sábado, 18 de agosto de 2018

Cinema Olympia, 106 anos de fundação (Pará - Belém)

 No Olympia, o público pode aproveitar a sessão de cinema nas 
434 poltronas na cor vermelha do espaço.


 “O Cine Olympia foi amor e paixão à primeira vista, desde criança”, 
relembra o professor Elias Neves Gonçalves.

 Com estilo eclético, o Cine Olympia passou por uma grande reforma 
em maio de 1960, comandada pelo arquiteto paraense Ruy Meira.





Publicado originalmente no site da Agência Belém, em 24/04/2018

Exibição do filme com Rodolfo Valentino celebra os 106 anos de fundação do Cinema Olympia
         
Em 25 de abril de 2002, foi iniciado o processo de tombamento do Olympia.

O cinema de rua mais antigo do estado do Pará e do Brasil, que continua ainda em funcionamento no mesmo lugar de origem, o Cinema Olympia, completa 106 anos de fundação, nesta terça-feira, 24.

Administrado pela Prefeitura de Belém (PMB), por meio da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), desde 2006, o Cine Olympia celebra a data com o público cinéfilo da capital paraense, proporcionando uma programação bem especial. Nesta terça, às 18h30, haverá mais uma edição do tradicional projeto Cinema e Música, daquele espaço, que consiste na exibição de um filme silencioso, com acompanhamento musical, ao vivo, do pianista Paulo José Campos de Melo. A entrada é franca e tem apoio da Fundação Carlos Gomes.

O filme escolhido é “A Dama das Camélias”, produção de 1921, com 72 minutos de duração, dirigido por Ray C. Smallwood, mostra a cortesã Marguerite Gautier (Alla Nazimova), que se apaixona profundamente por um jovem promissor, Armand Duval (Rodolfo Valentino). Quando o pai do rapaz, Gaston Rieux (Rex Cherryman), implora à moça para que não se case com o filho, arruinando assim seu futuro e a esperança de uma carreira, ela consente e deixa seu amante. No entanto, quando a pobreza e a doença terminal a dominam, Marguerite descobre que Armand não perdeu o seu grande amor por ela.

História - Com influências da arquitetura art déco e da Belle Époque, o Olympia foi inaugurado no dia 24 de abril de 1912, durante o governo do intendente Antônio Lemos, pelos empresários Carlos Teixeira e Antônio Martins, donos do Grande Hotel (hoje, hotel Princesa Louçã, e antes, Hilton) e do Palace Theatre.

Com estilo eclético, o Cine Olympia passou por uma grande reforma em maio de 1960, comandada pelo arquiteto paraense Ruy Meira, que na época buscou inserir aspectos modernos no prédio. Em 25 de abril de 2002, foi iniciado o processo de tombamento do Olympia. A partir dessa iniciativa, a sala passou a ser considerada mais um patrimônio histórico e material da cidade de Belém, inserida no entorno do complexo da Praça da República.

É o cinema mais antigo em funcionamento no Brasil, considerando que sempre esteve no mesmo lugar e não parou as suas atividades por muito tempo. Com inúmeras dificuldades econômicas e administrativas, o grupo Severiano Ribeiro, que o administrava, quase fechou as portas do cinema em 2006.

Atendendo aos apelos da sociedade e artistas belemenses, a PMB assinou contrato de locação com o proprietário da casa, e o local foi reaberto como espaço cultural, desde então. Atualmente, é palco de festivais de filmes e exibição de clássicos do cinema mundial, em programações gratuitas ao público.

Lembranças - Todos os que amam a Sétima Arte em Belém têm uma história especial com o Cine Olympia e lembranças de bons momentos vividos naquele cinema, em suas 434 poltronas na cor vermelha.

O cinéfilo “de carteirinha” e administrador do grupo Cinema na rede social Facebook, Nelson Johnston, se lembra que o primeiro filme que viu no Cinema Olympia foi o desenho os estúdios Disney, “A Espada Era a Lei”. “No labirinto da memória, de forma imprecisa, recordo da imagem de uma prima e seu convite para ver ‘A Espada era a Lei’, ao mesmo tempo, imagens de ‘A Noviça Rebelde’ e vários filmes de Elvis Presley, e assim foram meus primeiros contatos com o Cinema Olympia”, conta Nelson.

“O que mais me sensibilizou também foram as matinais de domingo. Era um frequentador assíduo, e foi numa daquelas sessões que conheci ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, o filme da minha vida. Daí em diante, surgem hiatos de lembrança que me lançam para o ‘Teorema’, do Pasolini; ‘Romeu e Julieta, de Zeffirelli, este, numa sessão tão lotada, que fiquei na fila do gargarejo, mas aliviado, pois pensei que iria ser barrado na entrada por não ser maior de 14 anos”, prossegue.

“E também me vejo com toda a família, meu saudoso pai já falecido, minha mãe e irmã, na sessão de ‘E.T. - O Extraterrestre’ e com meu primeiro amor nas sessões de filmes liberados pela censura, ‘Decameron’ e ‘Saló: os 120 dias de Sodoma’, além das minhas primeiras sessões de ‘Império dos Sentidos’, ‘Laranja Mecânica’, naquela cópia com bolinhas da censura; ‘Nascido para Matar, ‘De Olhos Bem Fechados’, ‘Titanic’, e muitos outros filmes. Quero dizer parabéns ao Olympia e muito obrigado por tantos momentos felizes", encerrou.

“O Cine Olympia foi amor e paixão à primeira vista, desde criança”, relembra o professor Elias Neves Gonçalves. “Eu não podia ir sozinho ao cinema até que um dia, aos 11 anos de idade, minha irmã me levou para assistir ao ‘E.T. - O Extraterrestre’, de Steven Spielberg. Sessão lotada. Pura magia e vibração. Foi minha ‘primeira-comunhão’ com o nosso templo da Sétima Arte, em Belém”, conta.

“Depois, foram tantos outros filmes maravilhosos. A fila na bilheteria, a bombonière, o cheiro da pipoca no ar, as poltronas vermelhas, a luz do projetor saindo da janela na parede de fundo, enfim, detalhes que se misturavam ao sonho assistido no telão do Olympia. Pura imersão de emoção e arte”, enfatiza Elias.

“Esse cinema foi e será uma escola para a cinefilia paraense. Uma referência da cultura cinematográfica e que não pode jamais ser apagado da história da nossa Belém. Vida longa ao Cinema Olympia nestes 106 anos de existência”, complementa o professor.

