terça-feira, 15 de agosto de 2017

Retrato de Projecção # 14: A Cinemateca Júnior no Salão Foz













Retrato de projecção 14: a Cinemateca Júnior no Salão Foz
De Tiago Baptista · Em Julho 20, 2017

Todos os sábados à tarde, antes de arrancar a sessão das 15 horas, a sala da Cinemateca Júnior é uma animação. Pais e filhos enchem a plateia do Salão Foz de gritos e risos, misturados com admiração pela decoração da sala: o ecrã emoldurado por pilastras e um frontão triangular, baixos-relevos de estuque nos balcões e no palco, candelabros pendurados do tecto, o chão revestido de alcatifa, os nichos com aparelhos de pré-cinema atrás da última fila de cadeiras, as cortinas de veludo amarelo-torrado e as grandes portas de madeira que deixam entrever, na sala contígua, a exposição permanente de instrumentos ópticos e lanternas mágicas da Cinemateca Júnior. Nada que se compare, porém, com o silêncio deslumbrado – pontuado por exclamações, mais gargalhadas e mais gritos assustados – que acompanha o início da projeção (no dia da nossa visita, um programa de curtas da Disney em cópias de 35mm).

Dificilmente se poderia escolher melhor local para uma sala destinada à formação de novos públicos para o cinema. O atual Salão Foz está instalado num edifício carregado de história e numa das salas de cinema mais antigas da cidade. A Cinemateca Júnior está localizada no interior de um palácio do século XVIII/XIX, conhecido inicialmente como Palácio de Castelo Melhor e, depois de 1889, como Palácio Foz. Em 1901, na sequência de problemas financeiros, o marquês da Foz foi obrigado a vender o recheio do seu palácio num leilão que durou dias e que foi um dos maiores acontecimentos mundanos da Lisboa do início do século XX. Pouco depois, a própria capela privativa do palácio foi desmantelada e todo o edifício acabou por ser hipotecado a um banco e depois alugado parcelarmente durante as décadas seguintes. Nos espaços arrendados do rés-do-chão instalaram-se então várias lojas e restaurantes, entre os quais a célebre Pastelaria Foz e, na cave, o café-restaurante Abadia, inaugurado em 1917; no andar nobre instalou-se o maior clube noturno da Lisboa dos anos vinte, o Maxim’s. Em 1908, instalado na antiga capela privativa do palácio, abriu o Salão Central, sala de cinema explorada por Raul Lopes Freire, um dos empresários de cinema mais importantes do seu tempo. Mais tarde, o mesmo Lopes Freire inaugurou uma segunda sala de cinema na antiga sala de música do palácio, destruída por um incêndio em 1929.

Desde a sua abertura em 1908 e até à inauguração do cinema Tivoli, em 1924, o Salão Central foi a sala de cinema mais luxuosa de Lisboa, tendo procurado sempre cativar o público mais elegante da capital. A partir de 1917 teve uma orquestra residente de seis elementos para fazer o acompanhamento musical de todos os filmes e dispunha ainda de uma sala de espera e de um bar contíguos à plateia e com vista para os jardins nas traseiras do palácio. Para concorrer com outras salas mais novas e mais modernas, o Salão Central sofreu quase anualmente remodelações na sua decoração e melhoramentos nas suas condições de conforto que aproximaram a sala do seu aspecto atual. Em 1928, mudou igualmente de nome para Central Cinema, perdendo finalmente a designação de “salão”, associada às mais antigas salas de cinema e, cada vez mais, aos cinemas de bairro, de frequência mais popular. Passaram por este cinema alguns dos filmes mais marcantes da história do cinema estrangeiro e português: nos anos 1910, estrearam aqui vários melodramas dinamarqueses, como Atlantis (August Blom, 1913), ou o filme de reconstituição histórica italiano Cabiria (Giovanni Pastrone, 1914). A partir dos anos 1920, estrearam aqui vários serials americanos, bem como O Destino (Georges Pallu, 1922) e Mulheres da Beira (Rino Lupo, 1923), dois êxitos do cinema mudo português. Até ao final da década de 1920, estrearam vários filmes alemães, assinalando o gosto da época e também o facto de Lopes Freire ter sido um dos principais distribuidores de filmes desse país em Portugal, especialmente da mítica produtora UFA. Foi também nesta sala que tiveram lugar as estreias portuguesas de, por exemplo, O Gabinete do Doutor Caligari (Robert Wiene, 1920), ou de Dr Mabuse (1922), Espiões (1928) e A Mulher na Lua (1929), todos de Fritz Lang, ou ainda a Paixão de Joana d’Arc (Carl Dreyer, 1928). A partir de 1931, tiveram lugar as primeiras sessões de cinema sonoro no Central Cinema. Foi ali, também, que Manoel de Oliveira viu em 19 de setembro de 1931 o seu Douro, Faina Fluvial (1931) ser recebido com uma monumental pateada, episódio relembrado pelo realizador no mesmo local, passados exatamente 71 anos, na ante-estreia de Porto da Minha Infância (2001).

Foi ali, também, que Manoel de Oliveira viu em 19 de setembro de 1931 o seu Douro, Faina Fluvial (1931) ser recebido com uma monumental pateada, episódio relembrado pelo realizador no mesmo local, passados exatamente 71 anos, na ante-estreia de Porto da Minha Infância (2001).

Em 1940, o Estado comprou o Palácio Foz, onde viriam a instalar-se no final de 1947 o Secretariado Nacional da Informação (SNI) e, sob a sua tutela, a Inspeção Geral de Espectáculos (censura de filmes incluída) e a recém-criada Cinemateca Nacional. O antigo Central Cinema torna-se a “sala de conferências, concertos e cinema” do SNI sofrendo então a sua última remodelação, que lhe deu o aspecto atual, desenhada pelo arquiteto Luís Benavente, autor do projeto de restauro e adaptação de todo o Palácio Foz às novas funções. As sessões regulares da Cinemateca no Salão Foz, como é atualmente conhecida a sala, arrancaram em Setembro de 1958 com uma retrospectiva de cinema mudo português. Três anos antes, nas traseiras do Palácio Foz, tinham-se inaugurado os primeiros cofres climatizados da Cinemateca, que ali funcionaram até à abertura do seu centro de conservação fílmica – o ANIM –, em 1996.

As sessões regulares da Cinemateca no Salão Foz continuaram até 1980, data da sua mudança para instalações próprias na Rua Barata Salgueiro, onde permanece desde então, exceção feita a um breve retorno, entre 2001 e 2002, durante as obras de remodelação da Barata Salgueiro. Em 2007, o Salão Foz acolheu o projeto pedagógico e museológico da Cinemateca Júnior, que se divide entre sessões para as escolas do distrito de Lisboa durante a semana e, aos sábados, sessões abertas ao público (com um atelier para famílias na manhã do último sábado de cada mês). Além destas sessões, qualquer pessoa pode visitar, de segunda a sábado, a coleção de equipamentos cinematográficos, originais e réplicas, que conta o início da história do cinema e que é o “pórtico” do que poderá um dia vir a ser o “museu” da Cinemateca.

