Fotos: Arquivo professor Maurício Ferreira
Publicação compartilhada do site SAMPI NET, de 27 de agosto de 2023
Cinemas de rua: memórias de uma era de ouro em Jundiaí/SP.
Por Yasmim Dorti | Jornal de Jundiaí
Com o lançamento do filme "Retratos Fantasmas", de Kleber Mendonça Filho, que estreou nesta quinta-feira (24), os antigos cinemas de rua ressurgiram de forma nostálgica para as pessoas que até hoje guardam carinho e memórias inesquecíveis daquela época. Em Jundiaí, mais de 15 cinemas abrigavam as exibições cinematográficas.
Os cinemas de rua, que eram grandes edificações localizadas em bairros, se tornaram um ponto de encontro e principal consumo de cultura. O período entre as décadas de 1920 e 1950 foi especialmente importante para a popularização desses espaços como um entretenimento. Entretanto, com o avanço da televisão, a partir das décadas de 1950 e 1960, os cinemas de rua começaram a enfrentar desafios, devido à "competição" com o entretenimento em casa.
Em Jundiaí, a maioria dos cinemas abriu as portas na década de 1950. De acordo com Maurício Ferreira, proprietário de um acervo e professor de Direito, Ética e Cidadania, com a inauguração das salas de cinema de shopping, em 1989, os remanescentes, Marabá e Ipiranga, no Centro da cidade, começaram a sentir dificuldades para se manter.
"Os cinemas acabaram migrando para os shoppings devido à segurança. As pessoas se sentiam em um ambiente melhor no shopping, sendo climatizado, com mais atrativos, praças de alimentação, salas de cinema bem novas e também por conta dos altos custos dos cinemas do Centro, que eram prédios mais antigos, com aluguéis mais caros. O Cine Marabá foi demolido e hoje é um estacionamento, o Cine Ipiranga se tornou a Textil Abril, ele resistiu um pouco, mas não conseguiu cobrir os altos custos de manutenção do cinema e o baixo número de público, que migrou para os shopping centers", contou Maurício.
ALÉM DAS TELONAS
Apesar de serem simples salas de exibição, esses espaços guardam memórias inesquecíveis e histórias de amor que se desenrolaram nas poltronas.
Isabel de Souza, 66 anos, aposentada, se lembra da primeira vez em que foi ao cinema: na época, passava o filme "Grease - Nos tempos da brilhantina", de 1978. Quando frequentava o colégio e considerava a aula "chata", costumava matar aulas para ir assistir filmes.
"Nos anos 70, as opções de cinema de rua eram várias. Era um entretenimento barato e todos tinham acesso. Quando o filme impunha idade para ingressar, eu e minhas amigas tínhamos carteirinha escolar com idade grosseiramente falsificada. Hoje me pergunto 'Como não percebiam?', se percebiam, deixavam para lá, até porque os filmes que nos eram proibidos, eram tão ingênuos quanto nós. De 73 a 76 eu estudava à noite no colégio e essa foi a melhor época. Ia ao colégio e, se as aulas fossem 'chatas', deixava lá o material escolar e ia ao Marabá, assistíamos de tudo, afinal qualquer filme com pipoca e um comparsa parecia ser mais interessante do que as aulas. Apesar de ser irresponsável da minha parte, era uma delícia. Depois era só voltar e assistir às últimas aulas 'entrando de fininho'. Tenho saudades, mas eram outros tempos, hoje prefiro a segurança e comodidade dos cinemas nos shopping centers", contou a aposentada.
Vera Aida de Oliveira Borin Souza, 71 anos, começou a namorar seu marido, Edson de Souza, 70 anos, no Cine Polytheama, em 13 de junho de 1973. Na época, assistiram ao filme "Love Story". "Eu conheci meu marido através de seus primos, os quais eram meus amigos, em Campo Limpo Paulista, alguns anos antes de começarmos a namorar. Na época, ele morava em São Paulo e vinha sempre com o irmão passear na chácara dos tios em Campo Limpo, eu morava próximo e nos fins de semana fazíamos bailinhos na varanda. Mas começamos a nos interessar um pelo outro quando ele veio morar em Jundiaí. Eu estudava no colégio e nos fins de tarde sempre nos encontrávamos no escritório de contabilidade de um tio dele. Entre idas nos cinemas da época, Marabá, Ipiranga, entre outros, começamos a namorar durante uma sessão do Cine Polytheama, no dia de Santo Antonio", contou.
Vera ainda relembra momentos que viveu naquela época. "Eu e meu marido, na época namorado, íamos muito nos cinemas e quando pegávamos a última sessão não havia mais ônibus para a casa dele, que na época morava na Rua do Retiro, próximo à Faculdade Anhanguera e o jeito era ir andando a pé. Hoje quando passo por lá não acredito que andávamos tudo aquilo e quase de madrugada", relembrou. Atualmente, eles celebram 50 anos juntos, sendo 46 anos de casados.
MEMÓRIAS
O empresário Paulo Abraão Colombera, 36 anos, conta que seu pai, Dorival Júlio Colombera, falecido aos 79 anos, trabalhava no Cine Polytheama, com cartazes antigos. "Desde pequeno sempre tivemos contato com a arte em geral. Me lembro que em casa sempre tivemos muitos livros, aos domingos almoçávamos em família ouvindo musica clássica (meu pai gostava muito de trilhas sonoras de filmes, orquestra Tabajara e Ray Coniff)", explicou o filho.
"A ligação com cinema sempre foi muito intensa. Em Jundiaí, no Teatro Polytheama, antes de seu fechamento, na década de 60, o espaço era conhecido como "Cine Teatro Polytheama", onde passavam filmes famosos daquela época. Me lembro de meu pai contar que ele trabalhava no teatro e, pelo alto custo dos rolos de filmes, existia uma espécie de parceria entre o Cine Teatro Polytheama e o já extinto Cine Ipiranga e Marabá, entre alguns outros. Ou seja, ele tinha que colocar o filme para rodar no Cine Polytheama e assim que finalizava a exibição do filme, tinha que sair correndo levando os rolos para outro Cine que iria reproduzir o mesmo filme no mesmo dia", contou Paulo.
Além disso, o filho conta que, posteriormente, seu pai foi convidado para atuar. "A Paixão pelo cinema fez com que fosse convidado para atuar em um filme que seria gravado em Jundiaí, na época não teve uma grande vendagem, mas para ele foi motivo de orgulho. O filme chama-se "A Lei dos Fortes". Outro filme que seria rodado em Jundiaí, precisamente na Fazenda Ermida, foi do saudoso Mazzaropi, chamado 'Casinha Pequenina'. Neste, porém, meu pai não fez parte do elenco, mas sempre contava essa historia", relatou Colombera.
Paulo traz consigo o ensinamento que foi passado de seu pai e o amor pela arte. Atualmente, é baterista e segue a arte musical. "Tenho um carinho por todo ensinamento que me foi passado, mas o curioso é que nunca fiz teatro profissional, apenas atuei em peças amadoras em eventos familiares. Na realidade, a música sempre foi evidente na minha vida e o respeito que meu pai teve por isso desde o inicio foi um grande ensinamento, respeitando a arte, seja ela qual for, sem proibir ou impor qualquer restrição", contou Colombera.
Texto e imagens reproduzidos do site: sampi net br/jundiai




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