Relação paternal - Para o jornalista e cinéfilo, Alessandro Baía, o Cinema Olympia sempre fará parte da memória de qualquer apreciador de cinema na capital. “Foi no Cine Olympia que assisti ao meu primeiro filme com meu pai, em 1988, e assistimos juntos ‘O Milagre Veio do Espaço’. Foi e sempre será inesquecível. A magia do cinema dividida com o ente querido mais importante é para fincar na memória e na alma. Além deste momento, o Olympia me proporcionou conhecer outros grandes filmes que, hoje, são de cabeceira como ‘Sociedade dos Poetas Mortos’, ‘A Insustentável Leveza do Ser’, ‘De Volta Para o Futuro II’ e tantos outros. A nossa cinefilia agradece pelo amor à Sétima Arte que esse cinema centenário ajudou a fortificar. É como o amor de um pai pelo filho: eterno", reforça Alessandro.

Detalhes - O Olympia não é apenas uma sala de cinema, mas um local com pequenos detalhes curiosos que saltam aos olhos. Por exemplo, na parte de trás da sala, ao lado na sala de projeção, no segundo piso, existe um pequeno apartamento, que, provavelmente, era utilizado por algum funcionário da casa.

Como em outras salas de cinema, o Olympia também tem o seu departamento de “achados e perdidos”. Na centenária casa, chama à atenção a quantidade de apenas um dos lados de brincos que foram perdidos ao longo dos anos. Estão todos guardados esperando a(o)s dona(o)s. “Guardamos tudo o que encontramos dentro da sala de exibição. Algumas pessoas voltam a procurar os objetos perdidos, outras não. Mas o que mais me intriga é uma dentadura achada, mas que nunca foi reclamada”, conta Marco Antônio Moreira, programador do Cinema Olympia. 

Projetos - O Cinema Olympia, além da programação de terça-feira a domingo, mantém projetos de exibição voltados à comunidade, como o “A Escola Vai ao Cinema", no qual instituições de ensino da rede pública ou privada, em parceria com a PMB, levam grupos de alunos à sala de projeção, com o objetivo de formar público para esse tipo de produção.

O “A Escola Vai ao Cinema" tem também a parte de itinerância que leva projeções de cinema às escolas municipais mais distante, como as localizadas na ilha do Combu e também em Icoaraci.

Para o presidente da Fumbel, Fábio Atanásio, manter um cinema centenário, como o Olympia, é de suma importância para a cidade. “A tradição dos cinemas de rua está se perdendo, mas o Olympia vai continuar a ser essa grande sala, não só pela sua importância histórica, mas também por ser o retrato vivo de uma época das mais importantes para a capital do Pará, como foi a Belle Époque”, disse o Atanásio.

Encontro - Ainda nas celebrações pelos 106 anos do Cine Olympia, a programação prevê no dia 4 de maio, às 18 horas, a realização do “Encontro de Audiovisual em Comemoração aos 106 anos do Cinema Olympia”, com debates sobre a produção crítica e fílmica do cinema paraense.

Os convidados são Ângela Gomes e Ana Lúcia Lobato, professoras do curso de Cinema da Universidade Federal do Pará (UFPA); Zienhe Castro, produtora cinematográfica paraense, diretora do curta metragem “Promessa em Azul e Branco”; Cássio Tavernard, produtor cinematográfico, diretor da animação “A Onda - Festa na Pororoca”; e Marco Antônio Moreira, crítico de cinema e presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Haverá entrega de certificados aos participantes. Vale ressaltar que o acesso é gratuito.

Serviço:

Programação de aniversário de 106 anos do Cinema Olympia, nesta terça-feira, 24, às 18h30, no projeto Cinema e Música, exibição do filme mudo “A Dama da Camélias”, com acompanhamento musical, ao vivo, do pianista Paulo José Campos de Melo. Apoio da Fundação Carlos Gomes. Entrada franca.

Por Dedé Mesquita (Fotos: Fernando Sette)

Texto e imagens reproduzidos do site: agenciabelem.com.br

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Ascensão e glória dos cinemas Metro

Salão do Metro-Passeio, dando uma idéia da largura do palco original, já com a tela de CinemaScope instalada. A foto foi tirada do mezanino do cinema, 
dando uma idéia da largura do auditório.

Texto publicado originalmente no site webinsider

Ascensão e glória dos cinemas Metro

Por Paulo Roberto Elias (colaboração de Ivo Raposo)

A gente hoje vai a um cinema multiplex, salas bem projetadas, todas computadorizadas, e parece que tudo anda bem, até que alguma coisa dá errado. Uma vez, eu estava na plateia de um deles, quando o filme se partiu, e só depois de uns vinte minutos mais ou menos, já com o gerente pedindo paciência às pessoas, é que tudo voltou ao normal.

Para quem era frequentador dos antigos palácios, a ida aos multiplex evoca uma mistura de sentimentos: as salas atuais são “frias”, não só pelo exagero do ar condicionado, como também pela ausência do clima e do ambiente que fizeram das grandes salas do passado o seu principal atrativo.

Além disso, alguns dos antigos palácios eram não só construções magníficas, como também eram operadas por técnicos cuja competência iria garantir o bom andamento das sessões, por anos a fio. E foi dentro deste escopo que os cinemas construídos pela M-G-M se notabilizaram por décadas, sem falhas na projeção ou no som, até que eles encerrassem suas portas em definitivo. Um resumo desta história é mostrado a seguir.

As salas de exibição da Metro

Não há quem tenha entrado pela primeira vez num dos antigos cinemas Metro e não tenha ficado surpreso com a qualidade técnica e com o ambiente de alto nível, do hall de entrada até a saída. E, no entanto, eram cinemas populares, no sentido de quem ninguém pagava mais caro pelo ingresso, para ter acesso às suas dependências. Certamente muito mais acessíveis ao bolso do que os multiplex de hoje, e ainda assim eles ganhavam em superioridade em todos os quesitos.

Muitos estúdios norte-americanos que por aqui marcaram presença não repetiriam a façanha de criar a sua própria cadeia de cinemas, como o fizeram nos Estados Unidos. Ao invés disso, preferiram criar parcerias com os exibidores locais, e no caso específico da M-G-M, esta parceria se concretizou inicialmente com o exibidor Severiano Ribeiro, no Rio de Janeiro. Ou ainda, como no caso paulista, onde o estúdio arrendou vários cinemas, a partir do fim da década de 1920.

Mas, isso aconteceu até o momento em que a empresa controladora do estúdio, Loew’s Inc., começou a construir cinemas no mundo todo, para escoar a grande produção de filmes da M-G-M. Em Nova York, o arquiteto escocês Thomas White Lamb já havia tomado a iniciativa de construir grandes palácios para projeção dos filmes da Loew’s, mas no Brasil a construção dos cinemas Metro ficou por conta dos escritórios de Robert R. Prentice e do engenheiro arquiteto e urbanista Adalberto Szilard.

