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segunda-feira, 16 de março de 2026

Projecionista Miguel Tavares, do cinema São Luiz de Recife






Miguel Tavares cresceu nos bastidores da exibição e projeção de filmes
Foto: Marina Torres

Publicação compartihada do site DIÁRIO DE PERNAMBUCO, de 28 de fevereiro de 2026 

Projecionista da sala há mais de 20 anos se emociona com sucesso do local nas telas

Projecionista Miguel Tavares conta com exclusividade ao Diario a sua trajetória na função na sala de exibição mais famosa do país atualmente, o Cinema São Luiz

Por André Guerra

É difícil medir quando começou a relação de Miguel Tavares de Lima Filho com os bastidores da exibição de filmes, porque, para ele, esse ambiente sempre foi uma segunda casa. Seu pai, Miguel Tavares, trabalhava no Cinema Veneza, um dos mais tradicionais do Recife (fechado em 1998), onde, quando criança, chegava a disputar com o irmão para ficar acompanhando o pai até tarde no serviço. O que ele jamais poderia imaginar é que essa vida o levaria à cabine de projeção mais famosa e cortejada do país hoje: a do histórico Cinema São Luiz, que é cenário de O Agente Secreto e agora está sob os holofotes do Oscar.

“Ver esse lugar onde eu trabalho há tantos anos projetado por meio das minhas mãos na telona do próprio São Luiz provoca uma emoção que eu não sei nem descrever direito. As sessões sempre lotadas são uma coisa linda demais”, exalta Miguel em entrevista ao Diario, refletindo sobre o sucesso do longa pernambucano no cinema. “Dá um orgulho maior ainda lembrar que pude participar do filme, de certa forma, mostrando essa área restrita da cabine para a produção quando estavam organizando tudo por aqui para gravar”.

A carreira de Miguel perpassa a memória da própria cidade com seus cinemas. Além de ter conhecido o Veneza desde pequeno, ele trabalhou no Cinema Moderno como servente de limpeza ainda no fim da adolescência e, com o encerramento das atividades da sala em 1996, foi trabalhar nos antigos Cines Recife 1-2-3, em Boa Viagem. Após o fechamento desse último, em 1998, ele voltou para o Centro e ficou na mesma função no Shopping Boa Vista. De lá, começou sua jornada no São Luiz, onde está até hoje, sendo, inclusive, o responsável por trocar os famosos letreiros da fachada do equipamento cultural.

“Eu frequentava muito aqui quando pequeno. Vinha ver filmes dos Trapalhões, da Xuxa e vários internacionais também. Quando finalmente comecei a trabalhar no cinema, quis logo observar como os filmes eram projetados”, relembra Miguel. “Só quem podia subir até a cabine eram o projecionista e o gerente, mas eu subia só de teimoso mesmo. Assistia aos rolos de filmes chegando e via o pessoal montando para exibir. Aprendi sem ninguém precisar me ensinar”.

A insistência dele em participar do processo deu resultado. Em uma ocasião, quando os dois encarregados estavam fora, ficou sob sua responsabilidade projetar uma sessão lotada de última hora, com o público inteiro já dentro da sala. Durante o bate-papo com o Diario, ele recapitula o misto de nervosismo e satisfação daquele dia, que transformaria sua vida. “Eu nunca tinha colocado filme para o público e nem deu tempo de testar, coisa que a gente sempre tem que fazer. Estava me tremendo todo. Mas, no final, deu tudo certo”, conta.

Uma das mais importantes figuras do Cinema São Luiz, o saudoso Geraldo Pinho, acompanhou parte dessa trajetória de Miguel, e ele guarda grandes lembranças do programador. “Era atento a tudo e a todos aqui. À troca dos cartazes, dos letreiros, aos filmes que chegavam, às funções de toda a equipe. Era o 10 aqui do cinema e faz muita falta a todo mundo que trabalhou com ele”, reforça.

Dividindo atualmente a função de projeção com João Bosco e Arthur Abdon, Miguel passou por importantes transformações tecnológicas do cinema também, tendo que aprender a projetar no formato digital quando chegou o novo projetor. “No começo é sempre meio complicado, mas, uma vez que você pega o jeito, fica até mais fácil e mais rápido”, explica. “Outro dia chegou uma cópia em 35 mm de ‘O Agente Secreto’ [originalmente feito em digital], e a gente exibiu aqui. É mágico demais o processo”.

