bob’s – o primeiro do Brasil – da Rua Domingos Ferreira ou da pizzaria Caravele. Eu sempre parava para ver qual o filme estava passando, ler o cartaz de exibição. E respirei de alívio  várias vezes quando seu ar condicionado me dava boas vindas com aquela lufada de vento frio logo que entrava em seu salão art déco, com um lustre deslumbrante e piso de mármore. Antes eu comprava alguma guloseima na bomboniére, ou melhor, o adulto que estava comigo o fazia, mais tarde, eu, adulto e duro, tinha a estratégia de passar no supermercado em frente (já foi Merci, Casas da Banha, Zona Sul…) e comprar algo por um preço bem mais baixo.

Vi “E.T” no Roxy. Vi “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” no Roxy. Vi o primeiro “Guerra Nas Estrelas”, com oito anos, no Roxy. Vi “O Último Imperador” no Roxy. Copacabana tinha um número altíssimo de cinemas, tendo a rua em que eu morava, Constante Ramos, como um epicentro. Para o lado do Leme, havia o Copacabana, Art-Palácio, o Condor, o Bruni (depois Star). Para o lado do Posto 6, havia o Roxy, o Caruso. Todos transformados em lojas comerciais. Arthur Dapieve disse, como copacabanense que é, que Copacabana era uma sucessão de prédios sem alma, uma vez que a passagem do tempo levava as antigas fachadas, transformando a paisagem. O Roxy parecia imune a este processo, mas não.  Do meu auto-exílio em Niterói, sofro menos. Acho.

Por mais que o neoliberalismo tente e acabe cooptando a parte física das pessoas e das coisas, ele jamais será capaz de invadir as mentes. Sendo assim, “em algum lugar do passado”, que é presente ao ser lembrado, o Roxy estará, majestoso, me recebendo em diferentes épocas, todas juntas. E nele eu entro com as pessoas que um dia amei, que também me habitam e me fazem ser quem eu sou. E quem eu serei. Nesta dimensão múltipla, só cabe felicidade. De alguma forma.

Em tempo: junto do Roxy estão todos os outros cinemas mencionados aqui,  a Modern Sound, a Copadisco, a Moto Discos, o Banerj, a Confeitaria Colombo – onde eu ia comer vatapá no copinho com minha mãe nos sábados de manhã -, a Som Sete, o Dom Pixote, o Boninos, o Cirandinha e todos esses marcos que faziam de Copacabana…Copacabana.

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* Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Texto e imagem reproduzidos do site: celulapop com br

sábado, 11 de abril de 2026

O pedreiro que virou dono de cinema em Pernambuco










José Aurélio da Silva, 81 anos, construiu e mantém o cinema em Toritama (PE).

Publicação compartilhada do site PERNAMBUCO REVISTA, de 23 de Março de 2026

O pedreiro que virou dono de cinema em Pernambuco

Texto: Cleide Alves 
Fotos: Eduardo Cunha 

José Aurélio da Silva acaba de completar 81 anos. Ele nasceu em 9 de março de 1945, no município de Toritama, localizado no Agreste pernambucano, a 171 quilômetros do Recife. Trabalhou a vida toda como pedreiro, mas sua paixão mesmo era a “sétima arte”. Quando já contava 71 anos de idade, José Aurélio transformou sonho em realidade e construiu um cinema de rua na cidade, conhecida pelo polo têxtil. O Cine Aurélio foi inaugurado em 7 de setembro de 2016, com capacidade para cem lugares, decorado com cartazes e quadros nas paredes. Funciona apenas aos sábados e domingos, às 20h, e o ingresso custa  dez reais. Leia bate-papo com o construtor do cinema independente de Toritama, onde vivem 43.921 pessoas (IBGE 2025).

Revista Pernambuco - Como e quando o senhor passou a se interessar por cinema?

José Aurélio da Silva - Minha paixão pelo cinema começou quando eu era criança e frequentava o Cine São Luiz, aqui de Toritama.

