No Olympia, o público pode aproveitar a sessão de cinema nas
434 poltronas na cor vermelha do espaço.
“O Cine Olympia foi amor e paixão à primeira vista, desde
criança”,
relembra o professor Elias Neves Gonçalves.
Com estilo eclético, o Cine Olympia passou por uma grande
reforma
em maio de 1960, comandada pelo arquiteto paraense Ruy Meira.
Exibição do filme com Rodolfo Valentino celebra os 106 anos
de fundação do Cinema Olympia
Em 25 de abril de 2002, foi iniciado o processo de
tombamento do Olympia.
O cinema de rua mais antigo do estado do Pará e do Brasil,
que continua ainda em funcionamento no mesmo lugar de origem, o Cinema Olympia,
completa 106 anos de fundação, nesta terça-feira, 24.
Administrado pela Prefeitura de Belém (PMB), por meio da
Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), desde 2006, o Cine Olympia celebra
a data com o público cinéfilo da capital paraense, proporcionando uma
programação bem especial. Nesta terça, às 18h30, haverá mais uma edição do
tradicional projeto Cinema e Música, daquele espaço, que consiste na exibição
de um filme silencioso, com acompanhamento musical, ao vivo, do pianista Paulo
José Campos de Melo. A entrada é franca e tem apoio da Fundação Carlos Gomes.
O filme escolhido é “A Dama das Camélias”, produção de 1921,
com 72 minutos de duração, dirigido por Ray C. Smallwood, mostra a cortesã
Marguerite Gautier (Alla Nazimova), que se apaixona profundamente por um jovem
promissor, Armand Duval (Rodolfo Valentino). Quando o pai do rapaz, Gaston
Rieux (Rex Cherryman), implora à moça para que não se case com o filho,
arruinando assim seu futuro e a esperança de uma carreira, ela consente e deixa
seu amante. No entanto, quando a pobreza e a doença terminal a dominam,
Marguerite descobre que Armand não perdeu o seu grande amor por ela.
História - Com influências da arquitetura art déco e da
Belle Époque, o Olympia foi inaugurado no dia 24 de abril de 1912, durante o
governo do intendente Antônio Lemos, pelos empresários Carlos Teixeira e
Antônio Martins, donos do Grande Hotel (hoje, hotel Princesa Louçã, e antes,
Hilton) e do Palace Theatre.
Com estilo eclético, o Cine Olympia passou por uma grande
reforma em maio de 1960, comandada pelo arquiteto paraense Ruy Meira, que na
época buscou inserir aspectos modernos no prédio. Em 25 de abril de 2002, foi
iniciado o processo de tombamento do Olympia. A partir dessa iniciativa, a sala
passou a ser considerada mais um patrimônio histórico e material da cidade de
Belém, inserida no entorno do complexo da Praça da República.
É o cinema mais antigo em funcionamento no Brasil,
considerando que sempre esteve no mesmo lugar e não parou as suas atividades
por muito tempo. Com inúmeras dificuldades econômicas e administrativas, o grupo
Severiano Ribeiro, que o administrava, quase fechou as portas do cinema em
2006.
Atendendo aos apelos da sociedade e artistas belemenses, a
PMB assinou contrato de locação com o proprietário da casa, e o local foi
reaberto como espaço cultural, desde então. Atualmente, é palco de festivais de
filmes e exibição de clássicos do cinema mundial, em programações gratuitas ao
público.
Lembranças - Todos os que amam a Sétima Arte em Belém têm
uma história especial com o Cine Olympia e lembranças de bons momentos vividos
naquele cinema, em suas 434 poltronas na cor vermelha.
O cinéfilo “de carteirinha” e administrador do grupo Cinema
na rede social Facebook, Nelson Johnston, se lembra que o primeiro filme que
viu no Cinema Olympia foi o desenho os estúdios Disney, “A Espada Era a Lei”.
“No labirinto da memória, de forma imprecisa, recordo da imagem de uma prima e
seu convite para ver ‘A Espada era a Lei’, ao mesmo tempo, imagens de ‘A Noviça
Rebelde’ e vários filmes de Elvis Presley, e assim foram meus primeiros
contatos com o Cinema Olympia”, conta Nelson.
“O que mais me sensibilizou também foram as matinais de
domingo. Era um frequentador assíduo, e foi numa daquelas sessões que conheci
‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, o filme da minha vida. Daí em diante, surgem
hiatos de lembrança que me lançam para o ‘Teorema’, do Pasolini; ‘Romeu e
Julieta, de Zeffirelli, este, numa sessão tão lotada, que fiquei na fila do
gargarejo, mas aliviado, pois pensei que iria ser barrado na entrada por não
ser maior de 14 anos”, prossegue.
“E também me vejo com toda a família, meu saudoso pai já
falecido, minha mãe e irmã, na sessão de ‘E.T. - O Extraterrestre’ e com meu
primeiro amor nas sessões de filmes liberados pela censura, ‘Decameron’ e
‘Saló: os 120 dias de Sodoma’, além das minhas primeiras sessões de ‘Império
dos Sentidos’, ‘Laranja Mecânica’, naquela cópia com bolinhas da censura;
‘Nascido para Matar, ‘De Olhos Bem Fechados’, ‘Titanic’, e muitos outros
filmes. Quero dizer parabéns ao Olympia e muito obrigado por tantos momentos
felizes", encerrou.