No dia da nossa visita, o responsável pela cabine é Michaël Monnier, um dos sete projecionistas da Cinemateca e que, juntamente com Sérgio Ribeiro, é quem mais tempo costuma passar na Júnior. Na nossa primeira visita encontramo-lo na cabine, no topo do balcão, preparando uma cópia de 35mm de Ponyo (Hayao Miyazaki, 2008) para uma sessão escolar. O espaço é pequeno para os três projetores (um Prevost de 16mm, 1 Zeiss Ernemann de 35m e um Kinoton FP38E de 16/35mm – o Kinoton veio do ICA e substituiu o segundo Ernemann que veio da antiga cabine da Barata Salgueiro). Tudo está impecavelmente arrumado e etiquetado, das prateleiras com objetivas e peças sobresselentes e às janelas de projeção de vários formatos, e há avisos por todo o lado. No chão, na parede oposta à das vigias, vários filmes já montados aguardam a sessão em que serão projetados. Existe uma pequena sala de montagem, mas a maior parte dos filmes já são entregues montados através de uma porta que liga diretamente a cabine à Calçada da Glória. É dali que chega também, em intervalos regulares, o ruído da passagem dos elevadores.

Michaël, 43 anos, está ligado ao cinema desde o nascimento, ou não fosse o seu nome uma homenagem a Michael Douglas, de quem a mãe era uma grande fã. Nasceu em França, em Pontarlier, perto de Besançon (quase na fronteira com a Suíça). Com 14 anos, já ajudava na bilheteira do cineclube Jacques Becker, fundado em 1960 e que ainda existe. Dois anos depois, começou a trabalhar com um amigo num cinema de Pontarlier: ele ocupava-se da cabine e o amigo fazia a bilheteira. Uma aventura para qualquer pessoa, um trabalho de sonho para dois adolescentes cinéfilos. E o início de uma carreira como projecionista que o levou a fazer um curso obrigatório com um exame teórico-prático em que tinha que preparar um pequeno programa com dois trailers e uma longa-metragem, identificando os formatos de projeção e as janelas corretas que deviam ser usadas para cada filme.

Ainda estudou gestão e comércio, mas desistiu porque queria estudar cinema. Trabalhou seis meses numa fábrica para juntar dinheiro e rumou ao Conservatoire Libre du Cinéma Français, em Paris, onde aprendeu montagem (ainda em película). Qualquer curso de cinema em Paris completa-se com as idas aos cinemas de arte e ensaio e à Cinemateca, que Michaël frequentou assiduamente. Acabou o curso em 1994 e, um ano depois, encontrou emprego na cadeia de cinemas Pathé, em Lyon. Regressou a Paris passados seis meses para trabalhar no Grand Rex (da UGC), que não é uma sala de cinema qualquer. Classificado como “monument historique” desde 1981, foi construído em 1930 como uma réplica reduzida do Radio City Music Hall de Nova Iorque. É um dos melhores exemplos dos “picture palaces” europeus, em França também conhecidos como “salas atmosféricas” devido às grandes dimensões dos auditórios e à decoração exuberante, muitas vezes inspirada em estilos decorativos históricos (podemos encontrar um modelo à escala lisboeta no Tivoli de Raul Lino, em imitação do estilo Luís XIV). A “Grande Salle”, com 2.700 lugares, é a maior da Europa, e também acolhe concertos. Desde os anos 1970, o Grand Rex funciona como multiplex, com mais 6 salas entre 500 e 100 lugares. Foi neste período que Michaël conheceu uma portuguesa e veio trabalhar para Lisboa. Passou ano e meio nos cinemas do recém-aberto Vasco da Gama, mas acabaria por voltar a França e aos multiplexes da UGC nos arredores de Paris. Confessa que sempre gostou destas salas por terem muitas máquinas a funcionar ao mesmo tempo (lembra-se de um turno em que ficou sozinho com os 24 projetores de um multiplex). Também gostava de saltar de um cinema para outro, o que considera uma excelente forma de ganhar experiência e de quebrar a rotina. Voltou a Lisboa e trabalhou no São Jorge até ao seu encerramento em 2000. Passou depois pelo laboratório da Tobis, onde reparou filmes de 16mm da RTP antes da sua digitalização. Mas aquela rotina não condizia com ele e por isso aceitou o convite para trabalhar na cabine da Cinemateca em abril de 2005.

Além da Cinemateca, trabalha como projecionista na Gulbenkian e nos festivais IndieLisboa e DocLisboa (ainda chegou a projetar na Malaposta), no Instituto Franco-Português até ao desmantelamento do auditório, em 2016, e nas extensões da Festa do Cinema Francês fora de Lisboa. Também passou pelo Rivoli, no Porto, pelos drive-ins de Montijo e Coimbra, e fez um verão de projeções de cinema em várias praias do país. Gosta muito da Cinemateca e especialmente da Júnior, mas – como muitos projecionistas – tem saudades do ritmo dos multiplexes. Confessa que por vezes ainda lhe faz confusão ocupar-se apenas de uma sala de cada vez.

Sérgio Ribeiro, 49 anos, é o outro projecionista da Cinemateca que costuma trabalhar na Júnior. Encontramo-lo durante uma sessão no terraço da Barata Salgueiro e, noutra visita, na cabine da sala M. Félix Ribeiro. Sérgio começou a trabalhar na cabine dos Olivais, que já sabemos foi um viveiro de projecionistas de multiplex em Lisboa. Foi ali que projecionistas mais antigos, como Vítor Oliveira, transmitiram os seus conhecimentos e experiência aos colegas mais novos. Sérgio passou depois ao Colombo e ainda se recorda muito bem da cabine enorme e dos quilómetros que lá fez dentro. Foi chefe de cabine e dali foi inaugurar o Vasco da Gama, regressando brevemente ao Colombo antes de ir para o Oeiras Parque, onde tomou o lugar de Abel Arnaut quando este regressou a Lisboa. Foi em Oeiras que, uma vez, partiu uma vez a cabeça num tecto falso e, noutra vez, teve que interromper a sessão para ir atar com cordas improvisadas as máscaras do ecrã que se tinham partido durante a projeção. Ainda passou novamente pelos Olivais até, no início de 2002, fazer um interregno no trabalho de projecionista.

Entrou para a Cinemateca em maio desse ano, estreando as salas novas da Barata Salgueiro em janeiro de 2003. Encostado à enroladeira elétrica ao fundo da M. Félix Ribeiro, Sérgio conta que “foi então que percebi que não sabia nada de projeção”. Só conhecia três formatos, velocidades únicas, o 35mm, o cinema sonoro e as cópias montadas. Houve, como aconteceu com todos os projecionistas que entraram na Barata Salgueiro, um período de adaptação e aprendizagem. Desde então, além da película, Sérgio aprendeu ainda a usar vários formatos vídeo e, mais recentemente, a projeção digital (incluindo o 3D). O digital só representa uma ruptura radical se não levarmos em conta a projeção em vídeo. Numa cabine de cinemateca, cada transição tem que implicar a manutenção da tecnologia de projeção anterior para que se possa garantir sempre o imperativo de mostrar cada obra no formato em que foi originalmente distribuída. O que não quer dizer que os projecionistas deixem de ter opinião sobre as máquinas que usam. Todos os colegas de Sérgio explicam que a nova geração de projetores de película tem muitos componentes eletrónicos que impedem aquela relação próxima com as máquinas mais antigas, quase exclusivamente mecânicas, com que muitos deles aprenderam a profissão, nos multiplexes comerciais.

