sábado, 21 de março de 2026

Cinemas de rua: memórias de uma era de ouro...




Fotos: Arquivo professor Maurício Ferreira

Publicação compartilhada do site SAMPI NET, de 27 de agosto de 2023 

Cinemas de rua: memórias de uma era de ouro em Jundiaí/SP.

Por Yasmim Dorti | Jornal de Jundiaí

Com o lançamento do filme "Retratos Fantasmas", de Kleber Mendonça Filho, que estreou nesta quinta-feira (24), os antigos cinemas de rua ressurgiram de forma nostálgica para as pessoas que até hoje guardam carinho e memórias inesquecíveis daquela época. Em Jundiaí, mais de 15 cinemas abrigavam as exibições cinematográficas.

Os cinemas de rua, que eram grandes edificações localizadas em bairros, se tornaram um ponto de encontro e principal consumo de cultura. O período entre as décadas de 1920 e 1950 foi especialmente importante para a popularização desses espaços como um entretenimento. Entretanto, com o avanço da televisão, a partir das décadas de 1950 e 1960, os cinemas de rua começaram a enfrentar desafios, devido à "competição" com o entretenimento em casa.

Em Jundiaí, a maioria dos cinemas abriu as portas na década de 1950. De acordo com Maurício Ferreira, proprietário de um acervo e professor de Direito, Ética e Cidadania, com a inauguração das salas de cinema de shopping, em 1989, os remanescentes, Marabá e Ipiranga, no Centro da cidade, começaram a sentir dificuldades para se manter.

"Os cinemas acabaram migrando para os shoppings devido à segurança. As pessoas se sentiam em um ambiente melhor no shopping, sendo climatizado, com mais atrativos, praças de alimentação, salas de cinema bem novas e também por conta dos altos custos dos cinemas do Centro, que eram prédios mais antigos, com aluguéis mais caros. O Cine Marabá foi demolido e hoje é um estacionamento, o Cine Ipiranga se tornou a Textil Abril, ele resistiu um pouco, mas não conseguiu cobrir os altos custos de manutenção do cinema e o baixo número de público, que migrou para os shopping centers", contou Maurício.

ALÉM DAS TELONAS

Apesar de serem simples salas de exibição, esses espaços guardam memórias inesquecíveis e histórias de amor que se desenrolaram nas poltronas.

Isabel de Souza, 66 anos, aposentada, se lembra da primeira vez em que foi ao cinema: na época, passava o filme "Grease - Nos tempos da brilhantina", de 1978. Quando frequentava o colégio e considerava a aula "chata", costumava matar aulas para ir assistir filmes.

"Nos anos 70, as opções de cinema de rua eram várias. Era um entretenimento barato e todos tinham acesso. Quando o filme impunha idade para ingressar, eu e minhas amigas tínhamos carteirinha escolar com idade grosseiramente falsificada. Hoje me pergunto 'Como não percebiam?', se percebiam, deixavam para lá, até porque os filmes que nos eram proibidos, eram tão ingênuos quanto nós. De 73 a 76 eu estudava à noite no colégio e essa foi a melhor época. Ia ao colégio e, se as aulas fossem 'chatas', deixava lá o material escolar e ia ao Marabá, assistíamos de tudo, afinal qualquer filme com pipoca e um comparsa parecia ser mais interessante do que as aulas. Apesar de ser irresponsável da minha parte, era uma delícia. Depois era só voltar e assistir às últimas aulas 'entrando de fininho'. Tenho saudades, mas eram outros tempos, hoje prefiro a segurança e comodidade dos cinemas nos shopping centers", contou a aposentada.

Vera Aida de Oliveira Borin Souza, 71 anos, começou a namorar seu marido, Edson de Souza, 70 anos, no Cine Polytheama, em 13 de junho de 1973. Na época, assistiram ao filme "Love Story". "Eu conheci meu marido através de seus primos, os quais eram meus amigos, em Campo Limpo Paulista, alguns anos antes de começarmos a namorar. Na época, ele morava em São Paulo e vinha sempre com o irmão passear na chácara dos tios em Campo Limpo, eu morava próximo e nos fins de semana fazíamos bailinhos na varanda. Mas começamos a nos interessar um pelo outro quando ele veio morar em Jundiaí. Eu estudava no colégio e nos fins de tarde sempre nos encontrávamos no escritório de contabilidade de um tio dele. Entre idas nos cinemas da época, Marabá, Ipiranga, entre outros, começamos a namorar durante uma sessão do Cine Polytheama, no dia de Santo Antonio", contou.

Vera ainda relembra momentos que viveu naquela época. "Eu e meu marido, na época namorado, íamos muito nos cinemas e quando pegávamos a última sessão não havia mais ônibus para a casa dele, que na época morava na Rua do Retiro, próximo à Faculdade Anhanguera e o jeito era ir andando a pé. Hoje quando passo por lá não acredito que andávamos tudo aquilo e quase de madrugada", relembrou. Atualmente, eles celebram 50 anos juntos, sendo 46 anos de casados.

MEMÓRIAS

O empresário Paulo Abraão Colombera, 36 anos, conta que seu pai, Dorival Júlio Colombera, falecido aos 79 anos, trabalhava no Cine Polytheama, com cartazes antigos. "Desde pequeno sempre tivemos contato com a arte em geral. Me lembro que em casa sempre tivemos muitos livros, aos domingos almoçávamos em família ouvindo musica clássica (meu pai gostava muito de trilhas sonoras de filmes, orquestra Tabajara e Ray Coniff)", explicou o filho.

"A ligação com cinema sempre foi muito intensa. Em Jundiaí, no Teatro Polytheama, antes de seu fechamento, na década de 60, o espaço era conhecido como "Cine Teatro Polytheama", onde passavam filmes famosos daquela época. Me lembro de meu pai contar que ele trabalhava no teatro e, pelo alto custo dos rolos de filmes, existia uma espécie de parceria entre o Cine Teatro Polytheama e o já extinto Cine Ipiranga e Marabá, entre alguns outros. Ou seja, ele tinha que colocar o filme para rodar no Cine Polytheama e assim que finalizava a exibição do filme, tinha que sair correndo levando os rolos para outro Cine que iria reproduzir o mesmo filme no mesmo dia", contou Paulo.

Além disso, o filho conta que, posteriormente, seu pai foi convidado para atuar. "A Paixão pelo cinema fez com que fosse convidado para atuar em um filme que seria gravado em Jundiaí, na época não teve uma grande vendagem, mas para ele foi motivo de orgulho. O filme chama-se "A Lei dos Fortes". Outro filme que seria rodado em Jundiaí, precisamente na Fazenda Ermida, foi do saudoso Mazzaropi, chamado 'Casinha Pequenina'. Neste, porém, meu pai não fez parte do elenco, mas sempre contava essa historia", relatou Colombera.

Paulo traz consigo o ensinamento que foi passado de seu pai e o amor pela arte. Atualmente, é baterista e segue a arte musical. "Tenho um carinho por todo ensinamento que me foi passado, mas o curioso é que nunca fiz teatro profissional, apenas atuei em peças amadoras em eventos familiares. Na realidade, a música sempre foi evidente na minha vida e o respeito que meu pai teve por isso desde o inicio foi um grande ensinamento, respeitando a arte, seja ela qual for, sem proibir ou impor qualquer restrição", contou Colombera.

Texto e imagens reproduzidos do site: sampi net br/jundiai

segunda-feira, 16 de março de 2026

Projecionista Miguel Tavares, do cinema São Luiz de Recife






Miguel Tavares cresceu nos bastidores da exibição e projeção de filmes
Foto: Marina Torres

Publicação compartihada do site DIÁRIO DE PERNAMBUCO, de 28 de fevereiro de 2026 

Projecionista da sala há mais de 20 anos se emociona com sucesso do local nas telas

Projecionista Miguel Tavares conta com exclusividade ao Diario a sua trajetória na função na sala de exibição mais famosa do país atualmente, o Cinema São Luiz

Por André Guerra

É difícil medir quando começou a relação de Miguel Tavares de Lima Filho com os bastidores da exibição de filmes, porque, para ele, esse ambiente sempre foi uma segunda casa. Seu pai, Miguel Tavares, trabalhava no Cinema Veneza, um dos mais tradicionais do Recife (fechado em 1998), onde, quando criança, chegava a disputar com o irmão para ficar acompanhando o pai até tarde no serviço. O que ele jamais poderia imaginar é que essa vida o levaria à cabine de projeção mais famosa e cortejada do país hoje: a do histórico Cinema São Luiz, que é cenário de O Agente Secreto e agora está sob os holofotes do Oscar.