Ainda por trás dessa mágica que bate a claquete da exibição para tantos espectadores de Pernambuco e visitantes do Brasil todo, Miguel Tavares é parte indivisível do Cinema São Luiz e da cabine, de onde segue fazendo história.

Texto e imagens reproduzidos do site: www diariodepernambuco com br

domingo, 22 de dezembro de 2024

Cinema é a maior diversão do São Luiz, outra vez

Legenda da foto: Inaugurado há 74 anos, o São Luiz é um dos últimos remanescentes dos cinemas de rua e é tombado como patrimônio histórico - (Crédito da foto: Morgana Narjara/Secult-PE/Fundarpe).

Publicação compartilhada da REVISTA CONTINENTE, de 1 de novembro de 2024

Cinema é a maior diversão do São Luiz, outra vez

Cinema de rua, situado no bairro da Boa Vista, reabre, na abertura da 15ª edição do Festival Janela Internacional de Cinema do Recife, após reformas em sua estrutura

Por Cleide Alves

Na esquina onde a Rua da Aurora se encontra com a Avenida Conde da Boa Vista, no Centro do Recife, um prédio de estilo protorracionalista abriga o último cinema palácio da cidade. É lá, no Edifício Duarte Coelho, que funciona o São Luiz, desde 6 de setembro de 1952. A famosa e exuberante sala de espetáculos completou 72 anos em 2024 - com várias interrupções nas atividades, algumas de longa duração - e se consolida como um símbolo de outros tempos no bairro da Boa Vista. Fechado em maio de 2022 por causa de avarias, o  Cinema São Luiz passou por obra de restauração, financiada pelo Governo do Estado, administrador do espaço. Para alegria do público cinéfilo pernambucano, as portas reabrem nesta sexta-feira (1º/11), para a 15ª edição do Festival Janela Internacional de Cinema do Recife.

Se você circular por esse endereço, não se deixe impressionar pela aparência do prédio de 15 pavimentos, que há muitos anos reclama, no mínimo, por uma mão de tinta. Quem vê cara não vê coração. Nesse caso, um coração onde cabem 992 pessoas sentadas, com grandes janelas de vidro para contemplação do Rio Capibaribe; um painel do artista plástico Lula Cardoso Ayres (1910-1987) pintado na parede do hall, com representações de sobrados e figuras de folguedos como bumba-meu-boi e maracatu; e um par de vitrais que, para deleite da plateia, são acesos poucos minutos antes do início das sessões, em cada lado da tela, colorindo jarros de flor-de-lis.

Os vitrais do São Luiz são a mais famosa criação da vitralista Aurora de Lima (1915-2016), única mulher a participar do projeto do cinema. Aurora era discípula do artista alemão Heinrich Moser, um dos fundadores da Escola de Belas Artes do Recife, assim como ela. O painel de Lula Cardoso Ayres é uma pintura mural de 1952, com a técnica de óleo sobre parede. "Meu pai pintou o painel lá mesmo, com a temática adequada ao local, como ele sempre fazia em seus trabalhos, o mural representa coisas do Recife, é como se transportasse a agitação da cidade, a vida cotidiana, para o cinema, em cores brandas", declara o engenheiro Lula Cardoso Ayres Filho.

O São Luiz é um cinema palácio, pelo luxo e capricho na decoração da sala, é um cinema de calçada, porque as portas se abrem diretamente para a via pública, e é um cinema de rua, porque está fora dos shopping centers, classifica a arquiteta, urbanista e pesquisadora Kate Saraiva. "Ele foi inaugurado numa época em que cada sala de cinema tinha a sua magia, seu encantamento e sua arquitetura singular, tudo isso criava a atmosfera para a pessoa entrar no filme", destaca Kate, autora do livro Cinemas do Recife, lançado em 2013 com financiamento do Funcultura, e que nasceu do trabalho de graduação em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defendido pela urbanista nove anos antes.