Como não podia deixar de ser, uma conversa que começou na cabine da Júnior já se transportou para a da Barata Salgueiro. Não são apenas os filmes, mas também os projecionistas e as próprias máquinas que circulam entre estes dois espaços. É tempo, por isso, de parar este texto para recomeçar, noutro, a história da projeção nas salas da Cinemateca na sua sede da Rua Barata Salgueiro.

Fotografias de Mariana Castro

Agradecimentos: Michaël Monnier, Sérgio Ribeiro, Maximino Fernandes, Rui Machado, Margarida Sousa.

Texto e imagens reproduzidos do site: apaladewalsh.com

Os dias de glória do cinema poeira



Publicado originalmente no site Webinsider, em 01 de dezembro de 2012.

Os dias de glória do cinema poeira

O cinema "poeira" teve seus momentos de importância na vida do fã de cinema de outrora. E a sua lembrança pode facilmente ser revivida nos dias de hoje, com a mídia disponível ao usuário.

Por Paulo Roberto Elias 

A minha geração e as que me antecederam frequentaram salas de exibição classificadas como “cinema poeira”, ou ainda “poeirinha”, como muitos gostavam de chamá-las.

A ida ao cinema poeira não era somente falta de opção, ao contrário: naquela época, o relançamento ou reprise de muitos filmes nos cinemas lançadores acontecia ocasionalmente. Em outros aspectos, o cinema poeira preenchia um vazio dos outros cinemas: a exibição ostensiva de filmes da chamada “classe B”, aqueles cujos estúdios davam uma importância de produção menor.

O filme classe B não é necessariamente ruim. Na verdade, muitos filmes classe B se tornaram clássicos, e entre eles o exemplo mais notório é, sem dúvida, Casablanca, dirigido por Michael Curtiz. Considerado classe B com elenco classe A, Casablanca ganhou a reputação do filme feito para cumprir contrato, e o estúdio deixou em paz a produção, filmada totalmente lá dentro, com exceção de apenas uma cena, e rodado em relativo curto espaço de tempo.

Filmes classe B se tornaram, e ainda são, “cult” para muita gente. Enquanto que hoje nós podemos nos dar o luxo de colecionar e assistir um filme destes em qualquer momento, naquela época o cinema poeira era a opção de reprise mais viável. E, desnecessário acrescentar, com preço de ingresso muito mais baixo, em relação às principais cadeias de exibidores.

 A classificação de um cinema como “poeira”

A denominação “cinema poeira” é de origem popular e até hoje eu sou um que desconheço de onde ela veio. É mais ou menos a mesma situação de uma anedota que um amigo seu lhe conta, que ouviu de outro, e assim sucessivamente, sem que ninguém saiba de onde a anedota partiu ou quem a criou.

No entanto, a classificação de uma sala exibidora como “poeira” seguia critérios bastante distintos:

1. Os assentos eram de madeira.

2. Ausência de ar condicionado.

3. Tela sem cortina.

4. Aparelhagens de projeção arcaicas (35 ou 16 mm).

No âmbito da Tijuca (Rio de Janeiro), já comentado aqui na coluna, o antigo Cinema Tijuca, conhecido como “Tijuquinha”, foi o principal poeira, bem no coração da Praça Saens Peña. Logo ao seu lado, estava o luxuoso e moderno Metro-Tijuca, então o contraste era inevitável.

O Tijuca vivia cheio, apesar da falta do ar condicionado. A projeção era bastante decente, e quem não tinha recurso para ver o filme nos cinemas lançadores, bastava esperar uma semana e o filme entrava no Tijuca. Quando ele fechou, foi aberta uma loja com o nome de “Tijuquinha das Frutas”. Irônico, não é não? E hoje, quem passa pela Praça, basta olhar de frente as Lojas Americanas: a entrada da direita era onde ficava o Tijuquinha. O nome Cinema Tijuca, entretanto, ficou: quando o grupo Severiano incorporou e reformou o antigo Eskye-Tijuca, o cinema foi rebatizado como “Tijuca”, com aparelhagem Incol 70/35, inclusive.

Nos arredores da Praça Saens Peña, outro famoso poeira era o Santo Afonso, cinema onde o advogado e dono da réplica do Metro construída em Conservatória, Ivo Raposo Jr., militou como operador, desde épocas remotas de sua adolescência. O Ivo, como ele mesmo me contou, saía do Colégio Batista, e ia trabalhar na cabine do Santo Afonso, e lá viveu uma história muito parecida com a do menino Totó, de Cinema Paradiso, obrigado a cortar cenas impróprias dos filmes exibidos. É que o Santo Afonso pertencia aos padres da Paróquia do mesmo nome. Um deles assistia o filme, e mandava o operador retirar o rolo e cortar a cena na coladeira, coisa que o Ivo fez muitas vezes. O seu depoimento mais detalhado foi publicado como parte do projeto Planetary Projection, da Editora canadense Caboose.

O interessante é que o porteiro do Santo Afonso ficaria conhecido dos meninos da rua como aquele que fazia vista grossa para a nossa entrada em filmes proibidos para menores de 18 anos. Assim, quando alguém descobria alguma coisa interessante passando por lá, e impossível de se ver em um cinema de cadeia, a turma comprava inteira (o ingresso era muito barato) e entrava no cinema na maior cara de pau deste mundo.

A censura sempre foi pudica. Amor, Sublime Amor, por exemplo, era proibido para menores de 16 anos, por causa do tema “gangues de rua”. Eu tinha 15 anos quando o filme abriu no Madrid, e só entrei porque o porteiro não viu direito a minha carteira de estudante!

 A paródia inglesa dos cinemas poeira

Um filme curto, hilário e bem dirigido, “The Smallest Show On Earth”, tem no elenco Peter Sellers, em um dos seus melhores trabalhos, e atores competentes, mostrando o confronto público entre um cinema de luxo e um poeira.

A ideia do roteiro é muito simples: o personagem herda um cinema antigo de uma cidade pequena do interior da Inglaterra, herança do tio que ele mal conheceu. Chegando lá, e não conseguindo um preço justo para venda, resolveu reabrir o cinema, para atiçar a cobiça do concorrente.

Peter Sellers faz o papel do projecionista, mas um homem com idade suficiente para lidar com os projetores do início do cinema sonoro. Quando o trem passa na estação ao lado do cinema, a aparelhagem balança toda e Sellers é obrigado a abraçá-la, para não desabar tudo:

Exagero? Nem tanto. O filme segue com cenas hilárias, da plateia se divertindo com as falhas de projeção. É que no cinema poeira (chamado pelos ingleses de “flea pit” ou “poço de pulgas”) tudo é permitido, e quando a bagunça acontecia e tomava proporções exageradas, aparecia o lanterninha para colocar os recalcitrantes para fora.