“Ver esse lugar onde eu trabalho há tantos anos projetado por meio das minhas mãos na telona do próprio São Luiz provoca uma emoção que eu não sei nem descrever direito. As sessões sempre lotadas são uma coisa linda demais”, exalta Miguel em entrevista ao Diario, refletindo sobre o sucesso do longa pernambucano no cinema. “Dá um orgulho maior ainda lembrar que pude participar do filme, de certa forma, mostrando essa área restrita da cabine para a produção quando estavam organizando tudo por aqui para gravar”.

A carreira de Miguel perpassa a memória da própria cidade com seus cinemas. Além de ter conhecido o Veneza desde pequeno, ele trabalhou no Cinema Moderno como servente de limpeza ainda no fim da adolescência e, com o encerramento das atividades da sala em 1996, foi trabalhar nos antigos Cines Recife 1-2-3, em Boa Viagem. Após o fechamento desse último, em 1998, ele voltou para o Centro e ficou na mesma função no Shopping Boa Vista. De lá, começou sua jornada no São Luiz, onde está até hoje, sendo, inclusive, o responsável por trocar os famosos letreiros da fachada do equipamento cultural.

“Eu frequentava muito aqui quando pequeno. Vinha ver filmes dos Trapalhões, da Xuxa e vários internacionais também. Quando finalmente comecei a trabalhar no cinema, quis logo observar como os filmes eram projetados”, relembra Miguel. “Só quem podia subir até a cabine eram o projecionista e o gerente, mas eu subia só de teimoso mesmo. Assistia aos rolos de filmes chegando e via o pessoal montando para exibir. Aprendi sem ninguém precisar me ensinar”.

A insistência dele em participar do processo deu resultado. Em uma ocasião, quando os dois encarregados estavam fora, ficou sob sua responsabilidade projetar uma sessão lotada de última hora, com o público inteiro já dentro da sala. Durante o bate-papo com o Diario, ele recapitula o misto de nervosismo e satisfação daquele dia, que transformaria sua vida. “Eu nunca tinha colocado filme para o público e nem deu tempo de testar, coisa que a gente sempre tem que fazer. Estava me tremendo todo. Mas, no final, deu tudo certo”, conta.

Uma das mais importantes figuras do Cinema São Luiz, o saudoso Geraldo Pinho, acompanhou parte dessa trajetória de Miguel, e ele guarda grandes lembranças do programador. “Era atento a tudo e a todos aqui. À troca dos cartazes, dos letreiros, aos filmes que chegavam, às funções de toda a equipe. Era o 10 aqui do cinema e faz muita falta a todo mundo que trabalhou com ele”, reforça.

Dividindo atualmente a função de projeção com João Bosco e Arthur Abdon, Miguel passou por importantes transformações tecnológicas do cinema também, tendo que aprender a projetar no formato digital quando chegou o novo projetor. “No começo é sempre meio complicado, mas, uma vez que você pega o jeito, fica até mais fácil e mais rápido”, explica. “Outro dia chegou uma cópia em 35 mm de ‘O Agente Secreto’ [originalmente feito em digital], e a gente exibiu aqui. É mágico demais o processo”.

Ainda por trás dessa mágica que bate a claquete da exibição para tantos espectadores de Pernambuco e visitantes do Brasil todo, Miguel Tavares é parte indivisível do Cinema São Luiz e da cabine, de onde segue fazendo história.

Texto e imagens reproduzidos do site: www diariodepernambuco com br

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O grande mini-cine Tupy

Publicação compartilhada do site O TABOANENSE, de 6 de julho de 2007

O grande mini-cine Tupy
Por Sérgio Vaz

Esses dias assisti a um filme brasileiro chamado “Tapete vermelho” do diretor Luiz Alberto Pereira que conta a saga de um pai que promete ao filho leva-lo ao cinema para ver um filme do Mazzaropi.

Ao sair da roça, em sua busca, percorre várias cidades do interior e descobre que as salas de cinemas já não são tão populares como nos tempos do seu pai (a maioria delas virou templos evangélicos). Um filme para quem ama a sétima arte, e para quem curte o impagável Matheus Nacthergaele, um dos melhores atores do país.

Estou falando disso porque sou amante do cinema e porque também me lembrei de uma outra paixão: as pessoas simples que atuam na realidade. Cinema + pessoas simples = Zagatti. Luz!

Para quem não conhece, no horário comercial Zagatti é catador de papel, e, por conta disso, seus dias são quase invisíveis nas grandes salas coloridas onde são decididos nossos papéis de coadjuvantes, nesse curta-metragem que é a vida. Nada disso! Isso é para quem interpreta o filme errado. O Mazzaropi de Taboão achou um projetor no lixo, criou o mini-cine Tupy para que as crianças da periferia também possam sonhar aos domingos com o mundo dentro de um saquinho de pipoca. Já é até filme. Câmera!

Zagatti é um ser humano como poucos, por isso sofre como muitos. Arte é sofrimento e ser uma pessoa boa atrai muitas pessoas ruins. Sabe como é… nessa vida tem muito vilão no papel de mocinho, e é muito difícil chegar ao fim da película sem que alguém sangre no final.

Sendo o que é, Zagatti é um dos melhores personagens da vida real dessa cidade e de outras cidades do mundo. As crianças que lotam seu cinema sabem do que eu estou falando. Aliás, um sorriso no rosto é o valor da entrada.

O seu mini-cine Tupy é o nosso cinema Paradiso, que é outro filme belíssimo sobre amor ao cinema. Esse longa, de Giuseppe Tornatore, conta a história de Toto, um menino que amava ir ao cinema, e se torna amigo do velho Alfredo, projecionista do local no único cinema na cidade.

Aí segue uma verdadeira história de amizade e amor ao cinema. O filme é lindo, assista. A história maravilhosa do Zagatti passa diante dos nossos olhos, sem cortes e sem efeitos especiais, conheça. Ação!

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Sérgio Vaz, é poeta. O poeta da periferia.

Texto e imagem reproduzidos do site: www otaboanense com br

Projecionista comemora retomada das atividades do Cine Penedo

Após 40 anos: antigo projecionista comemora retomada das atividades do Cine Penedo

Publicação compartilhada do site Revista Alagoan, de 21 de janeiro de 2024

Cine Penedo reabre as portas ao público, em movimento renascentista dos cinemas de rua no Brasil

Por Gabriely Castelo e Raphael Medeiros

Grande Retorno. Entre os dias 13 e 19 de novembro, o Circuito Penedo de Cinema, acontecerá em um gigante da sétima arte, que até então estava desativado. O Cine Penedo retorna ao público em grande estilo, recebendo um dos maiores festivais de cinema do mundo. A 13ª edição reaquece o crescimento dos cinemas de rua em todo país.

Com uma voz grave, já avançada, Seu José Luiz Passos, 77, carrega muita sabedoria na fala. Ele é radialista e “ex-operador cinematográfico”, como disse. Bem humorado, gente finíssima e auto-intitulado “véinho” (com muitos risos), ele conversou com a Revista Alagoana e contou detalhes dos bastidores do dia-a-dia cinematográfico de Penedo.

“Pouca gente aqui [em Penedo] sabe o que é um filme, porque o cinema fechou em 93. De lá pra cá, quantos milhares nasceram? E não conhecem, não sabem, não viveram.” comenta seu José Luiz Passos, ex-operador cinematográfico do Cine Penedo.

Após um intervalo de 40 anos, o Cine Penedo está prestes a reabrir suas portas durante a estreia do Circuito Penedo de Cinema 2023, marcando um emocionante e importante renascimento dos cinemas de rua, em Alagoas.

Seu Luiz compartilha suas memórias da época em que o cinema era o epicentro cultural da região.

“No final dos anos 50, nós recebíamos os filmes da capital, de Maceió, vinham em estrada de barro. O carro saía às 7, 8 horas da manhã, chegava aqui às vezes 9, 10h da noite, principalmente se fosse a época invernosa, era barro e piçarra vermelha, o carro atolava e deslizava, o povo tinha que descer, e havia um atraso”, diz seu Luiz, relembrando à época analógica.