Para se ter uma ideia hoje do trabalho de Szilard, basta ver a arquitetura arrojada do prédio da Central do Brasil, construído em 1937, no Rio de Janeiro, com o seu enorme relógio, que foi tema até de letras de música popular.

A contrapartida e a excelência do estúdio

A Metro-Goldwyn-Mayer foi dirigida com mão de ferro por Louis B. Mayer, durante muitos anos, até que, em 1951, o homem forte da Loew’s, Nicholas Schenck, que controlava o estúdio, demitiu L. B. Mayer, depois de uma disputa pessoal de poder entre ambos, e entregou a chefia da M-G-M para Dore Schary.

Ao contrário de Mayer, Schary era muito mais um escritor e cineasta, do que administrador. Mesmo assim, o estúdio continuou durante anos com um formato de produção capaz de colocar na tela filmes de alta qualidade.

O que tornou a M-G-M um estúdio singular foi o fato de a grande maioria dos filmes seguia códigos de produção, impostos por Mayer, que impediam que mesmo os projetos mais baratos ou menos importantes não tivessem o melhor acabamento possível.

O estúdio era dividido em departamentos e estes em unidades. Tinha também um dos melhores locais para a gravação de trilhas sonoras (usado até hoje por gravadoras de audiófilos em alguns projetos), e uma coleção invejável de músicos, compositores e arranjadores.

O estúdio não tinha medo de experimentar novos formatos, e foi assim que a Metro realizou filmes em CinemaScope (formato da Fox), VistaVision (formato da Paramount), Cinerama e no final Super Panavision 70, usado para o Cinerama 70 mm ou Super Cinerama. Não produziu, mas exibiu filmes em 70 mm pelo processo em Dimensão 150, similar ao Cinerama 70.

Quando a produção em bitolas largas ainda era incipiente, a Metro desenvolveu o processo Camera 65, para negativo 65 mm, capaz de ser convertido para cópias de distribuição 35 mm, em vários aspectos de tela diferentes. Através deste processo, a MGM filmou “Raintree County”, em 1957, e “Ben-Hur” em 1959, o segundo dos quais foi depois re-lançado em 70 mm em alguns cinemas. Ambos os filmes foram distribuídos e exibidos em CinemaScope, para atender à maioria dos exibidores da época.

O estúdio foi também um dos poucos que abraçou o som estereofônico, num estágio bem precoce de produção, circa 1938. Em muitos casos, quando ainda nem o som estéreo nem a alta fidelidade eram processos técnica e comercialmente estabelecidos, as gravações eram feitas em pistas separadas, óticas se necessário, o que ajudou posteriormente os preservacionistas no trabalho de recuperação do áudio original dos filmes antigos do estúdio e até mesmo recriar trilhas sonoras inteiras.

A Metro usou tanto o som estereofônico de 4 canais do CinemaScope (3 canais na tela e 1 surround mono), quanto o processo Perspecta. Este último era um pseudo-estéreo, derivado do som mono ótico dos filmes, e controlado por tons inaudíveis inseridos na trilha, que faziam a troca momentânea e direcional em três canais atrás da tela.

A construção dos cinemas no Brasil

O primeiro Metro a ser erguido foi o Metro-Passeio, situado na Rua do Passeio 62, no Centro do Rio de Janeiro. A sala foi inaugurada em 1936, com 1821 lugares, tendo passado para 1481 poltronas posteriormente. O Metro-Passeio foi também a primeira sala de grande porte dotada de ar condicionado, chamado pela empresa de “ar de montanha”, num pequeno outdoor na porta de entrada. O edifício e a decoração interna foi toda feita em art déco, com motivos decorativos que iriam influenciar a construção de muitas salas de exibidores concorrentes.

A seguir, Prentice e colaboradores construíram e inauguraram em São Paulo, um cinema Metro, com formato e decoração idênticos ao Metro-Passeio. A sala abriu em 1938, localizada na Avenida São João 791, centro da cidade.

O ano de 1941 veria o aparecimento dos cinemas Metro-Copacabana e Metro-Tijuca, localizados em regiões que iriam abrigar o maior número de cinemas de bairro.

O Metro-Tijuca foi inaugurado em 10/10/1941, obra de Adalberto Szilard, com 1785 lugares, enquanto que o Metro-Copacabana, abriria em 05/11/1941, com 1708 lugares. O primeiro estava localizado na Praça Saens Peña, mais especificamente na Rua Conde de Bonfim 366, e o segundo, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana 749.

Os detalhes das instalações

As semelhanças arquitetônicas entre os vários cinemas Metro chegam a ser impressionantes. Todos os cuidados foram tomados, no sentido de fornecer ao espectador o maior conforto e o melhor desempenho técnico possível.

Um dos detalhes que mais fascinam, fora as linhas verticais do design art déco, é a instalação do ar condicionado: as saídas para a platéia foram colocadas de forma discreta, bem atrás da decoração do cinema, e as saídas de escape do ar colocadas embaixo das poltronas, sem que o espectador percebesse.

Coincidente com o ano de inauguração do Metro-Passeio foi a introdução do sistema de alto-falantes conhecido como “Shearer Horn”. Até então, as caixas acústicas colocadas atrás da tela tinham pouca ou quase nenhuma fidelidade. Douglas Shearer, do departamento de som da M-G-M, uniu-se ao laboratório da Bell Telephone, para fazer um projeto de pesquisa, com o objetivo de melhorar a reprodução de som nos cinemas. Shearer não hesitou em financiar o projeto, que foi encabeçado pelo engenheiro John Williard, da Western Electric.

O novo design, cujo protótipo ficou pronto em 1935, foi colocado em produção, para instalação nos cinemas da Loew’s Inc. e da Metro.

O protótipo do Shearer Horn consistia de quatro alto falantes Lansing (depois JBL), de baixa freqüência (woofers), modelo 15XS, dentro de um sistema de cornetas. O design sofre modificações, para um modelo contendo dois woofers, e em cima da caixa, uma corneta multicelular, de alta dispersão e eficiência para médios e agudos. O corte entre o woofer e esta corneta fica em 500 Hz. A caixa responde entre 40 Hz a 10 kHz, a ± 2 dB, o que era suficiente para a qualidade de som gravado na época.

A introdução do Shearer Horn (acima) obriga o refinamento do processo de gravação e reprodução do som nos filmes, que era o que a M-G-M queria. O sistema originalmente ligado a ele foi o Mirrophonic, da Western Eletric: trata-se de um dos primeiros processos de gravação ótica na película 35mm. O Mirrorphonic foi então inicialmente introduzido nos cinemas Metro.