Único cinema palácio preservado no centro do Recife, o São Luiz recebeu esse nome em homenagem ao fundador, Luiz Severiano Ribeiro, e a São Luiz, Rei da França. "A flor-de-lis dos vitrais e as conchas, palmas e escudos da decoração das paredes remetem ao rei, o gesso do forro, de tão espetacular, parece uma tapeçaria", afirma Kate Saraiva. A sala mantém até hoje a decoração tardia art déco, estilo em voga nas décadas de 1920 e 1930. "O São Luiz é um exemplo de que arquitetura é aquilo que emociona, que transcende", diz a urbanista e integrante do Coletivo Cine Rua, que vai propor à Secretaria de Cultura do Estado a inclusão do cinema num roteiro de visitação do Recife.

Arquitetura - A sala de espetáculos está inserida num prédio de uso misto, comum à época, inspirado na arquitetura protorracionalista - fase que antecede a arquitetura moderna, com uso de novas tecnologias como o concreto armado, marquises e sem adornos nas fachadas que lembrassem o passado - de Copacabana, bairro do Rio de Janeiro, observa a arquiteta e urbanista Guilah Naslavsky, professora na UFPE. De acordo com ela, o Edifício Duarte Coelho foi projetado pelo arquiteto carioca Américo Campello, em 1943, com três blocos: um para habitações, um para escritórios e outro misto, tendo o engenheiro Meyer Mesel como calculista. O pavimento térreo era destinado a comércio, serviço, lazer e ao cinema.

"Nesse tipo de edifício, em formato da letra U, o vazio criado para  iluminar e ventilar internamente, era coberto com telha cerâmica e aproveitado para o cinema. Não se faziam mais cinemas em imóveis adaptados como nos anos 1920", informa Guilah Naslavsky, pesquisadora da arquitetura moderna. O Duarte Coelho, uma construção da B. Dutra e Companhia Ltda, com empreendimento da Incorporadora Imobiliária Recife, ocupa o lugar da antiga Igreja Anglicana (Holy Trinity Church), erguida em 1838, no século 19, e demolida cem anos depois para permitir a obra de alargamento da Avenida Conde da Boa Vista.

Por muito tempo, só havia o Edifício Duarte Coelho na Rua da Aurora (entre a Conde da Boa Vista e a Rua Doutor Sebastião Lins), em meio a casarões e sobrados antigos do século 19, recorda o arquiteto e urbanista Geraldo Santana, professor aposentado pela UFPE. "Moças e rapazes que iam ao São Luiz, nos anos 1960, paravam na sorveteria Gemba, na Rua da Aurora, a mureta baixa margeando o rio, em frente ao cinema, era o quem me quer, um ponto de namoros", diz ele. Geraldo Santana, em parceria com José Fernando Carvalho, projetou o Edifício Novo Recife, na Praça Machado de Assis, que nunca chegou a ser feita, por trás do Duarte Coelho. "O Edifício Tabira (Conde da Boa Vista, 121), na entrada da praça, também previa um cinema no térreo", informa o arquiteto.

Restauração - O cinema que fascina gerações ao longo de sete décadas foi fechado para reparos na coberta, serviços de adaptação na instalação elétrica e melhoria na climatização. Em fevereiro de 2023, num dia de chuva forte no Recife, o sistema de captação de água pluvial colapsou, os reparos da coberta não estavam concluídos e pedaços do forro de gesso decorado desabaram, levando à interdição completa da sala de exibição.

"Contratamos o Estúdio Sarasá, empresa especializada em conservação e restauro, para fazer a recuperação do forro, retiramos cimento e isopor usados em intervenções inadequadas para cobrir perdas, todos os elementos decorativos foram restaurados da forma correta", diz o engenheiro Frederico Almeida, diretor de Obras e Projetos Especiais da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco. A Fundarpe é responsável pela administração do cinema. O serviço custou R$ 950 mil, recursos federais da Lei Paulo Gustavo.