Digno de nota, o cinema do filme inglês tem o nome de “Kinema Bijou”, com “K” mesmo, seguindo as raízes da palavra grega, que significa “(imagem) em movimento”. Os europeus guardaram a tendência de chamar sala de cinema como “Cinema”, com a troca do K pelo C, como nós também fizemos. Por isto, não é de se admirar que o termo “Home Theater” seja também chamado de “Home Cinema” pelos fabricantes europeus.

 Klaatu barada nikto!

Um filme classe B que eu adoro, e recomendo para quem ainda não viu, é o clássico “O Dia Em Que A Terra Parou”, magnificamente dirigido por Robert Wise. Aliás, quando Wise foi convidado para dirigir o primeiro Star Trek do cinema, muitos ficaram espantados, por causa da fama do diretor em filmes musicais (Amor Sublime Amor, A Noviça Rebelde e outros). Mas, acontece que a experiência no gênero ficção científica do diretor tinha precedência e, não por acaso, alguns anos antes Robert Wise havia dirigido “O Enigma de Andromeda”, primeiro filme escrito por Michael Crichton, que depois escreveu “Jurassic Park”.

O filme de Wise não é somente uma obra de ficção científica elegante, ele é também um discurso contra atos de violência e autodestruição da humanidade, protestando, neste caso, contra o uso da energia atômica para fins destrutivos. Tudo isto, em 1951, pouco tempo depois, relativamente, da saída do planeta da segunda guerra mundial, quando então muitas lições a este respeito já deviam ter sido aprendidas. Mas, não o foram até hoje, o que torna este filme extraordinariamente atual.

“Gort, Klaatu barada nikto!” é o apelo repetido por Patricia Neal, no personagem Helen Benson, ao robô Gort. A frase, como era hábito em Hollywood naqueles tempos, nunca foi traduzida nem comentada pelo autor do roteiro e criador da linguagem alienígena Edmund North, tendo sido alvo de interpretações de fãs e outros exegetas pelo mundo todo. North teria dito ao historiador Steven Rubin que a frase significaria “Há esperança para a terra, se os cientistas puderem ser alcançados”. Mas, quem assiste ao filme nem precisa de tradução. A frase alerta Gort que ele não deverá tomar qualquer atitude de represália e destruir o planeta, por conta da prisão de Klaatu, o alienígena.

O Dia Em Que A Terra Parou é o filme de eleição para a gente preparar a pipoca, se sentar na sala e deixar o tempo correr. É o epítome do que o cinema como diversão representa para todos nós.

E se hoje nós não temos nem chance de ir ao cinema poeira da esquina para vê-lo, basta recuperá-lo em DVD ou Blu-Ray. O filme foi recentemente restaurado, e até mesmo a edição em DVD é ótima para uma sessão em casa.

Texto e imagem reproduzidos do site: webinsider.com.br

terça-feira, 4 de julho de 2017

Cinema ambulante, em Portugal












António Feliciano é o guardião do cinema na aldeia. Anda de terra em terra. 
Semeia felicidade. Difunde cultura e oferece sonhos.
Fotos reproduzidas do site: visao.sapo.pt

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Palladium completa 50 anos de muitas histórias

Nos anos 70, 80 e 90, o Cine Palladium era marcado pela 
qualidade de som e projeção e pelo conforto.

Publicado originalmente no site Hoje em Dia, em 07/02/2013.

Palladium completa 50 anos de muitas histórias
Paulo Henrique Silva.

Reza a cartilha dos relacionamentos amorosos que o primeiro encontro deve acontecer num lugar marcante, para causar boa impressão no pretendente. O Palladium cumpriu esse papel por três décadas (70, 80 e 90), como a casa preferida dos namorados.

Prestes a completar 50 anos, em 31 de julho, o cinema localizado na rua Rio de Janeiro, hoje transformado em centro cultural, não só deixa saudades nos casais apaixonados como também entre aqueles que exigem conforto e qualidade de projeção.

Luxo

A sala já nasceu com uma vocação superlativa, tornando-se imediatamente o cinema mais sofisticado de Belo Horizonte. "Tinha o ingresso mais caro na época. Mas era um luxo só: o chão e as paredes eram atapetados na cor vermelha e os funcionários tinham que trabalhar de terno", lembra Marcelo Amâncio, projecionista do Palladium durante os anos 80.

O pesquisador e professor de cinema Ataídes Braga destaca que, até 1999, quando foi fechada pelo grupo Cineart, a sala foi a mais importante de Minas Gerais. "Além do seu tamanho, com dois mil lugares, foi o primeiro a seguir o modelo americano de suntuosidade: grande, bonito e confortável", observa.

A programação seguia esse padrão, buscando o meio termo entre produções comerciais e de preocupação artística. "Os proprietários tinham um cuidado maior com o Palladium. Era o xodó deles. O cinema recebia os filmes em primeira mão, que depois circulavam pelas outras salas da cidade e do interior", recorda Valdir Guimarães, que também trabalhou como projecionista da sala.

Público exigente

Ele assinala que ônibus especiais paravam na porta da sala trazendo espectadores de outros municípios. Aconteceu com "Ghost" (1990), que ficou seis meses em cartaz na sala, e com "Titanic" (1997), possivelmente o último filme a lotar o Palladium. "O público era mais exigente que o dos outros cinemas. Até mesmo a música ambiente era selecionada".

O som, por sinal, sempre foi motivo de orgulho. "Tinha a melhor acústica da cidade, o que acabou se perdendo após o incêndio de 1972, quando tiveram que abrir uma porta lateral", registra Braga.

Um episódio marcante aconteceu dois anos após a sala pegar fogo, durante a projeção de "Terremoto". Moradores vizinhos se assustaram ao sentir o chão tremer. "Adaptamos caixas de som no caixão, com os fios passando por baixo do carpete. As pessoas ficavam com medo", esclarece Guimarães.

Pesquisador cobra espaço para a 7ª arte

O Palladium foi, durante suas primeiras três décadas, a segunda maior bilheteria do país, só perdendo para outro cinema de Belo Horizonte, o Brasil. Esses dados serão compilados num livro preparado por Ataídes Braga.

Segundo plano

O pesquisador lamenta que o Sesc tenha posto o cinema em segundo plano, com exibições em vídeo e problemas de acústica. "Por que não exibem os filmes no Grande Teatro, em duas sessões na parte da tarde? Isso não atrapalharia em nada os espetáculos da noite", sugere.

Milena Pedrosa afirma que há um estudo para aquisição de equipamento de cinema, mas não há definição ainda sobre viabilidade e prazos. "É uma ironia o fato de a melhor sala da cidade tratar tão mal o cinema", critica Braga.

Texto e imagem reproduzidos do site: hojeemdia.com.br

"Cinemas de rua devem inovar sem perder a essência"


  O pipoqueiro Antônio Augustino Nascimento.

 Aos 83 anos, Ely Cardoso de Barros lamenta o fechamento do Cinema Odeon.