Revista Pernambuco - O senhor se lembra do primeiro filme que viu em um cinema? Foi em qual sala e que idade o senhor tinha?

José Aurélio da Silva - O primeiro filme que eu assisti foi “O Ébrio”, do cantor Vicente Celestino, no Cine São Luiz, eu tinha uns 10 anos de idade.

*O Ébrio, lançado em 1946 e dirigido por Gilda de Abreu (1904-1979), é um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema no Brasil. Ator, roteirista, compositor e casado com Gilda de Abreu, o cantor Vicente Celestino (1894-1968) é o protagonista do filme.

Revista Pernambuco - Por que o senhor resolveu construir um cinema?

José Aurélio da Silva - Eu comecei a trabalhar com cinema nos anos 70, comecei por conta da minha paixão quando eu frequentava o Cine São Luiz, a paixão ficou mais forte então comecei a trabalhar com cinema.

Revista Pernambuco - Teve alguma ajuda para construir o prédio? Tem alguma ajuda, hoje, para manter o cinema?

José Aurélio da Silva - Infelizmente não tive ajuda de ninguém pra construir meu cinema (foto acima - Jadiel Ferreira Neto), construí com meus próprios recursos. Apenas recebi uma ajuda da Lei Paulo Gustavo, no ano de 2024. Hoje, dependo da bilheteria para manter a sala.

Revista Pernambuco - Quais são os filmes que passam no Cine Aurélio?

José Aurélio da Silva - Faço exibição de filmes nacionais e internacionais. Meu cinema também recebe o festival Curta Taquary (realizado em Taquaritinga do Norte, no Agreste, desde 2005), com mostras de curtas metragens.

Texto e imagens reproduzidos do site: pernambucorevista com br

Conheça Seu Aurélio, ex-pedreiro que construiu seu cinema


Seu Aurélio abre o Cine Aurélio, em Toritama, nos finais de semana 
e durante festivais, como o Curta Taquary. (Crysli Viana/DP Foto)


Quando Seu Aurélio comprou o Cine São José em 1992,
 ele adquiriu duas máquinas de projeção em 35mm. 
O primeiro filme exibido foi "King Kong", em preto e branco. 
(Foto: Crysli Viana/DP)

Com sete filhos, Seu Aurélio já ensina os segredos do ofício ao mais velho, 
Chico. É nele que deposita a confiança para manter o cinema de 
portas abertas no futuro. "Tô encaixando ele já, para quando eu não 
puder mais, ele tomar conta", afirma. (Foto: Crysli Viana/DP )

Mesmo com um projetor moderno e digital, Seu Aurélio segue
 sonhando com equipamentos melhores. "Queria um daqueles projetores que
 passam nos outros cinemas, mas é mais de R$ 500 mil.  Não vai chegar esse tempo, 
não. Só com uma doação", confessa, sem perder a esperança. (Foto: Crysli Viana/DP)

A esposa do Seu Aurélio, Dona Nenê, acompanhou o trabalho do marido
com os cinemas de rua desde o final dos anos de 1980, quando ele primeiramente
 alugou o Cine São José. (Foto: Crysli Viana/DP )

Seu Aurélio comemora o sucesso do Cine Aurélio na reabertura da sala, em 2016: 
"A sensação foi como voltar para o tempo em que eu era criança". 
Foto: Crysli Viana/DP 

Publicação compartilhada do site DIÁRIO DE PERNAMBUCO, de 21 de março de 2026

CINE AURÉLIO

Conheça Seu Aurélio, ex-pedreiro que construiu e comanda único cinema de rua do Agreste Setentrional

Seu Aurélio reinaugurou a sala do Cine Aurélio, localizado em Toritama, no Agreste Setentrional em 2016, após anos comandando o antigo Cine São José, que ficava no mesmo endereço

Por Allan Lopes

Com uma área de aproximadamente 3.590 km², distribuída em 19 municípios, o Agreste Setentrional de Pernambuco tem apenas 15,5 metros de largura dedicados à experiência coletiva de ver filmes em um cinema de rua, na sala de exibição do Cine Aurélio, em Toritama. Último sobrevivente do segmento na região, o prédio carrega na fachada o nome de José Aurélio da Silva, o Seu Aurélio, que o levantou e o mantém de pé. Aos 81 anos, ele é o proprietário, projecionista e, quando preciso, até pedreiro e pintor. Tudo isso para que os outros também possam amar o cinema do jeito que ele aprendeu.