“O ônibus nem precisava ir para a rodoviária, já que estava atrasado.” O operador conta, com nostalgia, as histórias do tempo em que era o encarregado de buscar e exibir as películas aos penedenses.

Luiz descreve vividamente os desafios desse leva e trás, dos filmes de Maceió à Penedo, onde estradas de terra ligavam todo o caminho percorrido. Apesar das dificuldades, a comunidade estava sempre presente. Todos se reuniam em frente à telona, para assistir a uma variedade de filmes nacionais e clássicos, criando uma experiência cultural única. “Aviso aos Navegantes”, “Oscarito”, “Matar ou Morrer”, “Zorro”, “Os Poderes de Ninhoca”, “As Aventuras de Doutor Satã” e muitos outros títulos foram projetados pelo à época, jovem Luiz.

Curiosamente, ele contou à reportagem que também eram exibidas séries, com intervalos semanais e tudo que estamos acostumados hoje, porém, sem nada on demand- se perdesse a sessão, teria que perguntar aos amigos e conhecidos. A cidade inteira se reunia, no Cine Penedo, para assistir às estreias toda semana.

“O bandido ficava tentando matar o artista, o bandido prendia o artista e a gente, na outra semana, voltava com todo mundo para ver como tinha ficado. Todo mundo queria ver o andamento das coisas. Foi um tempo muito bom de aprendizado como profissional, com muito aproveitamento cultural. Assisti muitos filmes bons, muitos filmes épicos. Como Os 10 Mandamentos, que foi uma grande movimentação na cidade.”, relembra.

Dado o enorme público, no primeiro dia da exibição de “Os 10 Mandamentos”, foram feitas duas sessões naquela noite.

“A sala encheu, não tinha ventilador, não tinha ar condicionado. O povo suava como uma tampa de chaleira, mas entrou, ficou e assistiu mais três horas de Os 10 Mandamentos”, recorda com alegria.

Era uma garotada, um perfil coletivo, tinha todo tipo de gente. Cinema é cinema, é a sétima arte. Todo mundo andava em fileiras, em direção aos seus assentos. Cartazes eram distribuídos na cidade, em pontos bem estratégicos. Penedo tinha o melhor cinema do norte-nordeste.

Hoje em tempos de filmes de super-heróis, o ex-operador recorda o tempo em que a moda “da garotada” era outra. Ele conta que frequentava o Cine não só para assistir os filmes de cowboy. “Eu vinha aqui para ouvir, é bonito! A bala ricocheteando lá nas pedras.”

Se a trama fosse épica, aí era “da intelectualidade”, diz Seu Luiz, o que apelidamos de “cinema cult” hoje em dia.

Atualmente, uma sala de projeção de cinema não é nada como antes, nem de perto é tão complicada quanto foi um dia. Os projetores não tem mais a mesma altura de um humano e a sala é bem mais geladinha. Ninguém melhor para comentar o assunto que o responsável pela área em Penedo.

“Eu conheci todo o equipamento. O engenheiro lá fez uma demonstração pra mim, diferente daqueles gigantes mecânicos que nós trabalhávamos.”

Porém, quando perguntado sobre a modernização, a adaptação do público aos serviços de streaming, a resposta não foi nada animadora. Amante de cinema, Seu Luiz comenta, com a voz tristonha com os novos tempos e sinaliza que o ato de ir ao cinema, será algo nichado, “para quem ama ir ao cinema”.

Painel que ficava no Cine Penedo; Seu Luiz diz reconhecer ao menos 3 das damas. 

“Por mais que queira modernizar, não vai ter o lugar de volta[O cinema]. Isso está sacramentado. O cinema não vai mais ser um líder para pegar o seu público, o seu espectador habitual.”

E finaliza, comentando o conforto que os serviços de streaming à ponta dos dedos dão a todos:

“Você podendo assistir em casa, no conforto do televisor de 70 polegadas, com a qualidade sonora a seu gosto. Você bota agudo, grave, médio, e assim vai. O cinema vai ficar, com toda essa tecnologia moderna, vai ficar um nome. Cinema. Cinema.”

Circuito Penedo de Cinema

Depois de tanto tempo inativo, o prédio foi adquirido pelo IPHAN Alagoas e cedido à Universidade Federal de Alagoas (Ufal), para promover a retomada da produção audiovisual em Penedo. A restauração do local histórico foi financiada pelo BNDES, marcando um renascimento do cinema na região. Pioneiro da sétima arte no Baixo São Francisco alagoano, funcionou de 1950 a 1980- trinta anos de ouro, que diga Seu Luiz.

Texto reproduzido do site revistaalagoana com

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

"Templo das artes - Cine Alvorada", por João Neto

Foto: Fachada do Cine Alvorada Fonte: autor

Foto: Inauguração Cine Alvorada Fonte: Acervo Wagner Torres

Foto: caixinha de uva passa vendida por D. Francisca

Foto: Pinturas na parede - Fonte: autor

Painel na residência de Rosiane, Filho de Seu Tibúrcio Fonte: Rosiane

Foto: Máquina do projeção 

Artigo compartilhado do site APENSO COM GRIFO. de 14 de abril de 2020

Templo das artes - Cine Alvorada
Por João Neto  

             A grandiosidade do Cine Alvorada impressionava. Um prédio naquelas dimensões numa pequena cidade do sertão de Alagoas era um feito histórico. Construído nos anos 60 pelo santanense Sr. Tibúrcio Soares, no mesmo modelo do Cine Albatroz, no bairro Casa Amarela, na cidade do Recife. Esmero e ousadia foram marcas indeléveis do empresário. O engenheiro civil responsável pela obra foi o Sr. Carlos Wanderley. Sua fachada moderna e imponente se destacava na Praça Manoel Rodrigues da Rocha.

         Inaugurado em 1962, com capacidade para 800 pessoas, com as presenças de diversas autoridades, dentre elas: o Padre Cirilo, Ex-Governador Arnon de Melo, Elesbão de Carvalho, Prefeito de Maravilha, Manoel Barros, João YoYô, Eraldo Barros e Cleto Duarte, além do proprietário, Tibúrcio Soares. Luxuoso, o empreendimento elevou a cultura local.

     Na área central do hall entrada, cavaletes ofereciam à vista cartazes chamativos dos próximos lançamentos. Os sofás de napa azul-celeste, na charmosa sala de espera eram curvados, no lado direito de quem entrava. Design sofisticado, acompanhando a tendência romântica dos móveis dos ambientes chiques. 

         Nas paredes do lado direito, vários quadros de aviso exibiam cartazes das atrações vindouras. Naquela época só havia uma sessão por noite. Mais de uma projeção, somente aos sábados, domingos e datas festivas. Aos domingos havia uma exibição vespertina para o público infanto-juvenil. 

       No canto da sala de espera, um grande espelho preenchia todo o espaço, causando-nos a impressão de que aquele ambiente era bem maior do que realmente era. Cada transeunte, que por ali passava, tinha em si, o impacto visual da própria imagem. Luxo incomum para a ingenuidade do povo do lugar. 

          No lado esquerdo de quem entrava estava a lanchonete, com arquitetura moderna e ampla visão. Quem estava fora via quem estava dentro e vice-versa. Amplo sortimento de balas, guloseimas, lanches, refrigerantes e assemelhados. 

         Após a subida de vários degraus, adentrava-se à imensa sala de exibições por dois longos corredores. Impressionava a grandiosidade! As incontáveis filas de cadeiras de madeira marrom, com assentos dobradiços, tomavam conta do ambiente. No lado direito do prédio, ficavam as saídas para os banheiros masculinos e a saída de emergência. Os banheiros femininos estavam localizados abaixo da área da tela de projeção. A plataforma do espaço da tela também servia de palco para apresentações musicais e programas de auditório. 

      Assistimos aos shows dos artistas Balthazar e José Augusto, dentre outros. Vimos despontar o talento irrefutável do cantor santanense Waldo Santana, além de grandes vozes dos nativos: Dotinha, Guilherme, Genivaldo Barbosa e Sílvio Bernardo, dentre outras. O animado comunicador e radialista Chico Soares comandava os programas de auditório com transmissão ao vivo da emissora de rádio local. Apresentações performáticas do cantor seresteiro, de voz gravíssima, Manoel Teles, vulgo “Caçador”. O cinema ficava lotado. O público vibrava com os seus artistas prediletos. 