Os cinemas abrem com projetores Super Simplex, largamente produzidos na década de 1930, mas a partir de 1937 os primeiros Simplex modelo E-7 começam a ser testados nas cadeias de cinemas da Loew’s Inc., nos Estados Unidos. Com isso, os cinemas Metro trocam os Super Simplex por Simplex E-7.

Os padrões de reprodução de som mudam drasticamente, de banda ótica mono nos filmes, para 4 canais de banda magnética em som estereofônico, no processo de tela larga CinemaScope. Os cinemas Metro foram construídos de tal forma que a adaptação das telas para filmes deste tipo foi facilmente conseguida. Na prática, isto significou alterar a relação de aspecto das mesmas do formato de academia (1.33:1) para 2.55:1, mantendo o palco original e o proscênio dos cinemas:

Inicialmente, são instalados sistemas Perspecta, que consistia em um falso som estereofônico, derivado da banda ótica mono, com três canais na tela, como anteriormente descrito. Eventualmente, os projetores Simplex E-7 são então dotados de leitora magnética Western Electric modelo R-10, para CinemaScope:

Em 1957, os Simplex E-7 são trocados por modelos X-L, também dotados de leitora magnética. As caixas antigas, inadequadas para o som de alta fidelidade obtido na gravação de banda magnética são substituídas por sistemas Altec Lansing Voice of the Theater, modelo A1, na forma de três unidades atrás da tela:

Segundo colecionadores, várias dessas caixas foram achadas quando o Metro-Passeio foi demolido, para a construção do Metro-Boavista. A excelência de reprodução do som dos cinemas é devida também à engenhosidade do design arquitetônico. A este respeito, é admirável o controle da dispersão do som no ambiente aberto, sem qualquer tipo de reverberação, que impedisse a inteligibilidade do som emitido. A reprodução correta de graves e de agudos, difícil de ser obtida em lugar tão amplo, tornou os cinemas Metro um símbolo da qualidade de som e projeção em toda a sua existência.

As cabines de projeção dos cinemas Metro do Rio de Janeiro contavam com dois operadores, para os três projetores Simplex instalados. O de São Paulo contava com seis técnicos e mais um gerente americano, segundo depoimento de um desses operadores, ao livro de Inimá Simões e colaboradores (“Salas de Cinema de São Paulo”, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, 1990, pp. 46-47).

O sistema de projeção dos cinemas Metro no Rio de Janeiro era constantemente inspecionado e calibrado pelo engenheiro Elia Bessos. Os projetores usavam lanternas Ashcraft Super Cinex, dotadas de arco voltaico, com bastões de carvão condutor (eletródios), alimentados com 120 amperes de corrente elétrica. Com isso, a projeção tinha um brilho e uma nitidez na imagem difícil de ser encontrada nos melhores cinemas da concorrência. A lanterna mantém ainda um sistema de auto-regulagem, impedindo que a intensidade da luz caísse durante a projeção:

Em todos os anos de funcionamento, eu nunca vi um sistema desses falhar e a sessão ser interrompida. Mesmo durante a grande enchente de 1966, que deixou o Rio de Janeiro com racionamento de energia, o Metro usava geradores com break automático, para garantir que a qualidade da projeção não fosse prejudicada.

Nos cinemas da Metro todos os detalhes foram planejados com antecedência, incluindo a limpeza e a conservação, o uniforme e a educação de todos os funcionários, até o conforto das salas de espera e das salas de projeção.

O fim do Studio system e a venda dos cinemas a terceiros

Em 1949, o governo americano deu ordens aos cinco principais estúdios de cinema de Hollywood para se desfazerem de suas cadeias exibidoras. A M-G-M e a sua proprietária, Loew’s Inc., resistiram a esta entrega, até meados de 1957. Por volta desta época, a própria M-G-M já havia sofrido enormemente com baques financeiros, tendo desativado vários de seus departamentos.

A retirada de propriedade dos cinemas pelos estúdios foi um duro golpe na produção de filmes. Idealmente, o cinema sobrevive às custas do trinômio produção – distribuição – exibição (exclusiva, de preferência). Cortando a garantia de exibição, as receitas de bilheteria caíram significativamente. Apesar disso, a Metro ainda iria lançar “Gigi”, seu último e luxuoso musical, em 1958. O filme quase não termina, por causa de dificuldades financeiras e de edição do material fotografado, mas depois de lançado ainda teve tempo para ser o recipiente de nove estatuetas Oscar e três Globos de Ouro. O filme marcou o fim da lendária unidade Arthur Freed, de produção de musicais do estúdio. Fechou com chave de ouro, e este filme vale a pena ser visto agora, na sua nova edição em Blu-Ray, completamente restaurado, para quem ainda não viu!

O fechamento dos cinemas no Brasil

Por incrível que pareça, a lei americana não atingiu a cadeia de cinemas Metro no Brasil, ao contrário. Nas décadas de 1950 e 60, os cinemas veriam crescer o seu público, com a mesma qualidade com que foram lançados anos antes. E todos eles continuaram projetando filmes M-G-M exclusivamente, fora algumas produções nacionais obrigatórias.

Apenas o Metro-Passeio foi demolido, para dar lugar ao Metro-Boavista, um dos mais luxuosos e modernos cinemas da cidade. O Metro-Passeio funcionou até 14/10/1964 e o Metro- Boavista começou a funcionar em 21/01/1969. Neste, foi instalado um sistema de 70 mm, dotado de projeção pelo processo Dimensão 150, com tela curva e com som estereofônico de 6 canais. O Metro-Boavista ainda manteve um dos seus Simplex X-L, para 35 mm, ao lado dos modernos Cinemeccanica Victoria V-8, para 35 e 70 mm.

O Metro-Boavista nunca foi demolido. As poltronas e projetores foram retirados, mas a tela e o restante do cinema continua por lá, esperando uma solução qualquer, que nunca aparece.

Menos sorte tiveram os outros cinemas Metro: os Metro-Tijuca e Metro-Copacabana foram demolidos a partir de 26/01/1977, enquanto que o Metro de São Paulo não chegou a ser destruído totalmente, mas o seu interior foi completamente modificado e depois dividido em duas salas, inicialmente Metro 1 e Metro 2, e que depois viraram Metro e Paissandú, até fecharem e se tornarem igreja evangélica.

Antes de fecharem totalmente, os cinemas ainda foram administrados pela Cinema International Corporation (CIC), mas exibindo filmes de outros estúdios, particularmente os da Universal Pictures.