Durante sete anos, ele reconstruiu o antigo Cine São José, do qual também foi dono, até concluir as obras em 2016 e reinaugurar a sala, rebatizada como Cine Aurélio. Seu Aurélio comprou a madeira e, com as próprias mãos, foi erguendo cada pedaço. Não houve prego que ele não batesse. “Prefiro fazer eu mesmo. Aí o serviço sai do meu jeito”, explica. A reabertura aconteceu no feriado de 7 de setembro, e foi um sucesso de público, com a exibição de ‘Velozes e Furiosos 7’. “A sensação foi como voltar para o tempo em que eu era criança”, diz.

Homem simples e humilde, desses que vivem com um sorriso pronto, Seu Aurélio ganha brilho nos olhos enquanto resgata as primeiras memórias no cinema — e elas vêm com facilidade. Lembra, por exemplo, quando passava horas espiando as sessões do extinto Cine São Luís, também em Toritama, por um buraco na parede da padaria vizinha, onde seu pai trabalhava. Aos nove anos, o dono passou a convidá-lo para entrar. Ele ia direto para a cabine, onde o filho do proprietário operava o projetor, e lá ficava até o filme terminar. Foi assim que assistiu “O Ébrio”, dirigido por Gilda Abreu, o primeiro de uma lista que só cresceu com o tempo. "Até hoje eu pego esse filme e assisto sozinho aqui", relata.

COMEÇO

No final dos anos de 1980, trabalhando como pedreiro e já casado com Dona Nenê,recebeu a proposta de alugar o Cine São José, que mais de vinte anos depois daria lugar ao Cine Aurélio. Topou na hora e passou três anos aprendendo o ofício, até que resolveu comprar o espaço em 1992. Quando adquiriu 120 cadeiras e duas máquinas 35mm, descobriu que aquilo não era garantia de público. “O primeiro filme que passei foi ‘King Kong’, preto e branco, e não veio ninguém”, conta. Longe de desanimar, improvisou um salão com 70 cadeiras e uma televisão para mais títulos, especialmente os de karatê.

Dessa vez, o público apareceu.

Para alimentar a programação, ia a Caruaru atrás dos filmes. No começo, só encontrava cópias piratas, que viviam falhando. Depois, com as versões originais disponíveis, passou a comprá-las. O acervo cresceu a ponto que decidiu criar uma locadora, dividindo espaço com o cinema. Por um tempo, o sucesso do aluguel foi a principal receita. “Eu exibia o filme e não aparecia ninguém. As pessoas levavam para assistir em casa”, relembra. Com 4 mil filmes, manter os dois negócios ficou insustentável. A prioridade, porém, foi levar a exibição dos filmes em fita cassete da televisão para a tela grande.

A transição exigiu novos equipamentos. Por isso, deixou os 35mm de lado e adquiriu um aparelho que prometia projetar na parede. A empolgação durou pouco. “A imagem era tão fraca que ninguém via nada”, revela, sobre a tentativa de exibir ‘Rambo 3’. Em uma gambiarra daquelas, pintou uma folha de Duratex com tinta de alumínio e a usou como tela. “Melhorou um pouco, mas só quem estava perto enxergava direito”, lembra, rindo da situação. O sofrimento acabou quando comprou um projetor Sony no Recife. “A imagem melhorou uns 90%. Não era o ideal, mas dava para o gasto”, comemora.