        O ambiente artístico absorvia-nos, silenciava-nos e nos convidava à contemplação dos murais de pinturas sertanejas nas paredes laterais. Traços pretos delineavam vidas negras e inertes que ganhavam alma nos olhares dispersos de gente anônima, escancarando a realidade da idiossincrasia de quem somos, com sutileza e magia. Vozes do sertão gritavam e nos chamavam à meditação da condição humana através da exaltação da estética do simples, sem voz e sem vez! 

       Ficávamos boquiabertos com tanta beleza! Eram pinturas cubistas retratando o cotidiano do semiárido nordestino: vegetação, trabalho, lazer, feira, trovadores, utensílios, lavadeiras, donas de casa, vaquejada, artesanato, caça, zabumbeiros, rio, pesca, água, homens, mulheres e costumes da roça. Os desenhos e as cores encantavam até os incrédulos. Só se deixava de olhar para os murais quando as luzes se apagavam sinalizando início da sessão, obrigando-nos a assistir ao filme. Não havia outro jeito, era quase uma catarse! 

        Os murais tinham aproximadamente 5 x 30 m(150m²) de cada lado. Para se ter ideia dessas dimensões, “Guerra e Paz” são dois painéis de, aproximadamente, 14 x 10 m(140m²) cada um, produzidos pelo pintor brasileiro Cândido Portinari, entre 1952 e 1956. Os painéis foram encomendados pelo Governo Brasileiro para presentear a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York. 

        Com o auxílio de Enrico Bianco e de Maria Luiza Leão, os painéis “Guerra e Paz” foram pintados a óleo sobre madeira compensada naval. Enquanto um é uma representação da guerra, o outro representa a paz. Por seu trabalho com os painéis, Portinari foi agraciado em 1956 com o prêmio concedido pela Solomon Guggenheim Foundation de Nova York. 

        No caso do cinema, obra magistral do singular pintor caruaruense, Seu Reginaldo Luís de França, falecido. Restaram memórias, fotos, reconhecimento e gratidão do povo santanense ao pintor que nos proporcionou tantos momentos de sonhos, silêncios e o olhar inquieto de admiração. 

       Segundo seu filho, herdeiro da arte e do nome, seu pai era um artífice de placas luminosas em acrílico, que andava pelos sertões divulgando, vendendo e instalando a novidade nos estabelecimentos comerciais. Nas horas vagas, exercia o ofício da pintura, sua grande vocação. 

       Não há registros de quanto tempo durou o trabalho. O lado esquerdo da sala fora pintado pelo Sr. Reginaldo. Já o lado direito, foi parcialmente iniciado pelo autor e complementado pelos santanenses Dotinha e Cícero Lopreu. Segundo o filho, ele mesmo misturava as cores primárias para criar novas tonalidades das tintas a serem utilizadas nas pinturas. O certo é que Seu Tibúrcio o escolheu porque era o melhor pintor que havia na região. 

        Autor de inúmeras obras tombadas pelo Patrimônio Cultural de Pernambuco, dentre as quais citamos painel em exposição no “Museu da Feira”, na cidade de Caruaru. Há outras obras espalhadas pelo Brasil e até no Exterior. 

       Da sala de exibições, no lado esquerdo de quem entrava, havia outro lanço de escadas ascendentes para o mezanino, que era ambiente com capacidade mais ou menos de 70 pessoas. Do mezanino, outra subida de degraus conduzia à cabine de projeções. 

         Na sala de equipamentos, 02 máquinas Philips, de fabricação Holandesa, projetavam as imagens na tela a mais de 30 metros de distância. As máquinas eram a carvão, como se identificava. Na verdade, eram de grafite, revestido de cobre, no formato de um lápis. Dentro da máquina, continham dispositivos elétricos alinhados e móveis, contendo dois polos. 

         Nas extremidades dos polos eram fixados os carvões; de um lado, um negativo e outro, positivo. Energizados, ao se tocarem, provocavam curto circuito, iniciando a queima do grafite. Durante a projeção várias unidades eram consumidas. Devidamente ajustados, a queima produzia intensa claridade. Essa luz, muito forte, refletida por um espelho, passava por um tubo onde ficava o cabeçote da máquina, iluminando a imagem da película que por ali deslizava, e, ao mesmo tempo, reproduzia a imagem na tela à distância. Outro dispositivo, regulava a nitidez da reprodução. A pista de som (sound track) era o espaço para a informação sonora, disposto transversalmente numa das laterais da película, entre o fotograma e as perfurações de encaixe nas carretilhas. A pista de som magnético parecia tiras de cor marrom constituídas de material magnetossensível. 

      As películas dos filmes eram armazenadas em caixas metálicas para evitar danos ao material e garantir proteção nas viagens de uma cidade para outra. Os rolos de fitas de um filme de uma hora e meia eram guardados em cinco ou seis caixas metálicas. Atualmente os filmes têm armazenamento digital e distribuição via internet. 

      O projecionista é um profissional solitário e essencial às salas de cinema. Ofício de controlar e ajustar equipamentos na cabine de projeções. Os projecionistas desde a inauguração, foram José Gomes, que também era eletrotécnico e Dema, falecido. Caso curioso é que o Dema foi encontrado morto na cabine de projeções nos anos 90, tal era seu apego e dedicação ao trabalho. Nessa época, o cine já havia paralisado as atividades, mas ainda mantinha a estrutura original, embora bastante depreciada.  Leia o conto "Quatro mortes e nenhum funeral" nesse blog.

      Quem quiser conhecer a visão poética do ofício de projecionista veja o filme “Cinema Paradiso” (assista)produção franco-italiano de 1988, do gênero comédia dramática, escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore e musicado por Ennio Morricone. Resumindo: Salvatore Di Vita é um cineasta bem sucedido que vive em Roma. Um dia ele recebe um telefonema de sua mãe avisando que Alfredo está morto. A menção deste nome traz lembranças de sua infância e, principalmente, do “Cinema Paradiso”, para onde Salvatore, então chamado de Totó, fugia sempre que podia, depois que terminava a missa (ele era coroinha). No começo, ele costumava espreitar as projeções através das cortinas do cinema, que o padre via primeiro para censurar as imagens que possuíam beijos, e fazia companhia a Alfredo, o projecionista. Foi ali que Totó aprendeu a amar o cinema. Assistam, o filme é sensacional! 

     A tela era enorme! Uma cortina de tecido azul-marinho a embelezava. De repente, as luzes se apagavam. O som forte estremecia tudo. A mesma música de sempre tocava ao abrir as cortinas. Os corações se aceleravam impulsionados pela força da emoção! “Il Silenzio”, de 1965, música de Nini Rosso (1926/1994) compositor e trompetista de jazz italiano.(Ouça) Ela parecia empurrar as cortinas azuis que escondiam e protegiam a magia da grande tela branca. 

      Enquanto a música era executada e a cortina se descerrava, três quadrantes luminosos gigantes no teto nas cores amarelo, vermelho e azul iam se acendendo um a um, emitindo um som que parecia toque grave de um grande sino. O ritual sonoro e luminoso estava sincronizado com o tempo de abertura das cortinas e a execução da melodia. Era espetacular! 

     Um dos momentos marcantes das sessões no cine alvorada era a vinheta da condor filmes, uma distribuidora que anunciava seus filmes. A abertura mostrava o voo de um condor. Os espectadores brincavam de “enxotar” a ave que aparecia na tela. Começavam a gritar “Xô, xô, xô...!”(veja aqui) Ou a vaiar para espantar a ave. Era uma algazarra, pois obviamente o bicho “obedecia”. O condor (Vultur gryphus) é uma ave da família dos catartídeos, parente próximo do condor-da-califórnia e dos urubus, que habita a cordilheira andina, na América do Sul. 

     O show do futebol do canal 100 não podia faltar.(clique aqui) A exibição de trechos de clássicos de futebol carioca no maracanã era uma festa, ao som do clássico brasileiro “Na cadência do samba (Que bonito é)”. Era uma agitação emocionante. As câmeras de gravação ficavam bem próximas ao gramado. As cenas eram contagiantes, visto que a gente parecia estar dentro do gramado, próximos aos jogadores. 