A réplica do Metro-Tijuca em Conservatória

O advogado Ivo Raposo, desde menino, conheceu todas as cabines de cinema localizadas na área da Praça Saens Peña, na Tijuca, Rio de Janeiro. Foi também, ainda muito jovem, operador dos cinemas Santo Afonso e Bruni Saens Peña. Depois que o Metro-Tijuca fechou e começou a ser demolido, Ivo iniciou uma cruzada junto ao curador da massa falida dos cinemas, e depois de muita luta conseguiu que uma parte do material decorativo, projetores e um monte de outros pertences, fossem a ele doados. Se não tivesse feito isso, todo este material teria tido o destino de algum ferro-velho e a memória do cinema completamente apagada.

Parte desta história é contada aos visitantes da réplica por ele construída, na cidade de Conservatória, estado do Rio de Janeiro. Uma massa significativa de seus visitantes se emociona ao ver a fachada intacta do cinema, o seu interior, e principalmente trechos de filmes do estúdio.

Entre os seus últimos visitantes ilustres, estava João Szilard, filho de Adalberto Szilard, que construiu o cinema. Nós tivemos chance de conhecê-lo e de saber de parte da trajetória do pai. Adalberto Szilard, apesar de ser colaborador de Prentice, ficou com toda a responsabilidade do Metro-Tijuca nas mãos, e se alguma comparação pudesse ser feita, nós diríamos, sem nenhum bairrismo, que o Metro-Tijuca foi sem dúvida o melhor e o mais imponente de todos os Metros.
  
Ivo fez questão de construir a sua cabine usando todos os projetores originais do Metro, recuperados em etapas. Com a modernização dos atuais sistemas, ele teve que fazer algumas modificações na lanterna (já que ninguém mais usa arco voltaico) para lâmpadas de Xenon e instalar Dolby SR, para a parte do áudio, já que praticamente nenhuma cópia com som magnético continua em circulação.

Eu, que já testemunhei o (mal) aproveitamento de projetores dos grandes cinemas (inclusive os V-8 do Metro) usado em outras instalações, posso atestar o zelo e o respeito com que Ivo recuperou e mantém os seus projetores na réplica.

Quem vai a uma das sessões do Metro em Conservatória assiste o mesmo ritual que nos encantava nos cinemas da época: ouve-se o gongo, anunciando o início da sessão, apagam-se as luzes lentamente, a cortina se abre com a projeção do jornal da tela, com direito ao slide do boletim da censura, que marcava o começo de todas as sessões de antigamente.

Texto e imagem reproduzidos do site: https://bit.ly/2nGXX69

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Centro Cultural "Nilson Prado Telles", em Dois Córregos/SP.



Documentário “Cine São Paulo”, conta a história do Seu Francisco

Francisco Telles quer fazer velho cinema voltar a funcionar

(...) Dirigido por Ricardo Martensen e Felipe Tomazelli, o documentário “Cine São Paulo” conta a história do personagem Francisco Telles que, desde 1940, quando seu pai comprou um cinema na cidade de Dois Córregos, teve sua vida definida por esse lugar.

A sala, que já teve diversos nomes, mortes e ressurreições, é o símbolo vivo da passagem do projetor a carvão ao digital, da resistência diante da TV e do videocassete e também da memória afetiva da cidade. O espaço, que passou recentemente por revitalização, está localizado no Centro Cultural Nilson Prado Telles, tem 107 anos e capacidade para 380 pessoas sentadas.

Atualmente o cinema de Dois Córregos tem autorização para exibir filmes que estão fora do circuito comercial. Em suas telas, no entanto, já passaram longas como “O Homem que Sabia Demais”, de Alfred Hitchcock, “Superman”, de Richard Donner, e “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles.

O documentário produzido pela produtora Trilha Mídia mostra que o edifício, bastante deteriorado, precisa ser restaurado e Chico – como o personagem é conhecido – tem a obsessão de fazer o velho cinema voltar a funcionar (...)

Trecho de artigo e imagem reproduzidos do site: comerciodojahu.com.br

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Cine Paradiso em Dois Córregos

Ricardo Santana

“Vai ter desenho hoje?”, pergunta Guilherme Henrique Apolinário, 7 anos, à Daniele Soffner, coordenadora do Centro Cultural “Nilson Prado Telles”, mantido pela Prefeitura de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru). O entusiasmado garoto queria dela a confirmação para programar sua tarde de diversão assistindo à exibição de um desenho animado no espaço cultural, na última quinta-feira.

Hoje, dia em que a indústria cinematográfica e espectadores mundo afora param para consagrar as estrelas do cinema mundial com a entrega do Oscar, o JC volta suas lentes para revelar o impacto do cinema na vida dos moradores de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru).

Guilherme integra uma legião de pessoas na cidade que vivenciam cultura. A produção audiovisual encontra em seo Chico Telles um apaixonado. Francisco Augusto Prado Telles, 68 anos, mantém viva a magia do cinema ao exibir filmes no formato 35 milímetros no antigo Cine São Paulo, atualmente Centro Cultural “Nilson Prado Telles”.

A paixão pela arte da tela grande em Dois Córregos carrega para frente da telona gerações. Muitas pessoas tiveram o primeiro contato com a arte cinematográfica, espetáculos de teatro e ópera no prédio na avenida Dom Pedro I. Guilherme se empolga ao citar “Tá Dando Onda”, animação protagonizada por pinguins. Daniele relembra que na sua primeira vez assistiu “A Família Addams”, durante uma divertida sessão com a turma da escola. O poeta José Carlos Mendes Brandão define como preciosidade a preservação do maquinário de projeção por Chico Telles.

O centro cultural também colabora para o aumento de público no tradicional Bar do Estudante, do casal Mário e Ofélia, que produz os lanches mixto quente e lombo.

Nas próximas páginas, o JC Regional retrata a magia que o cinema provoca, conta um pouco da história de pessoas apaixonadas pela sétima arte e sua integração com o novo, que resulta na preservação do patrimônio cultural de uma comunidade.

Tudo isso se passa no Centro Cultural “Nilson Prado Telles”, localizado na avenida D. Pedro I, nº 302, centro de Dois Córregos. Telefone (14) 3652-6441. 

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Cine é paixão

Depois da primeira vez, as pessoas querem repetir a experiência de arrebatamento na frente da telona

Quando seo Chico Telles tinha a idade de Guilherme Henrique Apolinário, 7 anos, frequentador do cinema em Dois Córregos, seu pai Nilson Prado Telles já era dono do Cine São Paulo. Por volta de 11 a 12 anos, o menino Chico Telles ganhou porte físico suficiente para manipular as engrenagens dos dois projetores Triumpho, funcionando a todo vapor ainda hoje. A luminosidade é produzida por uma lanterna feita a carvão. Nos projetores de hoje a leitura do som é feita por feixe de laser projetado diretamente na trilha sonora impressa na película de 35mm.