Atualmente, o espaço que agora acolhe o Cine Aurélio tem 97 lugares. As sessões acontecem aos sábados e domingos, às 20h, com ingresso a R$ 10 para todos. A falta de demanda em dias úteis inviabiliza sessões durante a semana. A exceção fica por conta de visitas escolares ou festivais, como o festival Curta Taquary, que há sete anos ocupa o espaço e exibiu mais de 60 curtas-metragens de todo o Brasil ao longo da última semana. “É muito bom porque traz gente de todos os cantos”, celebra Seu Aurélio. Na última quarta-feira (18), quando a reportagem do Diario esteve lá, todas as sessões lotaram com estudantes da rede municipal e estadual de Toritama e região.

FUTURO

Em frente ao cinema mora o comerciante Judá Ben-Hur, vizinho de porta da sala de exibição. Sua primeira memória do espaço é da estreia de ‘Titanic’. “A gente ficava contando os dias para assistir aqui, na nossa cidade, aquele filme que marcou época. Quando finalmente chegou, foi sensacional”, recorda. Ele se orgulha da resistência cultural de Toritama, mas lamenta a ausência nas cidades vizinhas. “Cinema é uma coisa que tem que ter em todos os lugares”, afirma.

Mesmo com um projetor moderno e digital, Seu Aurélio segue sonhando com equipamentos melhores. “Queria um daqueles projetores que passam nos outros cinemas, mas é mais de R$ 500 mil. Não vai chegar esse tempo, não. Só com uma doação”, confessa, sem perder a esperança. Agora que a reforma da casa ficou pronta, Dona Nenê já liberou ele para investir no cinema de novo. A lista de desejos é longa. “Tem tanta coisa. A parte técnica, a instalação que eu fiz, a coberta… tudo vai ser revisado”, planeja.

Com sete filhos, Seu Aurélio já ensina os segredos do ofício ao mais velho, Chico. É nele que deposita a confiança para manter o cinema de portas abertas no futuro. “Tô encaixando ele já, para quando eu não puder mais, ele tomar conta”, afirma. Até esse dia chegar, porém, o dono do Cine Aurélio continua chegando todo santo dia às seis da manhã, mesmo sem sessão, testando os filmes e pensando em como melhorar a experiência de quem vem assistir. “É cada vez melhor fazer isso. Me sinto realizado”, celebra.

Texto e imagens reproduzidos do site: www diariodepernambuco com br

quarta-feira, 8 de abril de 2026

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Cinesercla, no Shopping Praia Sul, em Aracaju-SE.





Imagens extraídas de vídeo postado no Instagram/Lívia Sampaio

Cinema Odeon no Rio de Janeiro, Brasil







Post compartilhado do Facebook/Cinema Treasures, de 1 de abril de 2026

Cinema Odeon no Rio de Janeiro, Brasil

Em março, o Cinema Odeon no Rio de Janeiro, Brasil, completou 100 anos. Para comemorar, várias exibições foram agendadas, incluindo os filmes *Velhos Bandidos* (Bandidos Antigos) de Claudio Torres e *Nuremberg* de James Vanderbilt. Hoje assisti *Nuremberg*, um grande filme com excelentes atuações dos atores principais. Um fato curioso: o preço do ingresso era simbólico, apenas 1 Real (20 centavos de dólar). Infelizmente, este cinema só realiza exibições em ocasiões especiais. Eu usei o Google Translate para traduzir do português para o inglês.

Texto e imagen reproduzidos de post do Facebook/Cinema Treasures

terça-feira, 31 de março de 2026

Cinesercla, Shopping Praia Sul, Aracaju/SE. (01/04/2026)



O Cinesercla no Shopping Praia Sul, no bairro Aruana, em Aracaju-SE., contará com 5 salas modernas, incluindo projeção a laser e uma sala VIP, O novo cinema fará parte do novo centro de compras, que oferecerá opções de lazer e entretenimento na região. 