      Os primeiros filmes exibidos, quando da inauguração em 1962, foram: “Os Paladinos de França” (1956) e “Tormenta sobre o Nilo” (1955). Dependendo da “fita”, a fila dobrava a esquina, aguardando o atendimento das duas bilheterias. Como sempre, os filmes mais famosos ficavam vários dias em cartaz. Foram os casos de “Doutor Jivago”, com Omar Sharif e Julie Christie, em 1965; “Dio Come Ti Amo”, com Gigliola Cinquetti e Mark Damon, em 1966; “2001, uma odisseia no espaço”; “O Dólar Furado”, com Giuliano Gemma, Ida Galli, em 1965; com o tema marcante “Assim falou Zaratustra”, em 1969; a série “Poderoso Chefão”, iniciada em 1972; “O Exorcista”, em 1974, com atuação magistral de Linda Blair e efeitos arrepiantes. Não podiam faltar os filmes dos Trapalhões e da dupla Teixeirinha e Mary Terezinha, especialmente "Coração de Luto".

      Seu Costinha, rigoroso comissário de menores, não permitia descumprimento da idade de censura. Vários meninos tentaram assistir ao filme “O Exorcista”, censura 18 anos. Todos foram impedidos, inclusive eu. Sinésio “Caboclo” era porteiro educado e gentil, flexível às transgressões dos limites de idade. Descendente da tribo Fulni-ô, também exercia a profissão de pintor. 

       Logo que se chegava, antes de começar qualquer sessão, o som da sala tocava os sucessos da época que inebriavam os expectadores. Ouça a canção "Olhando estrelas" Muita gente bonita descia pelos dois corredores, observando as pessoas, especialmente casais e grupos de amigos, nas cadeiras, conversando. A maioria saboreando chicletes “Adams”, comprados na lanchonete da elegante sala de espera. Sem falar na caixinha vermelha de uva passa “sun-maid” que era vendida no carrinho de doces de “Chica Boa”, diariamente estacionado próximo à bilheteria do cinema. Na hora da compra a gente chamava D. Francisca. Pronunciar o apelido era uma afronta desmedida e esculhambação certa. 

     Mesmo durante o dia, aos domingos, antes da matinê, o movimento era grande. As crianças faziam o maior furdunço, enquanto os meninos e as meninas adolescentes iam à lanchonete do cinema para tomar sorvete e refrigerantes; guaraná “antárctica” da garrafinha, coca-cola e crush. 

      O bom da matinê era a torcida. Quando o mocinho ficava em apuros com índios e ou bandidos de toda a espécie, chegava a ajuda da cavalaria, anunciada ao som de um trompete agudo e forte. Todo mundo batia os pés no chão e o alarido ganhava dimensões da vibração de gol, numa grande conquista. 

       Ir ao cinema era mais que assistir aos filmes. Era um evento social. Era um jeito de ver gente bonita, namorar, paquerar, curtir de forma especial o final de semana. Havia todo um ritual; a melhor roupa, o perfume, o melhor sapato, com a namorada ou amigos, a noite sempre prometia... 

      Em 1970, a família do Sr. Tibúrcio Soares mudou-se para Maceió. O cinema foi locado ao empresário Paulo Ferreira, inicialmente. A venda foi concretizada alguns anos depois. Nos anos 80, outros administradores tentaram manter a mesma qualidade dos serviços, mas não foi possível. A estrutura era muito grande para se manter rentável. 

      Os hábitos e os costumes foram mudando. A ascensão tecnológica da TV e vídeo cassete influenciaram o declínio do cinema nas cidades interioranas. No final dos anos 90 as atividades já estavam totalmente paralisadas. Por um período foi templo e eis que um milagre aconteceu: 

       Numa noite enluarada de verão, enquanto a cidade dormia, um clarão prateado invadiu o salão principal. Ao mesmo tempo, começou uma chuva fina criadeira, molhando todas as pinturas que escorriam as tintas pretas e disformes para o chão. Nesse ínterim, a chuva de prata animou as gravuras e todas ganharam vida num espectro prateado e transparente. Era um milagre da transfiguração poética. E assim, as figuras tomaram as formas originais de seres animados e encantados. Uma a uma, enfileiradas, foram em direção à saída do prédio, prestando reverência ao Seu Tibúrcio, Seu Reginaldo Pintor e ao Dema. Integraram-se ao cenário da vida real em lugares que não se sabe. Tornaram-se guardiões da arte. 

      Naquela madrugada de luz e mistério, embora quase ninguém saiba, diz-se que, uma vez por ano, durante a lua cheia do mês de novembro, tudo retorna ao lugar original reiniciando o ritual silenciosamente, condição do Mestre Criador para que continuem o itinerário de arte, êxtase, peregrinação e transcendência. 

      Através do cinema aprendemos a mirar para dentro de nós e ver o mundo com outros olhos, de outras perspectivas. Aprendemos a sonhar e acreditar que a arte permanecerá. Mesmo que não haja mais Cine Alvorada, mesmo sem as pinturas maravilhosas de Seu Reginaldo, dos shows e dos programas de auditório, jamais esqueceremos da magia do querido Cine Alvorada. Mesmo quando a gente não estiver mais aqui estas palavras continuarão a navegar indefinidamente nas ondas invisíveis da era digital e da informação, onde quase tudo existe e resiste às intempéries. 

       Entretanto, nada terá mais valor do que o testemunho de um olhar anônimo, no meio da multidão, que revolucionou a si mesmo com o auxílio das artes. 

Publicação em novembro de 2018, revisado em novembro de 2019

João Neto - Bancário aposentado graduado em Administração. Associado da Academia Santanense de Letras. O olhar cotidiano do comportamento humano como tema recorrente. Em suas crônicas, mistura história, memória e reflexão sobre o mundo contemporâneo. Autor de contos e crônicas publicados nos livros “À Sombra do Umbuzeiro” (2006), “À Sombra do Juazeiro” (2008) e “À Sombra da Quixabeira” (2010). Tem participação no livro “Encantos de Natal II”, organização de Aparecida Santos(2022). Coautor do livro “Igrejinha das Tocaias, sua história"(2023) e Ser Tão Interior (2024).

Texto e imagens reproduzidos do site: www apensocomgrifo com

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

"Eu tenho um cinema no meu quintal"... (Benedito José Gamito)



Artigo compartilhado do site ACONTECE BOTUCATU, de 3 de julho de 2016

Município de Botucatu já foi chamada de a ‘terra do Cinema’

Fonte: JCNET/Rita de Cássia Cornélio

Fotos: Alex Mita/JCNet

Cidade concentrou a distribuição de filmes do Interior Paulista nos anos 50 e 60, graças à ousadia e empreendedorismo do empresário Emílio Peduti

Na década de 50, a cidade de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) foi batizada de “Cidade do Cinema”. O título fazia jus ao município do Estado de São Paulo que concentrava a distribuição de filmes do Interior Paulista, graças a ousadia e empreendedorismo de Emílio Peduti. O empresário e político, que marcou época, levou até as distribuidoras de filmes internacionais a se instalarem em Botucatu. Os escritórios geravam empregos para os jovens e levava o nome da cidade para o mundo.

Quem lembra muito dessa fase é o cinéfilo Benedito José Gamito. Ele conheceu Peduti ainda criança e foi trabalhar nos cinemas da cidade. “Eu tinha 12 anos e ia todos os dias ao cinema. Meu pai não aguentava mais pagar e então falou para eu procurar emprego no cinema. Trabalhava em troca de assistir os filmes. Não ganhava dinheiro. Trabalhei de vendedor de bala, bilheteiro, porteiro e lanterninha. No final exibia filmes.”

Segundo ele, Emilio Peduti foi uma era na década de 50. “Era uma verdadeira indústria cinematográfica para a época. O cinema, se não a única, a maior atração de lazer para o povo. Não só em Botucatu, mas em todas as cidades. Ele tinha cerca de 70 cinemas espalhados pelo Estado de São Paulo, Norte do Paraná e Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul. Era uma rede de cinemas. Ele montou uma empresa, a Empresa Teatral Peduti.”