O professor Arturo Netto.

Publicado originalmente no site Puc Rio Digital, em 06/03/2015.

"Cinemas de rua devem inovar sem perder a essência".


Por Larissa Fontes e Paula Laureano. 


O anúncio de uma parceria do grupo Estação de cinema com a Net, uma das maiores operadoras de serviços de telecomunicações via cabo da América Latina, e a reforma do Cine Odeon pelo Grupo Severiano Ribeiro, são finais felizes para a cidade do Rio, que já chegou a contar com 198 cinemas de rua, nos anos 1960. Hoje restam 16, alguns dos quais lutam para sobreviver à crise financeira que assombra produtores e entristece o público. Para manter o que restou desse patrimônio cultural e afetivo do Rio é preciso modernizá-lo, afirmam especialistas ouvidos pelo Portal; uma melhor qualidade de som e imagem, além de mobilidade e segurança no entorno, são medidas que devem ser asseguradas.

O Grupo Estação assinou a parceria 11 dias antes do seu 29º aniversário, após correr o risco de fechar. Além de aporte financeiro para ajudar a quitar as dívidas, que chegam a R$ 43 milhões, a rede, que vai se chamar Circuito Estação Net de Cinemas, passará por melhorias e expansão dos cinemas Estação Rio, em Botafogo, e do Estação Gávea. Até janeiro estão previstas as primeiras mudanças. O novo patrocínio também vai permitir digitalizar os equipamentos de projeção, fazer um novo site e um aplicativo para smartphone. Marcelo Mendes, presidente do Estação, lembra as dificuldades financeiras que já se arrastam há quase uma década. Para o sócio-fundador do grupo, a mobilização do público teve papel fundamental para sair da situação negativa (lembre a crise em Cinéfilos se mobilizam para salvar Grupo Estação):

– Foi muito bom saber que influenciamos positivamente a vida de tantas pessoas.

Viviane Vieira

 Viviane Vieira Já o grupo Severiano Ribeiro, proprietário do Cinema Odeon, prepara uma reforma do espaço e a instalação de projetores de última geração. Por questões estruturais, não vai ser possível realizar mudanças radicais, como implantar o formato stadium, preferido dos cinemas de shoppings, que permitiria uma visão adequada em qualquer assento. Mas o último cinema da Cinelândia já dispõe de um som bem projetado e moderno.

Diretor do grupo, Luiz Severiano Ribeiro garante que os cinemas de rua pelos quais é responsável vão permanecer. “Mas é preciso melhorá-los, senão o público deixa de ir”, observa. “Vou ao Cine Leblon (abaixo, também fechado temporariamente) e ouço as pessoas reclamando, insatisfeitas com a estrutura”. E pondera:

Gabriel Camargo

 Gabriel Camargo – Nenhuma capital do mundo tem tantos cinemas de rua quanto o Rio. Somente o nosso grupo contabiliza 14 salas, uma no Odeon, quatro no São Luiz, três no Roxy, em Botafogo e no Leblon. Até Los Angeles, conhecida por ser a casa das produções cinematográficas, teve seus cinemas destruídos ou transformados em lojas e shoppings, que oferecem o conforto que o público procura. O que importa é as pessoas frequentarem cinema, e terem a liberdade de escolher aonde ir.

No entanto, não são poucos os espectadores que acreditam que o shopping desvaloriza a experiência cinematográfica. Aos 83 anos, Ely Cardoso de Barros lamenta o fechamento do Cinema Odeon, único cinema de rua sobrevivente da Cinelândia. Agora, Seu Ely, que nunca abriu mão das salas na beira da rua, vai ao o Kinoplex São Luiz, no Largo do Machado, quando quer assistir a um filme.

Não frequento cinema nos shoppings, não gosto. Acho que não são acolhedoras – alega o aposentado.

Assista: Moradores da Tijuca lamentam fim das salas do bairro.

O professor de cinema italiano do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio Arturo Netto também cita o São Luiz como exemplo de que cinemas de rua podem inovar sem perder o charme:

– É um lugar simpático. Ao mesmo tempo em que é moderno, mantém uma atmosfera acolhedora. Acho que os cinemas de rua precisam passar essa imagem, fazer com que o espectador se sinta em casa.

A jornalista Patrícia Fernandes, de 48 anos, tampouco gosta de ir ao cinema no shopping. Entende que, quando se vai ao shopping, o cinema não é o foco, é sempre uma atividade complementar às compras, por exemplo. Para Patrícia, o tumulto, a barulheira e as filas imensas incomodam.

– O público também é muito diferente. No cinema de rua, as pessoas respeitam mais o ato de assistir ao filme, são mais atentas a ele e mais educadas com os outros espectadores. No shopping, é tudo mais impessoal, menos emotivo – diz.

“O cinema de rua é algo que começa e se encerra ali mesmo” – completa o crítico Marcelo Janot, que acredita que, havendo condições para que o público frequente esses cinemas, “ele vai frequentar”.

Outro exemplo de cinema de rua inovador que preserva a essência e a tradição é o Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. Lá, filmes de arte convivem com outros de maior bilheteria, o que atrai um público constante e diversificado. Para o crítico de cinema Marcelo Janot, essa estratégia permite ao espectador que for assistir a um filme comercial ter contato com produções alternativas. Além desse diferencial, as salas de exibição dividem espaço com uma livraria, um café e exposições. “Livros e artes incentivam a cultura e são complementares ao cinema”, acredita.

A cineasta Márcia Bessa, que pesquisou os cinemas de rua em sua tese de doutorado em memória social, tem observado a adoção de um modelo de preservação dos antigos palácios cinematográficos mantendo a maior parte da arquitetura e decoração, mas com outras finalidades. Márcia observa que os projetos de reabertura de alguns cinemas não preveem seu retorno como “pura e simplesmente cinemas de rua”, e cita o Cine Vitória como exemplo. No espaço onde o cinema funcionava foi aberta a Livraria Cultura, que mantém o nome do templo cinematográfico na fachada. Outro exemplo é o do Cine Palácio, que, reformado, será reinaugurado como teatro na Cinelândia.

Hoje os programas de revitalização estão atrelados à ideia de estruturação dos centros culturais, oferecendo serviços e entretenimentos diversificados no mesmo ambiente, viabilizando não somente sua conservação como a manutenção de atividades culturais no local, junto do uso comercial.

O comerciante Claudemir de Oliveira, de 66 anos, carrega a imagem das fachadas “incríveis” e dos candelabros de cristal guardadas na memória. Ele recorda da época em que saía direto do trabalho e entrava nos cinemas para assistir aos filmes em cartaz.

– Era só entrar. Às vezes assistia a dois filmes em um dia só, sem burocracia. Hoje os cinemas nos expulsam antes mesmo de a sessão terminar.