Chico Telles promove sessões mensais no formato 35 milímetros. A Prefeitura de Dois Córregos aluga os filmes e paga as taxas aos órgãos fiscalizadores dos direitos. Seo Chico Telles e Daniele Soffner, coordenadora do Centro Cultural “Nilson Prado Telles”, escolhem as atrações. A exibição geralmente recai para um título blockbuster que já fez sucesso no circuito de salas de shoppings mas ainda atraem pessoas apaixonadas pelo formato telona e som arrebatador. O ingresso é simbólico. A pipoca é sagrada. Ninguém se incomoda com as 400 poltronas de madeira fabricadas pela FANA, empresa que existiu em Dois Córregos. Os assentos foram instalados em 1948, ano em que seo Nilson Telles promoveu uma modernização do espaço do cinema. Modificou a entrada principal com a instalação de duas portas sanfonadas, construiu a marquise e o assoalho de madeira ganhou inclinação. O prédio foi construído em 1910.

Nas sessões mensais, Chico Telles é acompanhado pelo neto e por outros familiares. A cabine de comando de projeção é minúscula. Porém a emoção supera qualquer contratempo. Ele comenta que deseja que o neto prossiga com a tradição da sétima arte que ele cultiva desde garoto.

Para tanto, planeja que o rapaz digitalize as cópias de película do seu acervo. Isso significa que neto e avô ainda assistirão muitos filmes juntos.

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Lembranças do cinema em Dois Córregos

Por José Carlos Brandão

Sempre me lembro de um fato surpreendente. A primeira sessão de cinema em Dois Córregos foi em 25 de setembro de 1902. Veja: a primeira sessão de cinema da história foi em 28 de dezembro de 1895. No Brasil, em 1898. Como chegou em tão pouco tempo a uma cidadezinha perdida, sem importância nenhuma? Correção: Dois Córregos era uma cidade muito rica, nos tempos áureos do café, até a queda da bolsa em Nova York, em 1929. Haveria condições para trazer, tão prioritariamente, o cinema a Dois Córregos.

Lenda ou não, é verdade que o cinema se tornou um fenômeno central na vida da cidade. O cinema não é a fábrica dos sonhos? Eu morava na roça, bem distante da cidade, só o cinema poderia me proporcionar tantos sonhos. Havia os filmes de aventura, os grandes épicos e filmes ingênuos que agradavam grandes e pequenos. Antes dos filmes havia um seriado que sempre terminava com o mocinho ou a mocinha em perigo extremo. Assim, não importava qual o filme principal, sempre havia aquela história cheia de perigos e um herói que era preciso salvar.

Eu me admiro de ter visto no Cine São Paulo, de Dois Córregos, “M - o Vampiro de Dusseldorf”, uma das principais obras do Expressionismo Alemão, uma das obras primas de Fritz Lang, de 1931. Uma raridade, projetada no cineminha de Dois Córregos. Eu já era universitário, sabia o que estava vendo. Pouco depois foi fundado o cineclube do BTC, aqui em Bauru, onde pude ver muitos filmes de arte, mas já vira um dos maiores desses filmes na minha pequena Dois Córregos.

Vou concluir com um fato pitoresco. Em 1954 foi o centenário de Dois Córregos e fizeram um filme para documentar as comemorações. Eu tinha umas tias que só saíam de casa para ir à igreja, mas no dia do aniversário da cidade, 4 de fevereiro, iam ao cinema ver o filme do centenário. Uma delas aparecia na fita, e era como se eu as ouvisse exclamar: “Olha ela lá!” Terminado o documentário, sem esperar pelo filme do dia, saíam de cabeça baixa, mas muito felizes. 

* José Carlos Brandão é poeta, membro da Academia Bauruense de Letras
e nascido em Dois Córregos

Textos reproduzidos do site: jcnet.com.br

"Vocês têm uma ótima história para contar!"

Imagem reproduzida do YouTube

Texto publicado originalmente no site Comercio do Jahu, em 30/04/2017

"Vocês têm uma ótima história para contar!"

Foi com essa frase que Seu Chico motivou cineastas de São Paulo a retratarem a história do cinema de Dois Córregos

Por Natália Gatto Pracucho

Desde 1940, quando seu pai comprou um cinema na cidade de Dois Córregos, a vida de Francisco Telles passou a ser dedicada a esse lugar. Esse é o mote de “Cine São Paulo”, documentário dos diretores Ricardo Martensen e Felipe Tomazelli que resgata as memórias do personagem, o Seu Chico, da própria cidade Dois Córregos e sua população.

Moradores de São Paulo, os cineastas descobriram a cidade vizinha a Jaú em 2011, quando a visitaram por conta de outro projeto. Conheceram Seu Chico, o Cine São Paulo (atualmente Centro Cultural Nilson Prado Telles) e se interessaram pela história do local.

Anos mais tarde, quiseram retratar a paixão do personagem pelo cinema por meio do documentário intitulado “Cine São Paulo”, que acaba de ser lançado durante o festival É Tudo Verdade, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Aclamado pela crítica e pelo público, o primeiro longa-metragem dos cineastas ganhou, inclusive, sessão extra hoje no É Tudo Verdade.

O Comércio do Jahu conversou com Ricardo Martensen e Felipe Tomazelli sobre as motivações para o longa, principais dificuldades e futuro do filme. Durante a conversa, Felipe Tomazelli contou que o personagem Francisco Telles vem acumulando registros de que o Cine São Paulo talvez seja o cinema mais antigo em funcionamento do Brasil.

Documentos provam que a sala estava sendo construída em 1910 e entrou em operação em 1911 – atualmente o cinema considerado mais antigo do País é de 1912 e está em Belém, no Pará. “Essa luta solitária do Seu Chico também é uma luta pelo cinema mais antigo do País”, diz Tomazelli.

A outra luta solitária foi para que o cinema conseguisse ser restaurado após ser interditado por questões de segurança. E Ricardo Martensen antecipa que Jaú, por meio do Moviecom (atual cinema do Jaú Shopping), ajudou em determinado momento da reforma. Para saber em qual, basta torcer para que o filme seja distribuído nas salas comerciais de cinema.

Comércio do Jahu – Vocês conheciam Dois Córregos?