Como um dos maiores exibidores do Estado de São Paulo, Peduti só tinha um concorrente em Ribeirão Preto. “Não me lembro o nome. Ele exigiu que todas as empresas distribuidoras de cinema viessem se instalar em Botucatu. Ele conseguiu porque o prestígio dele era muito grande como empresário e político, era prefeito na época” , recorda Gamito.

Empresas como a Paramount, Metro Goldwyn-Mayer, Columbia Picture e Warner dentre outras instalaram seus escritórios na cidade. “Tanto companhias nacionais como as estrangeiras, elas tinham uma agência de filmes. Tinha a parte administrativa e o acervo. Os filmes eram locados em Botucatu. Qualquer cidade do estado que quisesse locar um filme tinha que recorrer à agência de Botucatu. Os filmes (em latas) eram despachados pelo trem da ferrovia que vinha de São Paulo e na estação de Botucatu estavam as latas de filmes esperando para vários destinos.”

O objetivo do Peduti de divulgar o nome da cidade e gerar empregos aos mais jovens foi atingido na opinião do cinéfilo. “Peduti foi agropecuarista, tinha duas ou três fazendas, a empresa cinematográfica e foi político. Para ganhar votos nas campanhas, especialmente de 58, ele fazia cineminha de rua. Não cobrava nada. Ele montava numa praça espaçosa, tipo um telão e o projetor de 16 milímetros onde exibia filmes de cowboy . O povão ia e lotava a praça. Ele falava cinco minutos de política, o resto era filme. Esse cineminha ficou conhecido como Pedutão.”

Emilio Peduti morreu aos 59 anos vítima de um infarto. Sua família não deu continuidade na cinematografia.

Ir ao cinema era um evento social

Na década de 50, o principal divertimento nos finais de semana era assistir aos filmes e o divertimento não era caro, conta Benedito Gamito

paratodosQuem viveu na década de 50 vai se lembrar do que o cinema e os filmes representaram para essa geração, enfatiza o cinéfilo Benedito José Gamito. “Naquele tempo as moças não saiam de casa a não ser para ir ao cinema. Os pais não deixavam elas saírem para a rua como é hoje. Não tinha balada. As moças iam para o cinema na primeira sessão no sábado e domingo. Os filmes começavam às 19h15 e terminavam pouco antes das 21h. Depois tinha o footing na rua Amando de Barros que é rua principal.”

Os jovens eram separados pela condição financeira. “As moças que frequentavam o cine Casino eram aquelas que tinham melhores condições financeiras. O ingresso era mais caro. A roupa delas era de luxo. Usavam vestidos longos. Elas desciam pelo lado esquerdo da rua, tomando por base o sentido de mão dos veículos. Os rapazes iam ao cinema de terno, sapato social. Pelo mesmo lado, andavam os moços bem cotados, que pertenciam a elite. Se alguém que não pertencesse a elite tentasse se aproximar, as moças nem olhavam.”

Do lado oposto da rua Amando de Barros desciam o pessoal que não pertencia a elite. “Os mais pobres eram discriminados mesmo. Os mais ricos frequentavam o cine Casino que ficava no Bosque e os menos favorecidos, o Paratodos, no Jardim Paratodos. As moças menos favorecidas conheciam os peões. O footing naquela via era durante o dia ou a noite. Tinha como ponto de referência os cinemas. Ambos eram do Peduti.”

Em 1958, Peduti instalou um cinema na Vila dos Lavradores. “O bairro é separado pela ferrovia, tem um pontilhão. Ali para cima na verdade é uma minicidade. É um bairro desenvolvido e o povo queria um cinema lá. O prefeito estava em campanha eleitoral e prometeu que se ganhasse a eleição instalaria um cinema lá. Ele não construía prédios. Tinha um empresário que construía e alugava para ele. O único prédio que era dele mesmo é o Casino. O estabelecimento ocupava um quarteirão.”

No final da década de 60, os cinemas que já não lotavam mais, lembra o cinéfilo, apelou para os filmes de pornochanchadas. “Eram filmes eróticos para chamar atenção, nem assim resistiu. Não tinha mais como sustentar o cinema. Foi caindo. Na década de 70 começaram a fechar os cinemas.”

O primeiro a fechar foi o Paratodos. Depois, o Vitória e na sequência, o Casino. “A televisão influenciou no fechamento. Na década de 70 veio a TV colorida. O pessoal não frequentava o cinema porque assistia aos filmes em casa e colorido. Veio o vídeo cassete VHS. Esse aparelho concorreu mais com o cinema público, conhecido como cinema de rua. Foi tão decadente que sobrou só o Nely que o Peduti arrendava.”

O cine Casino foi o primeiro cinema, recorda o cinéfilo. “Era o mais luxuoso. Estava na Praça do Bosque, hoje Praça Emilio Peduti. Tinha o Paratodos, mais popular, menos luxuoso. O ingresso era mais barato. O público alvo era o povão. Peduti queria que o pessoal de menos posses tivesse acesso. A diferença entre as duas salas eram o conforto. Os filmes eram os mesmos.”

Rádios de Peduti

Pouco antes de morrer, segundo o cinéfilo, Peduti comprou uma emissora de rádio para concorrer com um adversário. O adversário político era o Plínio Paganini. “O Plínio foi vice dele, mas não era voto vinculado. Ele tinha criado a Rádio Municipalista em maio de 62. Naquele tempo em Botucatu, era uma guerra ideológica de duas frentes políticas.

A do lado estava Jânio Quadros e de outro Ademar de Barros. O Plínio era do ademarismo e o Peduti do janismo. As rádios existem até hoje. As duas estão bem próximas na praça do Emilio Peduti. Ambas estão arrendadas”, relata.

Prédio virou farmácia

O cinema da Vila dos Lavradores virou uma farmácia, conta Benedito Gamito. “A população criticou, mas mesmo assim era murada a fachada e instalaram a venda de remédios. O Paratodos virou o Teatro Municipal, a prefeitura comprou o prédio. O Casino se transformou em um restaurante. O Nely ficou com a empresa Araújo & Passos. Há mais ou menos dois anos o prédio foi vendido para a prefeitura e se transformou em sala de teatro e eventos.”

Toda semana os amigos de Benedito José Gamito se reúnem no quintal de sua casa. Eles vão assistir um filme da época deles. “Eu tenho um cinema no meu quintal. Tenho uma casa num terreno comprido. No final dele construí uma sala de cinema com 40 lugares para eu passar filme para os amigos da velha guarda. Toda semana tem cinema antigo e vem os amigos assistir. O Cine Paiol. Nome inspirado na infância quando eu fazia o cineminha da vela no paiol de milho.”

Apaixonado pela sétima arte, Gamito tem dois projetos desenvolvidos no Espaço Cultural da cidade. “Eu tenho um projeto que se chama Cine Janela. São exibidos filmes gratuitamente, uma vez por semana. Se não contar com a presença dos estudantes das escolas públicas, não vai ninguém”, lamenta. Para ele o cinema de rua é uma tragédia grega, pós advento dos cinemas de shopping.

Um museu móvel acompanhado de palestra é outro trabalho que o cinéfilo faz. “O meu museu fica guardado. Quando há solicitações, eu pego tudo e monto na cidade que solicitou. Exibo as fotos e as latas de filmes. Temos um filme feito aqui na época que o cinema completou 100 anos. Contamos tudo. É um material rico.”

Correndo com o filme na mão

Uma das curiosidades lembrada por Benedito Gamito é que muitas vezes os filmes eram exibidos simultaneamente em cinemas diferentes. “No Casino e no Paratodos. No Casino começa antes. Quando terminava a primeira parte, uma pessoa pegava a lata de filme e corria para o Paratodos. Depois ia buscar a segunda.

O trajeto era feito a pé, correndo. Quando o filme era exibido no Paratodos e no bairro, o filme ‘viajava’ de carro. “Tinha uma pessoa incumbida do serviço. Contratava um táxi para fazer o trajeto.”

Empresário de Botucatu começou a partir dos anos 30 e com a expansão dos negócios chegou a ter 70 salas de exibição de filmes em três estados

O historiador João Carlos Figueroa de Botucatu ressalta que dos anos 30 aos 50 a cidade viveu os anos dourados da indústria cinematográfica. “Peduti começou no ramo de cinema a partir dos anos 30 com a expansão das unidades exibidoras. E chega a ter 70 cinemas esparramados pelo estado. Ele tinha cinemas nas linhas ferroviárias. Na Sorocabana, Noroeste, Paulista e uma rede que avançava pelo Paraná e Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul.