Quando era presidente da Rio Filme, há 20 anos, Paulo Sérgio de Almeida, hoje diretor do maior portal especializado em mercado de cinema do Brasil, o Filme B, já intuía a mudança que estava por vir. Com o surgimento dos shoppings, do conceito multiplex – filmes diferentes transmitidos simultaneamente – e de uma degradação urbana, previu que o cinema de rua estava com os dias contados. O diretor acredita que o público demorou a perceber essa crise:

– Quando fecharam 10 cinemas no Centro e na Tijuca, ninguém falou nada. Só quando fecharam na Zona Sul que começaram a se preocupar. Perceberam o desaparecimento dos cinemas de rua quando já era tarde demais. Nas principais capitais do mundo, como Nova York, Londres e Paris, não existem cinemas em shoppings, são todos na beira da calçada.

O professor Arturo Netto, por sua vez, acrescenta que a saudade e o carinho são inevitáveis, mas o público precisa entender que algumas operações, por trás do afeto, tem um custo, e precisam ser viabilizadas.

Temos que entender que o setor de exibição parte de uma iniciativa privada e que existe uma lógica de viabilidade para continuar a existir. Nenhum empresário vai iniciar uma atividade com a perspectiva de ficar no vermelho – conclui Arturo.

O que tem que ser preservado, para Severiano Ribeiro, é a experiência de ir ao cinema: “O saudosismo e o romantismo pelo cinema de rua não podem existir sem o mais importante, que é o que acontece dentro da sala de exibição”.

Na opinião de Paulo Sérgio, é preciso conciliar vontade política do governo, especulação imobiliária e demanda popular. Além desses interesses, ainda precisa-se considerar o planejamento urbano de cada cidade. Neste sentido, alterar o espaço interno não é suficiente; é necessário que o entorno do cinema de rua esteja em boas condições também. Janot diz que oferecer segurança, transporte público e estacionamento ao redor são medidas imprescindíveis para atrair mais pessoas: “É um trabalho em conjunto entre empresários e prefeitura”.

Estabelecimentos vizinhos também foram afetados pela crise dos cinemas de rua. As portas da Chopperia Cinelândia, ao contrário das do Odeon, continuam abertas, mas o encerramento das atividades do cinema afetou diretamente os lucros do restaurante, segundo Manuel Messias Polessa, garçom do estabelecimento há 11 anos. Manuel, de 50 anos, afirma que o mês de setembro era motivo de comemoração todo ano, devido ao Festival do Rio.

– Prejudicou muito o restaurante. O movimento caiu bastante, principalmente à noite. Era um mês muito esperado, porque muita gente vinha para o Festival. Este ano nem isso nós tivemos – lamenta o garçom.

“A Cinelândia levou um tombo e eu tomei marcação de boi, com ferro quente”, lamenta o pipoqueiro Antônio Augustino Nascimento, que há 31 anos trabalha em frente ao Cinema Odeon. Aos 60 anos, Antônio coleciona lembranças dos tempos de maior movimento do bairro e relata as mudanças que ocorreram diante de seus olhos. As pessoas saindo todas juntas depois que a sessão acaba é a maior saudade do pipoqueiro, que chama atenção para o vazio que ficou principalmente durante a noite. O vaso de planta que fica na esquina do cinema é a prova do abandono, segundo Antônio.

– Até a plantinha já está morrendo. Às vezes vou molhar e também pedi para o rapaz do cachorro-quente jogar a água que sobrar lá para ela não morrer – conta com tristeza o último pipoqueiro da Cinelândia.

História de altos e baixos

No Brasil, os anos entre 1920 e 1950 foram marcados pelo auge do cinema de rua, que teve como início a instalação das salas na Cinelândia. Em 1925, a cidade do Rio foi contemplada com os grandes palácios cinematográficos que começaram a ser erguidos nas calçadas, em meio ao centro urbano. Com arquitetura luxuosa, atraia olhares e conquistava o público.

Salões, galpões, teatros e circos foram o cenário das primeiras projeções. Na década de 80, os cinemas começaram a fazer parte dos shoppings, acompanhando o movimento da sociedade e buscando a otimização dos custos, a partir dos conhecidos multiplex.

Nos anos 90, em consequência do plano de estabilidade econômica do Plano Real idealizado pelo então presidente da República Fernando Henrique Cardoso, o Brasil atraiu olhares de fora. Os players internacionais chegaram e o cinema comercial começou a se expandir. O cinema de rua, por outro lado, não atraiu mais os olhares de investidores.

Pouco mais de cem anos depois do auge, podemos contar nos dedos as salas de exibição de rua existentes na cidade. Para a especialista Márcia Bessa, a história desses espaços sempre foi marcada por dificuldades. Mas a conjuntura crítica do desaparecimento dos “movie palaces” desencadeou uma crise estrutural. No entanto, nem mesmo as inovações tecnológicas e a divisão dos espaços internos poderiam prever a saída do cinema das ruas:

– Os palácios cinematográficos entraram em xeque com a contemporaneidade.

Segundo Márcia, tudo está em um constante processo de mudança no que diz respeito à experiência cinematográfica, desde as imponentes fachadas ao acender das luzes. A pesquisadora afirma que as poucas salas sobreviventes se transmutaram e “parecem ter sua morte anunciada nas ruas para viver nos shoppings”.

Segundo Arturo Netto, é inegável a relação afetiva com as salas, mas é preciso ser racional, já que cinemas, como qualquer negócio, precisam de rentabilidade e retorno:


– Muita gente tem uma relação afetiva com o local pelo doce prazer de passar em frente e ver que a casa está aberta. Mas abraçar o cinema não é suficiente. É preciso frequentar para mantê-lo vivo. Afinal, essa é a razão de ele existir.

Texto e imagens reproduzidos do site: puc-riodigital.com.puc-rio.br

O que é necessário saber antes de projetar uma sala de cinema?




Publicado originalmente no site Filipe Arkitetos, em 02.10.2016.

O que é necessário saber antes de projetar uma sala de cinema?


Por Filipe Mendonça.


A primeira coisa que vem em mente é uma sala escura com uma mega telona e claro belas poltronas para assistir aquele ótimo filme. E claro que você caro leitor gosta de sentar nos fundos para ter uma boa visão da tela, ao invés de sentar nas primeiras fileiras e evitar sair ao final da sessão com torcicolo ou uma baita de dor na coluna.

Para evitar desconfortos para os espectadores, a regulamentação exige que a distância entre  a primeira linha de poltronas e a tela deve sempre ser maior ou igual a 60% da largura da tela.  Vejamos isso mais a frente!

Um filme concebido para o cinema é uma obra de arte, realizada para ser exibida em sala escura, com tela grande e um sistema de som dividido em canais específicos, de forma que os diversos sons do filme sejam percebidos pelo espectador, sem que haja qualquer interferência no ambiente capaz de tirar sua atenção da tela e quebrar o “pacto” estabelecido com a narrativa.(SESC, 2008, p. 6).

Primeiramente ao projetar uma sala de cinema, deve-se ter em mente um local fechado, sem nenhuma abertura ou qualquer outro elemento que permita a passagem de luz e som do exterior para seu interior. Todas as suas ligações com o exterior devem ser feitas de forma a preservar seu interior de qualquer ruído e de luz.