Detalhes do Cinesercla - Shopping Praia Sul 

Salas: 5 salas com tecnologia de projeção a laser.

Diferencial: Uma Sala VIP, oferecendo maior conforto e exclusividade.

Salas

VIP · Poltronas reclináveis, maior espaçamento e com carregador de celular.

LASER · Projeção a laser de alta performance que garante imagens mais nítidas e cores vibrantes.

Idiomas

DUB · Filme dublado em português.

LEG · Filme no idioma original com legendas em português.

ORIG · Filme nacional ou exibido em seu idioma de origem.

Sessões

3D · Experiência de visualização tridimensional que proporciona maior imersão.

2D · Exibição convencional em duas dimensões.

AZUL · Sessão amigável com luzes levemente acesas e som mais baixo.

Fonte: cinesercla.com.br/praia-sul

segunda-feira, 30 de março de 2026

'Hoje nos cinemas!!!', por Marise Baesso

Legenda da foto: Fila na porta do Cine Veneza para mais uma sessão lotada exibindo o filme Titanic. (Imagem reproduzida do Blog Maria do Resguardo).

Artigo compartilhado do site CINEMAS DE RUA, de 19 de julho de 2021

Hoje nos cinemas!!!
Por Marise Baesso

“HOJE”. A placa com estas letras bem grandes ficava instalada na rua principal da cidade. Abaixo, um cartaz com a programação do filme que seria exibido na sessão noturna daquele dia no Cine Brasil. Lembro-me perfeitamente do “Hoje”, mas, ao vasculhar a memória, não encontro nenhuma imagem afixada abaixo daquele letreiro, que depois também o tempo apagou… A placa ficava na parede da frente da loja de minha tia avó Elza Baesso, na Rua do Comércio, a principal de Guarani. 

E era ela também, minha tia, uma espécie de diretora ou talvez gerente do cinema, que concedia o “passaporte” para muitos dos meus antepassados “viajarem” no escurinho daquela sala imensa para assistir a filmes durante anos até que as luzes se apagassem, as cadeiras fossem retiradas, o lugar virasse fábrica e fechasse as portas… Com o fim da fábrica e sem virar igreja (destino de muitos), o prédio se mantém para rasgar os corações de saudade dos guaranienses que viveram os seus dias de glória, enquanto os das gerações seguintes só ouviam histórias e os mais jovens nem isso. O edifício que vai perdendo a identidade cada dia torna-se mais silencioso e invisível…De lá não saem mais histórias, romances, namoros…. 

Não pude assistir aos filmes naquele cine Brasil. Era muito pequena quando a cortina se fechou. Lembro-me apenas de cenas de uma matinê do desenho “Branca de Neve”… – a maçã, a bruxa caindo de um despenhadeiro, a mão no rosto para não ver a telona, morrendo de medo daquela malvada -, mas ouvi belas histórias. Minha tia Elza na bilheteria, meu tio Ítalo na portaria, meu pai na cabine de projeção…. Na tela, Gregory Peck, Anthony Quinn, David Niven estrelando em “Os Canhões de Navarone”. Apesar de o filme ter sido lançado em 1961, quando eu ainda não era nascida, mais de uma década e meia depois, lembro-me de meu pai contando ao meu irmão cenas daquele clássico de guerra que continuava sendo exibido. O que seria Navarone? Muitos anos mais tarde soube, enfim: era uma ilha grega onde ocorreu importante confronto da Segunda Guerra Mundial.

Pelo que contavam, as idas ao cinema eram um evento. A minha tia Elza sempre exigente, tentando manter a ordem, enquanto os mais jovens viam ali momentos de diversão e prazer. Em um dos filmes – talvez algum leitor identifique – havia uma cena em que a rainha Maria Antonieta olhava para trás antes de ser executada na guilhotina. Prato cheio para que os projecionistas dentro da cabine de onde vinha aquela “misteriosa” luz dessem um jeito de fazer alguma brincadeira. Dito e feito. Na hora da primeira exibição, enquanto a rainha caminhava para a guilhotina, meu pai solta um grito lá de trás: “Maria Antonieta!!!!!”. E a atriz na telona vira a cabeça, olha e volta a caminhar…  Claro que o público explodiu em gargalhadas e depois indignação, e meu pai levou uma bronca danada… Não sei se foi exatamente assim, mas é o que guardo no meu baú de memórias sobre aquele lugar.