O São Luiz ocupa quatro pavimentos no Bloco A do Edifício Duarte Coelho, térreo e mais três pisos, com hall de entrada, salão nobre no primeiro andar, balcão do cinema logo acima, área administrativa, arquivo, laboratório, cabine de projeção e antiga sala de trabalho de Luiz Severiano Ribeiro. Nova licitação, realizada em agosto, no valor de R$ 2,2 milhões, com verba da Fundarpe e da Lei Paulo Gustavo, vai garantir a colocação de elevador com quatro paradas, acessibilidade em banheiros (agora, haverá sanitários em todos os andares), recuperação de piso, portas, luminárias, letreiro, revestimento de parede, marquises e esquadrias. "São obras que não interferem no funcionamento do cinema e podem ser executadas paralelamente", afirma Frederico Almeida.

Bilheterias antigas, luminárias originais de latão e madeira de imbuia do revestimento de paredes encontram-se preservadas no cinema, tombado como monumento histórico de Pernambuco pelo Conselho Estadual de Cultura em 2008. Ao fim das intervenções, o São Luiz funcionará como Centro de Referência do Audiovisual de Pernambuco, espaço de memória para museu e atividades ligadas à arte cinematográfica, a ser implantado nos andares superiores, diz Frederico Almeida.

O cinema, localizado no número 175 da Rua da Aurora, e construído numa época em que não se exigia vaga de garagem nos prédios, é um ponto de resistência à falta de estacionamento, à violência urbana e ao medo de se frequentar o Centro da cidade, comenta Kate Saraiva. Quando você passar nessa esquina do Recife, por favor, pare em frente ao São Luiz, e se permita conhecer essa história de evolução urbana e do casamento da arte cinematográfica com a arte visual.

Inauguração do São Luiz

[...] A decoração da platéia representa o interior de uma grande tenda real, com vastas tapeçarias suspensas, bordadas com os três lírios de frança, sobre os quais repousam dezesseis escudos de guerra, em lembrança das cruzadas. O teto é como um imenso véu de rede, que grossas cordas amarram. Na frente do palco, os vários ornatos simbolizam as grandes virtudes de um rei, que desceu do trono para subir a um altar: a palma (o prêmio da eterna bem aventurança), a concha (o brasão do peregrino), os besantes (os arautos do valor), a flor de lis (orgulho da casa de frança), e os dois ramos policromados (o perfume de todas as virtudes) em cujo colorido os nossos olhos descansam. Finalmente, as duas colunas esguias e a marquise, moldurando a tela cinematográfica, indicam, na sua simplicidade técnica, a era arquitetônica moderna, e constituem como que uma ligação entre o passado e o presente, entre o longínquo século XIII em que viveu o rei, e o século XX em que vivemos, representado condignamente pela imagem animada, colorida e sonora.

Texto extraído do livro Cinemas do Recife (2013), de Kate Saraiva

Texto e imagem reproduzidos do site: revistacontinente com br

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Trabalhadores do Cinema São Luiz vivem fortes emoções...



Fotos: Paulo Paiva/DP

Publicação compartilhada do site DIÁRIO DE PERNAMBUCO, de 23 de fevereiro de 2022 

Trabalhadores do Cinema São Luiz vivem fortes emoções em seu retorno

Por Rostand Tiago

No começo da tarde de ontem, os funcionários do Cinema São Luiz estavam reunidos no espaço como poucas vezes desde o fechamento, em março de 2020. Tratavam dos ajustes dos últimos detalhes para a tão aguardada reabertura, marcada para amanhã. Da bilheteria à cabine de projeção, todos os espaços estavam de alguma forma ocupados por trabalhadores, que vêm realizando uma maratona de serviços nos últimos 15 dias.

Após tanto tempo frequentando tão pouco aquele lugar considerado por eles como segunda casa, o empenho da volta foi impulsionado pela empolgação de abrir as portas. Foi um período turbulento de mudanças na vida do cinema da Rua da Aurora, incluindo a triste perda de seu programador e guardião, Geraldo Pinho. Mas chegou a hora de uma mudança feliz, que será a retirada da mensagem “em breve estaremos juntos” dos letreiros vermelhos da fachada. Chegou o momento do reencontro com um dos principais pontos de resistência cultural do Centro do Recife.

Foram dois anos fechados, que impactaram a rotina e o emocional dos trabalhadores. No começo, eles estavam completamente isolados do espaço. Com uma flexibilização dos protocolos, puderam começar uma tímida rotina de visitas ao cinema para a manutenção da estrutura e dos equipamentos. O projecionista Arthur Abdon viveu 12 dos seus 30 anos de vida trabalhando no interior do cinema, indo de porteiro e bilheteiro ao cargo de projecionista, hoje especialista nos equipamentos digitais. Se afastar desse lugar que o acolheu por tanto tempo acabou sendo um período de melancolia.