No projeto arquitetônico da sala deve-se levar em conta a proporção entre: a largura e o comprimento do ambiente; as dimensões do ambiente e o tamanho da tela; a distância entre a primeira fila de cadeiras e a tela; a distância entre as fileiras; a distância entre a última fileira e a tela; o posicionamento das cadeiras com relação à tela.

Conforme os acessos,  é importante que eles sejam vedados com portas maciças pois impedem que o isolamento se perca toda vez que alguém abrir a porta durante uma sessão, para entrar ou sair do auditório. Como também ocorre no acesso à sala de projeção e o exterior, para isso aplica-se o uso de antecâmaras. Cortinas não são recomendados, pois não cumprem a função de isolamento de ruídos.

Como qualquer projeto arquitetônico tem suas normas e regras, e umas delas é a necessidade de saídas de emergência amplas, conforme as normas do Corpo de Bombeiros, tais como:
Portas com trava antipânico (no mínimo, 1,20 m de largura);
Luz de emergência no auditório (a cada 15 metros) e na cabine;
Sinalização das entradas e saídas (ou com cores fortes);
Detectores de fumaça e extintores de incêndio de fácil acesso;
Corredores de circulação entre as cadeiras e as paredes;
Corrimãos nos degraus ou rampas e o espaço destinado a cadeiras de rodas;
Recomenda-se um extintor a cada 20 m;
Outras normas a ser seguidas são:
Saídas de emergência em edifícios;
Projetos e instalações de salas de projeção cinematográfica;
Acessibilidades a edificações, mobiliário,espaços e equipamentos urbanos

Definindo as dimensões do local (aproximadamente, 180m², dando preferência a uma geometria mais próxima de formato retangular do que quadrado, para acomodar a lotação mínima sugerida  de 120 lugares), saberá qual será as dimensões da tela. Pois com base nisso, teremos uma definição de uma distância máxima e de uma distância mínima entre os espectadores e a tela de projeção.

Quando houver um espaço mínimo a ser utilizado para a construção de uma sala com a lotação mínima sugerida, obriga-se a ter as seguintes dimensões:

Largura (L): 10m, permitindo a instalação das poltronas, de circulações para o público e instalação de revestimentos acústicos nas paredes laterais.

Comprimento (C): 18m, para instalação da tela de projeção com as caixas acústicas atrás dela, o espaçamento mínimo entre a tela e a primeira poltrona de projeção, das fileiras de poltronas com espaçamento mínimo recomendado entre elas e instalação da cabine de projeção.

Altura do “pé-direito”, ou altura piso-teto (H): 5m, para instalação da tela com dimensões e posicionamento adequados à sala e de um escalonamento de piso que possibilite a todos os espectadores ver totalmente a tela de projeção, sem que a cabeça do espectador a sua frente cubra parte da tela.

É importante observar que os valores acima se referem às dimensões livres, ou seja, sem considerar vigas, paredes, pilares, encanamentos ou quaisquer outros tipos de obstáculo que possam obstruir a visibilidade à tela ou o feixe de projeção.

Abaixo eu fiz um desenho esquemático em corte de como funciona em um cinema, e a seguir alguns pontos que devem ser levado em consideração. (obs,: faltou por no desenho, a altura de cada fileira de poltronas tem aprox. 0,45 m de altura, dependendo da dimensão da sala.)

Ângulo de visão:

Como dito anteriormente ao projetar uma sala de cinema, deve-se pensar no conforto do espectador e principalmente no movimentar sua cabeça para visualizar a tela, para que não seja excessivo, de modo a evitar desconforto postural. Para evitar que isto aconteça, é recomendado que:

O ângulo de visão do espectador mais próximo à tela não deve ser superior a 40º, em relação à borda superior da tela, e a 30º, em relação à metade da altura da tela. Se estes valores forem garantidos para a primeira fileira, eles estarão automaticamente garantidos para as demais.
Já o ângulo de visão horizontal entre o espectador e o centro da largura da tela deve ser inferior a 15º. Isso implica em que, muitas vezes, as fileiras de poltronas sejam dispostas em arco, voltadas para o centro da largura da tela.

Relação entre distância x largura:

“A norma da ABNT estipula que, a relação entre a distância (D) da tela de projeção até o espectador mais afastado dela, e a largura (L) da tela, não deve ser superior a 2,9 (D/L ≤ 2,9). Neste caso, como em todos os demais, a largura da tela refere-se à largura da imagem projetada no formato “Cinemascope”, no qual a proporção da imagem do filme é igual 1:2,35; ou seja, a largura da imagem é igual a 2,35 vezes a sua altura.” (SESC, 2008, p. 11).

Como dito anteriormente, a distância entre a primeira linha de poltronas e a tela deve sempre ser maior ou igual a 60% da largura da tela. (D ≥ 60 % de L)

Exemplo:
Para uma tela de 20 m de largura, a plateia tem de começar, no mínimo, a 12 m de distância dela.

Outra medida que influencia a partir do tamanho da tela de projeção é a distância entre ela e as poltronas da última fileira. Esse valor tem que ser menor que (ou igual a) o dobro da largura da tela. (D² ≤ 2.L)

Exemplo:
Se a tela tiver 20 m de largura, o encosto da última poltrona só pode estar, no máximo, a 40 m de distância.

Deve ser considerado em relação ao conforto do espectador, o espaçamento mínimo entre fileiras consecutivas de poltronas, medido de encosto de uma fileira até o encosto da próxima, ou anterior, deve ser de 1,00m. Conforme a imagem acima.

A cabine de projeção precisa ter proteção para que sua luz e som não vazem para a plateia. Geralmente, ela tem 2,20 m de profundidade e 3 m de largura e deve projetar o filme de modo que a borda inferior do feixe de luz fique sempre a 1,90 m do piso. Assim, só alguém muito alto conseguirá bloquear o filme; As poltronas têm de ser dispostas em arquibancada para que a visão da borda inferior da tela jamais seja obstruída. É o chamado escalonamento visual: a distância entre a altura dos olhos do espectador (que fica a cerca de 1,20 m do chão, quando sentado) e a cabeça da pessoa à frente deve ser de, no mínimo, 15 cm.

Há e não se esqueça do foyer, todo bom cinema precisa também onde encontraremos a bilheteria, espaço de espera com um tamanho confortável para abrigar o público, bomboniere, cafés que, apesar de possuírem um teor técnico e tecnológico menor que o das salas de cinema, são indispensáveis para uma boa experiência de qualquer cliente.

Se gostou dessa matérias continue ligado que em breve farei novas matérias de diversos assuntos. Achou algum erro? Alguma sugestão? Pode falar, sinta-se a vontade. Até a próxima.

Fontes:
http://mundoestranho.abril.com.br/cinema-e-tv/quais-as-normas-e-padroes-para-se-construir-uma-sala-de-cinema/

SESC. Gerência de Estudos e Pesquisas. Modelo da Atividade Cinema: módulo espaços e equipamentos / SESC, Gerência de Estudos e Pesquisas. — Rio de Janeiro : SESC, Departamento Nacional, 2008.

Texto reproduzido do site: filipearkitetos.wixsite.com

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Cinema ao ar livre






Cine Roxy 100% Digital

  Átila Figueiredo ao lado do projetor digital.