Ricardo Martensen – Em 2011, durante o Circuito Sesc de Artes, fiz pequenos curtas-metragens pelas cidades que a gente passava e fui até Dois Córregos com o projeto. A temática era justamente falar sobre a cultura das cidades e acabei descobrindo lá o Cine São Paulo, o Centro Cultural Nilson Prado Telles e o Seu Chico (Francisco Telles), e naquela ocasião já achei a história muito interessante. Em 2015, eu e Felipe (Tomazelli), conversando sobre novas temáticas e novas histórias, nos lembramos do Seu Francisco, ligamos para ele e descobrimos que o cinema estava interditado por questões de segurança e que ele iria começar a reforma para fazer o cinema voltar a funcionar. A partir daí começamos a acompanhar essa reforma e a fazer o filme.

Comércio – Por que decidiram retratar o “Cine São Paulo”?

Felipe Tomazelli – Primeiro porque, na primeira ligação que fizemos para o Seu Chico, quando descobrimos que o Cine São Paulo estava interditado, ele nos disse uma coisa muito importante: “vocês têm uma ótima história para contar!”.

Martensen – Como cineastas, ver um senhor lutando para manter um equipamento cultural, especificamente um cinema em uma cidade pequena do interior, é uma temática que de imediato nos apaixonou. E a luta solitária desse senhor pela cultura da cidade, ainda que não represente uma atividade comercial lucrativa, foi algo que instantaneamente nos chamou a atenção. Queríamos entender as razões do Seu Chico de tamanha paixão por esse cinema.

Tomazelli – Outra questão importante, um dado que deveria assombrar a todos nós brasileiros, é que apenas 10% das cidades brasileiras possuem sala de cinema. E ver uma pessoa nessa luta solitária de manter um equipamento por uma iniciativa pessoal nos faz pensar e indagar: por que no Brasil os equipamentos culturais estão nesse estado ou, na maioria das cidades pequenas, estão inclusive todos fechados?

Comércio – Há quanto tempo estão trabalhando no documentário?

Martensen – Começamos as filmagens em janeiro de 2015 e acompanhamos todo o processo da reforma até a reinauguração do cinema, que ocorreu em setembro de 2015. O filme foi autofinanciado, então a gente também tinha limitações orçamentárias e, por isso, fomos fazendo no nosso tempo livre. Entre as filmagens e finalização do filme, foram quase dois anos de trabalho.

Comércio – Quais foram as maiores dificuldades?

Tomazelli – A primeira é justamente essa questão da gente não ter conseguido financiamento. Tentamos diversas formas, via editais de cultura, de cinema, financiamento privado e, como não houve, foi um grande desafio para a gente conseguir fazer que o filme acontecesse dentro das nossas possibilidades financeiras. Outra coisa que agravava um pouco essa situação é que nós dois somos de São Paulo e Dois Córregos está a 300 quilômetros. Tivemos, portanto, que acompanhar toda a rotina da obra e todo esse processo que o Seu Chico estava vivendo com essa distância. Muitas vezes tínhamos que combinar com Seu Chico, explicar porque era importante ele nos contar todas as novidades para que conseguíssemos chegar a tempo de contar o filme.

Comércio – Quais partes elencam como as mais importantes (ou emocionantes) do documentário?

Martensen – O “Cine São Paulo” é uma saga, retrata uma epopeia meio quixotesca de um personagem solitário que luta para atingir um objetivo que, às vezes, parece impossível. Em vários momentos a gente fica em dúvida se de fato essa epopeia vai ser concretizada, se esse senhor irá atingir os objetivos dele. Essa tensão está sempre muito presente e, além disso, essa obra o tempo inteiro vai trazendo memórias do Seu Chico, da vida dele, da vida do cinema, da vida da cidade, da vida das pessoas da cidade. Então é uma história sobre memória e também sobre legado, sobre o que ele pretende deixar.

Comércio – O que acharam do resultado final?

Tomazelli – É difícil para nós, diretores, ter essa dimensão se atingiu ou ultrapassou as expectativas. O que acho importante é que o filme estreou agora no festival É Tudo Verdade e o público tem respondido muito bem. A gente percebe que há emoção, que há graça nos momentos cômicos, que as pessoas de certa maneira saem inspiradas pelas posturas do Seu Chico. Nesse sentido nós ficamos felizes de ver que há um diálogo orgânico entre a plateia e o filme.

Comércio – Como se deu o processo para participar do festival É Tudo Verdade?

Martensen – O festival É Tudo Verdade, que está na sua 22ª edição, é o maior festival de documentários do Brasil e da América Latina. É um festival muito tradicional, que moldou a história do documentário recente brasileiro e que recebeu por volta de 2 mil inscrições nesse ano. Ser selecionado nesse universo nos deixou, claro, muito felizes e confiantes de que a gente tem um filme que de fato é relevante, que traz uma questão importante do acesso à cultura do País, da permanência dos cinemas de rua e dos cinemas em geral das pequenas cidades.

Comércio – Acreditam que o “Cine São Paulo” seja o trabalho de vocês que mais teve repercussão?

Tomazelli – Eu e Ricardo somos sócios-diretores da Trilha Mídia, uma produtora especializada em documentários. Durante nossa carreira em conjunto já produzimos alguns curtas, médias e esses filmes tiveram espaço em festivais nacionais e internacionais, mas o que a gente percebe é que “Cine São Paulo”, até agora, é o que promete uma repercussão maior. É o nosso primeiro longa, obviamente longa-metragem é um formato que já dialoga mais com o público e percebemos que ele naturalmente chega a um número de pessoas muito maior.

Comércio – Como e quando o público em geral conseguirá assistir ao documentário?

Martensen – O filme estreou agora no festival É Tudo Verdade, em junho será exibido nos EUA, em Washington, e depois ainda pretendemos que ele vá para alguns outros festivais do Brasil e do mundo. Mas a ideia é estrear o filme em circuito comercial de salas, afinal é um filme sobre uma sala de cinema. Para isso precisamos conseguir alguma forma de financiamento, porque essa distribuição envolve custos e, como é uma produção totalmente independente, ainda estamos em busca de patrocínios e formas de conseguir viabilizar essa distribuição. A nossa ideia é que no começo do ano que vem o filme vá para salas de cinema tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. É uma vontade muito grande nossa também que o filme entre em cartaz aí na região, em Jaú, e na própria Dois Córregos, é claro.
 
Texto reproduzido do site: comerciodojahu.com.br

Documentário Cine São Paulo




Publicado originalmente no site Papo de Cinema

CINE SÃO PAULO
Duração: 78 minutos
Direção: Ricardo Martensen, Felipe Tomazelli
Gênero: Documentário
Ano: 2017
País de origem:Brasil

Sinopse 

Desde 1940, quando seu pai comprou um cinema na cidade de Dois Córregos, a vida de Francisco Teles foi definida por esse lugar. A sala, que já teve diversos nomes, mortes e ressurreições, é o símbolo vivo da passagem do projetor a carvão ao digital, da resistência diante da TV e do videocassete e também da memória afetiva na cidade.