“Depois de cinco ou seis meses sem pisar aqui, começamos a vir aos poucos, para ligar os equipamentos, algo necessário de se fazer semanalmente. Era uma sensação grande de tristeza, ligar o projetor e passar filmes para ninguém. Também tivemos contato com histórias de espectadores frequentes que faleceram, muito triste pensar ‘aquele cara vinha sempre e não vai vir mais’. Essa tristeza e essa incerteza da volta foram muito difíceis”, relata Arthur, que também se vê tomado por fortes sentimentos nesse retorno. “Somos uma equipe que é quase como uma família e que todo mundo ama o trabalho. Isso é muito perceptível para quem nos conhece. Estamos nessa mistura de emoção, sentindo as ausências, mas felizes em voltar.”

Foi um sofrimento emocional que encontrou consonância na própria estrutura do cinema. Durante o período, Gustavo Coimbra, gestor do São Luiz, relata ter encontrado infiltração, mofo, problemas no telhado e, em especial, no coração do cinema: o projetor digital, que precisou ser isolado por um período até a realização de uma manutenção feita por um técnico vindo de São Paulo, que trocou uma série de mecanismos internos. Reformas foram feitas, e os detalhes estão sendo ajustados para a reabertura, inicialmente com 300 lugares disponíveis e seguindo os protocolos sanitários.

“Foram aparecendo e se acumulando os problemas de maior escala. Com a flexibilização, nos mobilizamos para fazer tudo o que estava ao nosso alcance. O projetor mesmo passou meses enrolado em papel filme para não sofrer danos maiores, em especial com a umidade e a maresia. As coisas foram melhorando, tivemos a vinda do técnico, fizemos os consertos, reparos de ar-condicionado e da estrutura, para articularmos a reabertura. Estamos vendo outros cinemas e aprendendo a funcionar dessa nova forma. Está sendo muito prazerosa e emocionante essa volta, com tudo lindo após um período tão conturbado”, relata Coimbra. Agora, volta a se reunir a família São Luiz, formada por João Bosco, Miguel Tavares, Arthur Abdon, Arthur Frederick, Eliane Muniz, Bruno Alves, Joyce Suelen, Wilma, Maria das Graças, Inoe, Vanessa, Inaldo Inácio, Alexandre Amorim, Luiz Gustavo, Adriano Mota e Edmilson.

Geraldo Pinho eternizado no São Luiz

Entre os trabalhadores do cinema, é unanimidade que ninguém enchia mais os olhos com a possibilidade de retorno das atividades do que Geraldo Pinho, lendário programador do cinema falecido em novembro passado. A sua luta por um circuito de cinema plural e acessível na capital pernambucana cria um legado para os próximos anos do espaço. Luiz Joaquim, discípulo de Pinho e atual programador do equipamento, se empenha em fazer do futuro do São Luiz uma continuação das batalhas do mestre. 

“Essa é uma sala que tem poucas no mundo, de quase mil lugares, é o maior desafio para qualquer programador de cinema. Lotar essa sala é quase que uma fórmula mágica. É uma excitação voltar a função que tenho paixão e um frio na barriga para dar conta bem como Geraldo dava. Ele foi professor e ele tinha uma energia pedagógica intrínseca, no sentido de apresentar para as pessoas bom cinema. Fazer minimamente como ele fazia é continuar esse trabalho educador, sendo essa uma casa pública, de maneira acessível. Tendo em mente que não é porque as pessoas são modestas que não podemos ser audaciosos nessa programação. Ele dizia que o São Luiz não é um cinema de rua, é de calçada, ele vai conquistando as pessoas que passam aqui na frente”, elabora Luiz Joaquim. 