 A tela antiga, menor e de baixa resolução de imagem... A nova tela mais ampla e luminosa.

O público com os óculos especiais assistindo a filme produzido em 3D.

Publicado originalmente no site Foco Magazine, em março de 2012.

Bem-Vindos ao novo Cine Roxy 100% Digital Com O Gato de Botas, exibido em janeiro, o Cine Roxy inaugurou a era digital em Passos, colocando a cidade no ainda restrito circuito que utiliza a mais moderna tecnologia de projeção de filmes do mundo.

O empresário Átila Figueiredo Piassi, proprietário do Cine Roxy, vem mantendo a tradição da família Figueiredo, iniciada por seu avô José Figueiredo há mais de 70 anos, de sempre trazer para a cidade o que existe de mais atual na área de exibição cinematográfica. Nas férias de dezembro, o público pode conferir o que significa assistir um filme em 3D, que só foi possível graças à iniciativa de pular da era da película, usada há mais de um século, para o futuro com um novo conceito em cinema: “o digital”. A primeira produção exibida em Passos nesse formato foi “Gato de Botas”, animação de aventura e comédia norte-americana dirigida por Chris Miller. “A aprovação do público foi de 100% e o formato 3D é uma novidade”, comemora o empresário.

Para colocar Passos no ainda restrito circuito de cidades com salas de cinema exibidoras de filmes produzidos com a tecnologia digital, Átila Figueiredo fez um altíssimo investimento na compra do equipamento de projeção e de som, além de ter feito há pouco tempo a total renovação do Roxy. Esse projeto começou quatro anos atrás quando foram instaladas as espaçosas e confortáveis poltronas, com porta-copos, sacolas individuais de lixo, ar condicionado, bomboniere, e tudo mais que o público já conferiu.

Em julho do ano passado, o cinema de Passos já havia recebido um novo telhado com telhas termoacústicas e, com a obra definitiva, ganhou um novo forro acústico, usado nas melhores salas de cinema. Antes da reforma havia cerca de 550 poltronas, que foram reduzidas para 300, incluindo poltronas exclusivas para pessoas obesas e portadoras de deficiência física. “Reduzimos o número de poltronas quase pela metade para dar mais conforto ao público”, ressalta o empresário.

E o projeto não parou por aí. Entre novembro e dezembro, o Roxy passou pela mais nova atualização, instalando os equipamentos digitais que vêm encantando os frequentadores. Nesse período, além do forro acústico, foi feita a troca da tela de projeção, percebida por todos logo que entram na sala.

“É um grande investimento e além de Passos, toda a região tem nos prestigiado. Estou certo do retorno que teremos com o aumento do número de expectadores”, disse Átila, sempre otimista, explicando que mais pessoas passaram a ir ao cinema para conhecer a nova tecnologia e quem já conferiu se impressionou com a qualidade. Isso, porque agora, vêm e ouvem tudo que está na tela com mais clareza. “O ponto forte do digital é que acabou aquele chuvisco característico nas imagens e aquela diferença de luminosidade na tela”, observa.

O empresário se refere ao projetor informatizado, que reproduz o filme a partir de um HD (disco rígido) enviado pela distribuidora, e da nova tela de 72 m² (metros quadrados), plana, de material importado e perolizado, que resulta em maior nitidez e brilho, refletindo melhor as imagens. A antiga tela, além de menor (46 m²) e côncava, tinha problemas de luminosidade, deixando alguns pontos mais escuros, impossíveis de serem resolvidos com o sistema antigo de projeção por película.

Equipamento de primeiro mundo

Átila descreveu um pouco das marcas dos aparelhos, começando por um projetor digital importado da Bélgica, processador de som (Dolby digital) com 10.2 canais – o dobro do anterior, de 5.1canais –, lançando na sala o mais puro som, dando ao público a real sensação de estar dentro do filme; caixas de som e cornetas (JBL) e os óculos também da Dolby com lentes de cristal. “Todo esse conjunto não poderia dar em outra coisa a não ser ‘qualidade total’”, disse, ressaltando que se o expectador passense for ao melhor cinema dos Estados Unidos irá encontrar o mesmo projetor, som e tela.

O projetor digital substituiu as antigas bobinas em que os rolos de filmes em películas eram colocados para – depois de um processo totalmente manual que incluía a colagem de partes do material – serem projetados na tela. Com o HD, basta ao exibidor inseri-lo no projetor e, a partir de uma chave eletrônica que só é liberada pela distribuidora no dia em que o filme entra em cartaz, começar a projeção.

Segundo Átila Figueiredo, uma pergunta constante dos frequentadores é que quando não for 3D, como será passado o filme? O empresário responde que irá passar também os chamados filmes 2D, no mesmo projetor em digital, que reproduz nos dois formatos. “Basta um clique e a lente é ajustada para cada formato”, explica.

Essa tecnologia permite ao Cine Roxy estar nos cinemas “top’s” do mercado brasileiro, facilitando a vinda dos lançamentos nacionais e mundiais mais aguardados pelo público. É que das cerca de 2.600 salas de cinema existentes no país não chegam a 10% as que possuem projetor digital. Passos está na frente dos 90% dos cinemas do Brasil. No Sul de Minas Gerais, por exemplo, apenas Poços de Caldas tem uma sala com a mesma aparelhagem do Roxy. Cidades de maior porte e recursos financeiros, como Varginha, Pouso Alegre e Divinópolis ainda não têm cinema digital. “Passos é a primeira da região. Os cinemas mais próximos daqui com projetor 100% digital ficam em Franca e em Ribeirão Preto”, disse o empresário.

Programação de filmes

Inaugurado com o Gato de Botas, continuam sendo exibidos em Passos os filmes produzidos com a moderna tecnologia, vários deles em 3D, como o misto de ação, aventura, fantasia e ficção científica “John Carter”, da Walt Disney, que entrou em cartaz em 9 de março.

O aguardado blockbuster Titanic (de James Cameron), que foi convertido para 3D, terá estreia mundial em Passos no dia 6 de abril, mês do centenário do naufrágio do famoso transatlântico. Depois, nos próximos meses, segue uma lista de títulos como “Madagascar 3”, “A Era do Gelo 4”, “O Espetacular Homem Aranha”, o final da série Crespúsculo, “Amanhecer – Parte 2”, dentre outros.

Uma curiosidade sobre os óculos 3D: o cinema apenas os empresta aos expectadores para as sessões de filmes com aquele formato. Depois, os mesmos têm que ser devolvidos para serem lavados, esterilizados e embalados, antes de serem entregues novamente para o público.

Segundo o empresário, o Cine Roxy sempre trouxe para Passos os principais lançamentos e, agora na era digital, passará a lançar muito mais. Átila acredita que os moradores de Passos e região estão orgulhosos por terem um cinema 3D, seguindo a trajetória iniciada por José Figueiredo nos anos 40. “É uma tradição da família, está no sangue. É fazer o que gosta”, disse.

Texto e imagens reproduzidos do site: focomagazine.com.br