“O Cine Olympia foi amor e paixão à primeira vista, desde
criança”, relembra o professor Elias Neves Gonçalves. “Eu não podia ir sozinho
ao cinema até que um dia, aos 11 anos de idade, minha irmã me levou para
assistir ao ‘E.T. - O Extraterrestre’, de Steven Spielberg. Sessão lotada. Pura
magia e vibração. Foi minha ‘primeira-comunhão’ com o nosso templo da Sétima
Arte, em Belém”, conta.
“Depois, foram tantos outros filmes maravilhosos. A fila na
bilheteria, a bombonière, o cheiro da pipoca no ar, as poltronas vermelhas, a
luz do projetor saindo da janela na parede de fundo, enfim, detalhes que se
misturavam ao sonho assistido no telão do Olympia. Pura imersão de emoção e
arte”, enfatiza Elias.
“Esse cinema foi e será uma escola para a cinefilia
paraense. Uma referência da cultura cinematográfica e que não pode jamais ser
apagado da história da nossa Belém. Vida longa ao Cinema Olympia nestes 106
anos de existência”, complementa o professor.
Relação paternal - Para o jornalista e cinéfilo, Alessandro
Baía, o Cinema Olympia sempre fará parte da memória de qualquer apreciador de
cinema na capital. “Foi no Cine Olympia que assisti ao meu primeiro filme com
meu pai, em 1988, e assistimos juntos ‘O Milagre Veio do Espaço’. Foi e sempre
será inesquecível. A magia do cinema dividida com o ente querido mais
importante é para fincar na memória e na alma. Além deste momento, o Olympia me
proporcionou conhecer outros grandes filmes que, hoje, são de cabeceira como
‘Sociedade dos Poetas Mortos’, ‘A Insustentável Leveza do Ser’, ‘De Volta Para
o Futuro II’ e tantos outros. A nossa cinefilia agradece pelo amor à Sétima
Arte que esse cinema centenário ajudou a fortificar. É como o amor de um pai
pelo filho: eterno", reforça Alessandro.
Detalhes - O Olympia não é apenas uma sala de cinema, mas um
local com pequenos detalhes curiosos que saltam aos olhos. Por exemplo, na
parte de trás da sala, ao lado na sala de projeção, no segundo piso, existe um
pequeno apartamento, que, provavelmente, era utilizado por algum funcionário da
casa.
Como em outras salas de cinema, o Olympia também tem o seu
departamento de “achados e perdidos”. Na centenária casa, chama à atenção a
quantidade de apenas um dos lados de brincos que foram perdidos ao longo dos
anos. Estão todos guardados esperando a(o)s dona(o)s. “Guardamos tudo o que
encontramos dentro da sala de exibição. Algumas pessoas voltam a procurar os
objetos perdidos, outras não. Mas o que mais me intriga é uma dentadura achada,
mas que nunca foi reclamada”, conta Marco Antônio Moreira, programador do
Cinema Olympia.
Projetos - O Cinema Olympia, além da programação de
terça-feira a domingo, mantém projetos de exibição voltados à comunidade, como
o “A Escola Vai ao Cinema", no qual instituições de ensino da rede pública
ou privada, em parceria com a PMB, levam grupos de alunos à sala de projeção,
com o objetivo de formar público para esse tipo de produção.
O “A Escola Vai ao Cinema" tem também a parte de
itinerância que leva projeções de cinema às escolas municipais mais distante,
como as localizadas na ilha do Combu e também em Icoaraci.
Para o presidente da Fumbel, Fábio Atanásio, manter um
cinema centenário, como o Olympia, é de suma importância para a cidade. “A
tradição dos cinemas de rua está se perdendo, mas o Olympia vai continuar a ser
essa grande sala, não só pela sua importância histórica, mas também por ser o
retrato vivo de uma época das mais importantes para a capital do Pará, como foi
a Belle Époque”, disse o Atanásio.
Encontro - Ainda nas celebrações pelos 106 anos do Cine
Olympia, a programação prevê no dia 4 de maio, às 18 horas, a realização do
“Encontro de Audiovisual em Comemoração aos 106 anos do Cinema Olympia”, com
debates sobre a produção crítica e fílmica do cinema paraense.
Os convidados são Ângela Gomes e Ana Lúcia Lobato,
professoras do curso de Cinema da Universidade Federal do Pará (UFPA); Zienhe
Castro, produtora cinematográfica paraense, diretora do curta metragem
“Promessa em Azul e Branco”; Cássio Tavernard, produtor cinematográfico,
diretor da animação “A Onda - Festa na Pororoca”; e Marco Antônio Moreira,
crítico de cinema e presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará
(ACCPA). Haverá entrega de certificados aos participantes. Vale ressaltar que o
acesso é gratuito.
Serviço:
Programação de aniversário de 106 anos do Cinema Olympia,
nesta terça-feira, 24, às 18h30, no projeto Cinema e Música, exibição do filme
mudo “A Dama da Camélias”, com acompanhamento musical, ao vivo, do pianista
Paulo José Campos de Melo. Apoio da Fundação Carlos Gomes. Entrada franca.
Por Dedé Mesquita ( Fotos: Fernando Sette)
Texto e imagens reproduzidos do site: agenciabelem.com.br
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