A primeira sessão das segundas-feiras agora recebe o nome de Sessão Geraldo Pinho, com preço popular de R$ 5. Funcionários de longa data do São Luiz estão todos vivendo uma certa confusão sentimental com a felicidade da reabertura e a estranha sensação de não ter Geraldo ali nesse momento. “É uma coisa que a gente ainda tá se acostumando. Ontem fizemos os testes dos filmes, recebemos um filme em homenagem a ele e todos nos emocionamos. Luiz Joaquim, que era um grande amigo dele, vai trazer sua personalidade, mas ele deixa claro que não quer mudar o perfil que Geraldo construiu”, afirma Gustavo.

"Ontem eu tive um sonho com Geraldo e ele estava muito feliz. Acho que essa reabertura era o dia mais esperado do resto da vida dele, queria muito que ele estivesse presente. Mas essa emoção, tanto para ele, quanto para mim e para a equipe, que temos como uma família, amamos o trabalho. Estamos nessa mistura de emoção, uma certa tristeza por essa ausência, mas feliz em saber que tudo vai voltar como ele sonhava”, conclui Arthur, com lágrimas nos olhos... 

Texto e imagens reproduzidos do site: diariodepernambuco com br

domingo, 2 de janeiro de 2022

Geraldo Pinho lutou por um Recife de cinema acessível e plural

Legenda da Foto: Geraldo Pinho teve trajetória marcada por conseguir movimentar cinemas de rua do Recife (Crédito da Foto: Bernardo Danta/DP/D.A PRESS), 

 

Publicado originalmente no site DIÁRIO DE PERNAMBUCO, em 9 de novembro de 2021

 

Geraldo Pinho lutou por um Recife de cinema acessível e plural 


Por: Rostand Tiago 


Um garoto que devorava gibis nos anos 1950 entrou em uma sala de cinema e ficou sem entender o que estava acontecendo. Fascinado, mas incrédulo, queria descobrir onde estavam escondidos aqueles carros, prédios e pessoas que viu na tela. Descobriu uma maquininha que guardava isso tudo e transformava em luz, se apaixonando por ela. Dali em diante, esse menino se dedicou a espalhar esse mesmo encanto por onde passava. Revelou mais carros, prédios e pessoas durante toda sua vida, dos cineclubes ao seu último lar cinematográfico, o Cinema São Luiz, por meio do qual continuou sua luta de décadas para tornar o centro do Recife um lugar de vivências e trocas culturais e afetivas 

 

Ao partir nesta terça-feira (9), aos 70 anos, apenas um a mais em relação ao lar que cuidou tão bem desde 2010, Geraldo Pinho já era parte fundamental da memória e da existência do cinema e da cinefilia pernambucana e se imortaliza por meio do amor que dedicou àquela máquina que continua a transformar o mundo em luz, assim como ele teimou em usá-la de forma cada vez mais plural e acessível no coração da cidade.  

 
Frequentador assíduo dos cinemas do centro, em especial o extinto Coliseu, Geraldo se empenhou nos estudos sobre as técnicas de projeção, passando por cursos como um realizado pela também extinta Empresa Brasileira de Cinema (Embrafilme) e colocando em prática seus conhecimentos nos cineclubes que frequentava, se especializando em 16mm. Se formou como gráfico e chegou a trabalhar por quase 30 anos na Imprensa Oficial, levando em paralelo às atividades cinematográficas, juntando dinheiro para poder comprar projetores, por exemplo. 

Em 1993, veio o convite para ser programador do cinema do Teatro do Parque, foco de resistência em um período em que o desmantelamento dos cinemas de rua do centro já acontecia. Foi sob sua administração que o espaço virou referência de acessibilidade, sobretudo com o longevo e popular “cinema por R$ 1”. Por lá, viu as salas passarem dos projetores de carvão aos de xenon e os sistemas de som se modernizarem, gerenciando também o Cinema Apolo. Ficou por lá até 2002 e, no ano seguinte, passou a ser coordenador do Museu da Imagem e Som de Pernambuco (Mispe) e em 2010 foi convidado para treinar a equipe da reabertura do Cinema São Luiz e logo assumiu o posto de programador definitivo, em 2011, quando o espaço passa a ser gerido pelo Governo de Pernambuco.  