 Com o apagar das luzes no Cine Brasil, só nos restava, quando crianças, assistirmos “Os Trapalhões”, quando vínhamos a Juiz de Fora, nas férias. Era passagem certa pelo Cine Excelsior. Pipoca na mão, corríamos para dentro daquela sala suntuosa, onde o teto nos arrebatava. Anos depois, em 1989, mudei-me para Juiz de Fora. No mesmo Excelsior, assisti vários filmes, dentre eles, o longuíssimo e inesquecível “Dança com Lobos”, de 1990, com Kevin Costner. 

No ano seguinte, 1991, debulhei-me em choro com Robert de Niro e Robin Williams em “Tempo de Despertar”. Quando fui assistir, a exibição já estava no pequeno Cine Festival, uma sala anexa, no segundo andar do pomposo Cine-Theatro Central. Filme tão lindo e triste não deveria ser apresentado assim em salas pequenas onde a emoção precisa ser contida para não atrapalhar a plateia. 

Ainda nos anos 1990, já estudante de jornalismo, guardo uma memória saudosista do Cine Paraíso, na Rua São Mateus, onde pude me apaixonar por Pagu, a jornalista e escritora Patrícia Rehder Galvão, personagem interpretado por Carla Camurati. O filme “Eternamente Pagu”, de 1988, estava sendo exibido anos mais tarde naquela sala onde o público podia se deliciar com produções que estavam fora do circuito comercial, os chamados cults.

Claro que trago ainda memórias de “Titanic”, megaprodução com uma das maiores bilheterias da história, que chegou ao Brasil em 1998. Assisti pelo menos três vezes ao filme, que fazia o público enfrentar uma fila de virar a esquina para entrar no Cine Veneza, na Avenida Rio Branco. Quanta saudade!!!! Aliás, como frequentei o Veneza. Ele ficava próximo de onde eu morava com meus irmãos, na Rua Braz Bernardino. Estudantes que éramos, aproveitávamos a bilheteria mais barata nas noites de quarta-feira para nos acomodarmos nas poltronas e ver tudo que estivesse em cartaz: “Independence Day”, “The Doors”, “Edward Mãos de Tesoura”, “La Bamba”, “Aracnofobia”, “A Bruxa de Blair”… Em março de 2000, o Veneza encerrou suas exibições, e as histórias dos cinemas de rua foram ficando cada vez mais escassas. 

Em 2010 – numa atitude de resistência, porque os cinemas dos shoppings já dominavam a cidade – tentei assistir com meu marido a “Tropa de Elite II”, no Cine Arte Palace, mas, no meio da projeção, houve problemas na fita. A história assistida ali por, no máximo, meia dúzia de pessoas, foi interrompida, e tivemos o dinheiro de nossos ingressos devolvido… A cena da interrupção de um filme seria até corriqueira lá no Cine Brasil, no tempo em que os rolos nas latas demoravam a chegar de ônibus, e o público xingaria, mas se manteria fiel, esperando a próxima produção anunciada na loja da “dona Elza”. 

Com a tecnologia, hoje, não há mais espaço para isso. Restam//-nos as memórias nostálgicas de tantos filmes que marcaram a nossa vida em cinemas que também eram apaixonantes e tinham histórias que envolviam gerações. Sem grandes redes de shoppings, as cidades pequenas, como Guarani, nunca mais tiveram oportunidades de ter um cinema. Quem dera o acesso à telona fosse para todos!!!

Texto e imagem reproduzidos do site: cinemasderuajf com br