O período dos anos dourados do cinema, na opinião dele, coincidiu com a economia brasileira pós-guerra. “A exibição de filmes foi o principal divertimento das pessoas. Não existia a televisão. Tinha o circo, mas não era todos os dias. O cinema foi eleito como a grande diversão das famílias. É nesse período que o Peduti se afirma como grande exibidor brasileiro. Ele contratava artistas para entreter as pessoas antes e nos intervalos dos filmes. Mágicos e apresentações do rádio faziam parte da programação. Como ele tinha uma rede de cinemas, os artistas viajavam para todas as salas. Era uma forma de dourar a noite.”

A televisão não existia e a exibição de filmes era a principal atração para a população. “Os cinemas tinham grandes salas. Trabalhavam com 800 lugares. O Casino de Botucatu tinha 650 lugares e bancos de couro. Os cinemas de São Paulo tinham 800 lugares, caso do Pomodoro, Metro etc. Quanto mais poltronas, mais faturamento.”

Os cinemas trabalhavam com estoque cheio. “Não se trabalhava com sala pela metade e nem com salas pequenas, aliás não tinha sala pequena de cinema. Aqui em Botucatu tinha uma considerada pequena. O cineteatro Nely tinha 346 lugares. Hoje não é mais assim. As salas possuem 300 poltronas nos cinemas de shopping. Peduti trabalhou só como exibidor. Para a época ele era grande. Hoje, só um exibidor da cidade tem o dobro do que ele tinha.

A Araújo que já foi Araújo & Passos, tem 140 cinemas de exibição. A Passos tem 103 salas. Não podemos esquecer que estamos falando de 60 anos atrás.” Figueroa ressalta que as grandes empresas distribuidoras de filmes se instalaram em Botucatu. “No entorno das agências nacionais e internacionais se formou uma classe de cinematografistas. O Peduti tinha um departamento de revisão dos filmes. Quando a máquina exibidora picotava o filme, ele mandava para revisão. Os funcionários cortavam e faziam uma emenda. O filme ficava bom para ser levado á exibição novamente.”

No período áureo do cinema, lembra o historiador, a produção de filmes brasileiros não era acanhada. “Eram muito consumidos. Haviam estúdios famosos como a Vera Cruz, o estúdio do Mazzaropi que produzia muito. Ele fazia o filme e o controle pessoal da exibição. Vinha a Botucatu incluía os filmes dele na programação e ainda aparecia para fazer a fiscalização da contagem das entradas no cinema. Ele não tinha uma grande equipe. Então fazia isso pessoalmente.”

O historiador desconfia que a contagem da bilheteria garantia o preço cobrado pelo filme. “Desconfio que as negociações dos filmes eram feitas encima da expectativa de expectadores prevista. As distribuidoras de filmes tinham fiscais para isso. Todos os bilhetes de entrada eram rasgados, mas tinham que ficar arquivados em um saquinho, caso houvesse dúvida. Os fiscais ficavam com uma maquininha que era apertada a cada entrada. Eles fiscalizavam para saber se não estavam sendo ludibriados.”

Na opinião do historiador, Peduti foi considerado um grande empresário na área de entretenimento. “Uma pessoa ousada, empreendedora. Eu acho que as crises econômicas que se sucederam fizeram o negócio minguar. Um palpite meu; foi a maxidesvalorização de 74 quando as dívidas em dólar subiram 30% que acabaram com o negócio. Eles tinham dívidas em dólar, isso aconteceu quando o Delfim Neto era Ministro da Fazenda.”

O município de Botucatu estava num descompasso com o desenvolvimento do estado quando Emílio Peduti assumiu seu primeiro mandato, em 1951. Época em que as indústrias paulistas se enveredavam para o interior e os municípios que fossem escolhidos viveriam um ciclo de crescimento e prosperidade, comenta o historiador João Carlos Figueroa.

A falta de energia que durante anos fez sofrer a população foi superada com a instalação da Subestação, eliminando a escassez, uma vez que o fornecimento era ilimitado. Nessa época começaram as instalações de nível superior. No setor industrial, as modificações foram sentidas. Surgem as primeiras empresas como a Sociedade Aeronáutica Neiva Ltda, a Petrac, a Mcatral, a Omareal e outras.

Quando assumiu seu segundo mandato, em 60, o prefeito encarou uma agenda que tiraria a cidade da letargia. Concretizou a instalação da Faculdade de Ciências Medicas e Biológicas de Botucatu e a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Botucatu.

Na década de 70, a abundância de energia incentivou a instalação da Duratex e a Costa Pinto. Embora criadas e consolidadas em governos posteriores ao de Emílio Peduti, segundo o historiador, nada disso seria possível sem a solução anterior do fornecimento de energia elétrica.

Texto e imagens reproduzidos do site: acontecebotucatu com br

terça-feira, 25 de novembro de 2025

'Era uma vez um cinema', por Luiz Joaquim

Legenda da foto: AIP, há 15 anos abandonado.

Artigo compartilhado do site CINEMA ESCRITO, de 20 de julho de 2014

Era uma vez um cinema
Por Luiz Joaquim 

“Recife tem uma relação com o cinema como nenhuma outra cidade já teve. Há um ecossistema cinematográfico.” A frase usada pelo professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Paulo Cunha, em sua palestra intitulada “Um cinema de ciclos e de afetos – O Recife e seus filmes” suscita um debate acerca do contraste que perpassa a cinematografia local e sua memória.

Se de um lado evoca-se a fertilidade da cidade para a produção no segmento audiovisual, do outro, vê-se uma omissão em preservar não só as produções cinematográficas, mas a sua principal fonte de manifestação: as casas de exibição. Hoje, o Recife não passa de um depósito de cinemas-fantasmas. O único exemplar de cinema antigo que ainda pode ser recuperado na Região Metropolitana é o Cine AIP, localizado no edifício da Associação de Imprensa de Pernambuco, na avenida Dantas Barreto.

Ao contrário de outras salas de exibição históricas, que foram descaracterizadas, transformados em igrejas e supermercados, o AIP ainda pode sobreviver se receber a atenção devida. “Em outros locais do Brasil, os cinemas de rua têm sido preservados. No Recife, já perdemos inúmeros imóveis, cinemas que muita gente nem conheceu. É importante o movimento de valorizar e ir atrás de recursos. Com o tombamento,a verba chega muito mais fácil. A ausência do tombamento é que faz com que o imóvel corra o risco de ser modificado”, problematiza a arquiteta Kate Saraiva, autora do livro “Cinemas do Recife”.

Situado no décimo terceiro andar do Edifício AIP,o Cine AIP hoje cheira a mofo e umidade, sem falar da acessibilidade totalmente comprometida. Há anos que o elevador que dá acesso ao Cinema está desativado. Inúmeras goteiras, paredes descascadas e falta de rede elétrica denunciam a negligência com o espaço que, entre as décadas de 1950 e 1960, chegou a ser um dos cinemas mais luxuosos da cidade, onde as pessoas frequentavam de trajes de gala. O filme, muitas vezes, era um pretexto para os rapazes levarem a garota para jantar após a sessão, no famosíssimo restaurante panorâmico, localizado no décimo segundo andar do edifício, também em estado de abandono. “O AIP tem uma importância não só cultural, mas principalmente política. Na época da repressão militar, em 1964, o cinema tentava enfrentar a censura exibindo os filmes que eram proibidos”, diz o atual presidente da Associação de Imprensa de Pernambuco, o jornalista Múcio Aguiar.

“No seu auge, o AIP era frequentado por jornalistas e intelectuais de Pernambuco. A sala de exibição funcionava também como auditório. O primeiro discurso de Miguel Arraes como governador de Pernambuco foi no auditório da instituição”, continua o presidente. Com 170 poltronas, o Cine AIP exibia predominantemente filmes de arte. Nos últimos anos de funcionamento, já na década de 1980, quando começou a entrar em decadência, restringiu-se à exibição de filmes pornográficos e de artes marciais.