 

Durante o período, o São Luiz se consolidou ainda mais como palco do cinema pernambucano. Em sua programação, Pinho garantia um grande espaço para o cinema local e nacional, assim como produções independentes. O cinema da Rua da Aurora também abrigou os mais diversos e plurais festivais, como o Janela Internacional de Cinema do Recife, o Festival de Cinema de Diversidade Sexual e de Gênero (Recifest), o Festival Internacional de Animação de Pernambuco (Animage), VerOuvindo: Festival de Filmes com Acessibilidade Comunicacional e vários outras iniciativas que reforçam um caráter de um audiovisual que segue por caminhos cada vez mais democráticos.  


Em março de 2020, o Cinema São Luiz fechou as portas por conta da pandemia do coronavírus. Poucos dias depois, seus letreiros vermelhos exibiam os recados “Cuidem-se” e “Em breve estaremos juntos”, tendo Pinho como um dos responsáveis por essa iniciativa. O “em breve” ainda não chegou e as expectativas de reabertura do cinema são para janeiro de 2022. Mas quando ele chegar, vale a pena olhar com carinho para cada cantinho dele e lembrar de Geraldo e sua luta para torná-lo em um dos lugares mais vivos do Recife.  


Despedidas  - Por João Rêgo  


Nomes do cinema e da cultura pernambucana lamentaram a partida de Geraldo nesta terça-feira. O cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor do Janela Internacional de Cinema do Recife, abrigado no São Luiz de Pinho, classificou a perda como “devastadora para o audiovisual pernambucano”.  


“Ele programava filmes, lutava pelo acesso democrático às imagens de todo o mundo e do Cinema de Pernambuco. Eu aprendi com ele o que significa “formar público” ao ser eu mesmo parte de um público formado por ele e de ele sempre responder generosamente minhas perguntas sobre “como funciona”, perguntas feitas desde os anos 90 no Cinema do Parque e no Cinema São Luiz. Geraldo fazia isso com dois elementos essenciais para trabalhar com Cultura no Brasil e em Pernambuco: firmeza e um incrível jogo de cintura. Sem isso, o São Luiz não seria o lugar espetacular que é, um equipamento público de referência no trabalho e nos resultados práticos que, para além de números, são alicerces sólidos”, declarou o cineasta. 

 

 Ernesto Barros, crítico e curador do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, também lamentou a perda, destacando sua luta e sua generosidade. “Como tantos amantes do cinema, também aprendi muito com Geraldo. Ele foi uma chama em defesa do bom cinema e de respeito às "catedrais" que cuidou também, como o Cinema do Parque, o Cinema Apolo e o Cinema São Luiz. Geraldo era de uma generosidade ímpar. Sua simplicidade e contagiante amor ao cinema criaram em torno dele uma aura de boa vontade e gentileza. Suas três décadas de trabalho nessas salas e no Mispe marcaram profundamente a geração atual do audiovisual pernambucano”, afirmou. 


Já Ana Farache, coordenadora da Cinemateca Pernambucana destacou sua grande aptidão em gerenciar equipamentos culturais. “Ele tinha consciência de que uma sala de cinema deveria ter personalidade e contribuir com a formação do seu público. Além de grande profissional, foi uma pessoa generosa e que nunca deixou de atender aos que lhe procuravam. Geraldo deixa um vazio enorme na nossa cultura, especialmente no setor do audiovisual pernambucano”, comentou. 


O presidente da Fundarpe, Marcelo Canuto, comentou sobre a importância da presença e do trabalho de Geraldo Pinho para o São Luiz. "Ele sempre foi nossa referência, entendia muito da parte técnica de como operar um cinema, além de ser um profundo conhecedor da produção audiovisual do Brasil e ser um importante interlocutor de quem fazia parte da cadeia produtiva do cinema. Lamento demais sua morte e expresso meu pesar aos familiares. Sou muito grato pelo tempo que ele dedicou, não só ao cinema como à cultura pernambucana". 


Em nota divulgada pela Secult-PE, o secretário Estadual de Cultura, Gilberto Freyre Neto, afirma que “Geraldo Pinho foi um incansável trabalhador da gestão pública da área de Cultura do Estado e o sucesso de público no São Luiz mostra sua dedicação e esforço para sempre dar a melhor programação que o cinema poderia exibir. Desejo todo conforto aos familiares". 


Texto e imagem reproduzidos do site: diariodepernambuco.com.br