Desapropriado pela Associação de Imprensa de Pernambuco em 2010, o edifício passou a ser de responsabilidade jurídica do Estado, que garantiu, no local, o funcionamento do Memorial da Imprensa Pernambucana, até hoje inexistente. Portanto, cabe ao Estado como proprietário do imóvel, empenhar esforços para a recuperação do local. Desde que o AIP entrou em inatividade, o que foi feito até agora para recuperar o cinema foi a captação de recursos através de uma emenda parlamentar que contempla apenas a recuperação da rede elétrica, sob responsabilidade da Secretaria de Turismo de Pernambuco. De acordo com nota divulgada pela assessoria da Setur-PE, a emenda está em “fase de conclusão das diligências para posteriormente firmar contrato de repasse, através da Caixa Econômica Federal.”

INTERVENÇÃO – Uma das iniciativas que chamou atenção para o atual cenário do AIP foi a intervenção “Letreiro Objetivo”, realizada no início do ano pelo artista plástico pernambucano Bruno Faria. O trabalho consistiu em um grande neon com doze metros de comprimento por dois de altura, instalado na cobertura do edifício AIP, escrito THE END. “A ideia foi que o transeunte se deparasse com algo novo na paisagem, um neon que comunicava algo. Tomando emprestado o anúncio no final de um filme, ele anunciava um novo fim, que é o de uma sala de cinema e, ao mesmo tempo, o fim de uma cidade que passa por vários problemas urbanísticos e culturais”, explica o artista.

História – Construído em 1958, com projeto de Delfim Amorim, o edifício AIP está há 15 anos em estado de abandono e degradação.

Texto e imagem reproduzidos do site: www cinemaescrito com

sábado, 1 de novembro de 2025

Luiz Severiano Ribeiro: O Rei do Cinema.


Artigo compartilhado de post do Facebook/Fotografias Histtóricas, de 4 de junho de 2025 

Luiz Severiano Ribeiro: O Rei do Cinema. 

Luiz Severiano Ribeiro Filho, mais conhecido por Severiano Ribeiro, foi um empresário nascido em Baturité, CE, no dia 03/06/1886. Foi o fundador do Grupo Severiano Ribeiro, uma empresa brasileira que atua no ramo de exibição cinematográfica, com sede na cidade do Rio de Janeiro. É a maior rede de cinema de capital exclusivamente nacional, por número de salas e complexos e uma das mais antigas em atividade ininterrupta, tendo completado um século de existência em 2017. Filho do médico Luiz Severiano Ribeiro e Maria Felícia Caracas, teve duas irmãs: Alice e Maria.

Aos 10 anos foi estudar no Seminário Episcopal de Fortaleza (Seminário da Prainha) na Praia Formosa. Apesar de ser religioso, não tinha vocação para o sacerdócio e fugiu do Seminário.

Aos 18 anos foi embarcado para o Rio de Janeiro e matriculado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Decepcionado com a medicina diante da morte da mãe, Severiano Ribeiro abandonou os estudos e logo voltou e estabeleceu-se no Ceará.

Com a morte do pai em 1916, ele excluiu "Filho" de seu nome.

Com uma vocação comercial incontestável, Luiz Severiano Ribeiro antes de entrar no mercado de cinema, teve uma livraria, um empório em Fortaleza e outro em Recife, além de hotéis, cafés e outros empreendimentos. À frente de seu tempo, em 1914, Severiano Ribeiro decidiu criar uma nova empresa nos moldes de uma holding, a fim de centralizar a administração de todos os seus negócios Seu primeiro contato com a projeção de imagens aconteceu no Circo Pery, quando ainda era jovem.

A partir de 1908, quando foi inaugurado o primeiro cinema fixo de Fortaleza, o Cinematographo Art-Nouveau, do italiano Victor Di Maio, passou a acompanhar o ramo de exibição de filmes. Um ano após promover grande reforma no Cinematographo Art-Nouveau, sufocado pela forte concorrência, Victor Di Maio deixou o Ceará. Severiano Ribeiro arrendou o local, realizando projeções diárias em horários sincronizados com o Café Riche. Logo em seguida, decidiu fechar o café e abrir no local um cinema com o mesmo nome. 

O Cine Riche, uma sociedade com o também empresário Alfredo Salgado, foi inaugurado em dezembro de 1915. Luiz Severiano Ribeiro não considerou o Cine Riche como seu primeiro cinema. A terrível seca daquele ano, aliado à concorrência acirrada e à oferta precária de filmes deixou o mercado em uma situação difícil. O empresário foi em busca de uma solução e apresentou uma estratégia que considerava a melhor para aquecer o capital de giro das empresas: Arrendar os cinemas pelo período mínimo de cinco anos, pagando uma renda fixa aos proprietários, mas com a condição dos demais exibidores não abrirem outro cinema em Fortaleza ou imediações.

Luiz Severiano Ribeiro se estabeleceu no Rio de Janeiro alugando um palacete de três andares para a sua família. À frente de seu tempo, associou-se à americana Metro-Goldwyn-Mayer, fechando a primeira Joint Venture da história do grupo. No acordo, a companhia ficou responsável pelas reformas das casas e pelo fornecimento de filmes, enquanto a empresa brasileira ficava a cargo do arrendamento e administração dos cinemas. A parceria durou quatro anos e foi desfeita em comum acordo.

Na década de 20 é inaugurado o Cine Odeon, no Centro do Rio de Janeiro e o Cine Palácio, na Cinelândia, Rio de Janeiro, torna-se o primeiro cinema carioca a exibir um filme sonoro., junto a outros exibidores cariocas, funda o Sindicato Cinematográfico dos Exibidores e é eleito presidente.

Foi inaugurado na Praça Duque de Caxias, hoje Largo do Machado, o Cinema São Luiz. Com capacidade para 1.794 espectadores, a sua abertura marcou a história da cidade. A sala foi a primeira a exibir lançamentos fora do centro do Rio de Janeiro, desenhando um novo cenário na geografia do mercado de exibição. Localizado próximo ao Palácio do Catete, residência oficial do então presidente

, o cinema foi decorado com todos os requintes a que se tinha direito, misturando a imponência do mármore aos cristais e espelhos tão em voga na época. Já a sala de projeção foi inspirada na do Radio City, de New York. O empreendimento consumiu todas as economias de que investiu pesado para erguer um dos mais bonitos palácios cinematográficos do Rio de Janeiro.

Criou várias empresas como a Distribuidora de Filmes Brasileiros, a Gráfica São Luiz (para impressão de programas), a Empresa Cinemas São Luiz Ltda, a Cinematográfica São Luiz, a União Cinematográfica Brasileira e dezenas de outras em diferentes cidades do Brasil, chegando a controlar mais de 200 salas, o que lhe valeu o título de Rei do Cinema Brasileiro. Por meio de seu filho Luiz Severiano Ribeiro Júnior produziu filmes através da Atlântida Cinematográfica S.A., que iniciou o regime de coprodução cinematográfica do Brasil com outros países. Em 1958 inaugurou o moderno e grandioso Cine São Luiz de Fortaleza (na Praça do Ferreira), que atualmente é um equipamento da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. Esteve em plena atividade nas suas empresas até 1971 contando com o apoio e colaboração do filho Luiz Severiano Ribeiro Júnior que continuou cuidando dos negócios após sua morte no Rio de Janeiro em 1° de dezembro de 1974.

Atualmente o Grupo Severiano Ribeiro é administrando por seus descendentes que comandam a rede de cinemas Kinoplex, nova marca da empresa sempre na busca de modernização.

Em 2017 o historiador Levi Jucá publicou o interessante livro "Um Século de Magia: Origens de um empreendedor à frente de seu tempo" que conta boa parte da história da família e sua relação com o Maciço de Baturité.

Curiosidade: A maternidade de Baturité foi construída com recursos do empresário em homenagem à sua mãe (Maternidade Maria Felícia Ribeiro) por intermédio do Comendador Ananias Arruda. O prédio foi inaugurado 1953 pelo Governador Raul Barbosa e era administrado pelas Filhas de Caridade São Vicente de Paulo. O casarão onde nasceu Severiano Ribeiro já não existem mais. Em seu local foi construído o Centro Comunitário Comendador Ananias Arruda e posteriormente a Secretaria de Saúde de Baturité.

Texto e imagens reproduzidos de post do Facebook/Fotografias Histtóricas