Crítica de Marcelo Müller

Muito antes do surgimento da televisão, do videocassete (posteriormente do DVD e do Blu-Ray) e da internet – com suas possibilidades de download e streaming –, o cinema possuía um papel bem diferente na vida das pessoas. Isso fica evidente ao nos depararmos com histórias semelhantes às de Francisco Augusto Prado Telles, que herdou do pai o estabelecimento homônimo deste documentário dirigido por Ricardo Martensen e Felipe Tomazelli. Cine São Paulo aparentemente se dá como mero registro da batalha do Seu Chico para adequar o espaço às normas de segurança vigentes, assim podendo reabri-lo, mesmo sabendo das dificuldades para viabilizá-lo atualmente como negócio. O primeiro, e principal, trunfo do filme é o carisma do protagonista, por quem nos afeiçoamos praticamente de imediato. É louvável a sua disposição desmedida em manter o prédio funcionando com a finalidade à qual foi construído há mais de um século. Sem modernização, este templo fecha.

Os cineastas, aliás, temperam a narrativa com essa sensação de embate constante entre o antigo – pois, nas palavras de Seu Chico, velho é o que não serve mais – e o novo. Em meio a questões de ordem prática, como a necessária troca do forro, a substituição do sistema elétrico que parece não mais dar conta do recado, tudo capturado com minúcia para reforçar o esforço hercúleo empreendido, temos excertos de memória que substanciam sobremaneira a empreitada fílmica. Cine São Paulo ganha tons emotivos quando o protagonista relembra, com pessoas próximas, às vezes até mesmo trabalhadores da obra, momentos especiais vividos no local, como as sessões de Ben-Hur (1959), clássico de William Wyler cujas imagens servem para estabelecer uma ponte entre Seu Chico e o pai já falecido, de quem obviamente ele tem orgulho. Doris Day cantando "Que Sera Sera" em O Homem Que Sabia Demais (1956) propicia outro desses elos afetivos com o passado, que enchem o filme de um saudosismo bonito.

Ricardo Martensen e Felipe Tomazelli investem no simbolismo atrelado à resistência incondicional do protagonista. Seu Chico representa, de certa maneira, os malabarismos que o próprio cinema teve de fazer ao longo de sua existência para sobreviver. Se a chamada sétima arte já foi ameaçada por diversos “concorrentes” que 'prometiam" tirar-lhe inapelavelmente do circuito, ele também precisou moldar-se frequentemente para sustentar de pé o seu ideal, a sua paixão. Cine São Paulo documenta a teimosia bem-vinda de um homem determinado a não se dobrar, ainda que para isso seja inevitável penhorar suas economias. A não participação da esposa, contrária ao investimento para a revitalização desse lugar sem muitas perspectivas de lucratividade, é tratada com pesar por Seu Chico. Já a ajuda de uma funcionária municipal é valorizada, tida como imprescindível, ou seja, ele não está totalmente sozinho nesta jornada quixotesca para devolver a telona à cidade de Dois Córregos, no interior de São Paulo.

A relação entre o antigo e o novo se torna mais tangível com a chegada do projetor doado, substituto do original movido a carvão. Embora longe do digital, ainda se valendo da boa e velha película, cada engrenagem atual é um desafio ao aprendizado. Próximo do fim de Cine São Paulo surge um forte ruído entre Seu Chico e a equipe do documentário que insistiu em filmar um evento marcado por um suspense “hitchcockiano”. Ele coloca em xeque a intenção dos cineastas, acusando-os de guiarem-se tão e somente por seus objetivos, deflagrando um possível conflito de interesses. Inserir isso no filme é, antes de mea culpa, manter entreaberta uma porta para discutir a ética e os seus meandros. Longe de se insurgir como tema, esse dado mostra a disposição diretiva em incorporar dramaticamente à estrutura do longa-metragem os imprevistos, exatamente como o quase insucesso de uma projeção emblemática para o Cine São Paulo, este símbolo de perseverança e, especialmente, de amor pelo cinema.

 * Marcelo Müller é jornalista, crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministra cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ e no Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017) e "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018). É editor do Papo de Cinema.

Texto e imagens reproduzidos do site: papodecinema.com.br

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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Documentário: "Um Cinema em Concreto"









Durante quatro anos, Omar construiu sozinho e sem contar a ninguém um cinema em cima de sua casa. Ele inaugura o cinema com um projetor de 1928, cadeiras de uma antiga sala de outra cidade e uma tela pintada que sua mulher o ajudou a pendurar. O local se torna seu refúgio. Depois de dez anos tentando mantê-lo funcionando, seus irmãos decidem vender o terreno onde ficavam a casa e o cinema. Omar então se muda dali, mas não desiste e começa tudo de novo, devagar e silenciosamente.

Saiba + sobre o documentário "Um Cinema em concreto" > https://bit.ly/2MweE2x



O esconderijo das memórias

As cadeiras do antigo Cine Eldorado dão assento aos espectadores 
do cineclube na Cantina do Zé Ferreira.

 Humberto e Edimilson: paixão pelo cinema e vontade de preservar a memória da cidade

Fotos: Rejane Lima

Publicado originalmente no site Cariri Revista, em 27 de outubro de 2015

O esconderijo das memórias

Por Clara Karimai

A começar pela enorme fotografia em sépia de uma família formal vestindo trajes finos e que revela os costumes de uma época, a Cantina Zé Ferreira é um espaço onde cada canto e cada peça remontam uma história que começou no século XIX. Piso rústico, quadros dispostos aleatoriamente pelo longo corredor e muita, muita memória.

A primeira moradora foi Joana Tertulina de Jesus, a popular beata Mocinha. Das mãos da cuidadora do Padre Cícero, o imóvel chegou à família de José Ferreira de Menezes, que também prestava serviços ao padre como advogado – além de ser amigo íntimo do religioso. O documento que oficializou a contratação de Zé Ferreira para o cargo de advogado da Câmara Municipal, escrito a próprio punho pelo padre, está preservado como relíquia num quadro, no primeiro cômodo da casa.

Ao longo de tantos anos, ela já não guarda mais as especificidades para que foi construída. Deixou de ser moradia e agora guarda a memória de Juazeiro do Norte e do cinema. O desejo de rever o lugar com a arquitetura que foi concebida foi o que motivou Humberto Menezes (59), atual proprietário e neto de José Ferreira, a restaurar a casa e dar outra utilidade ao ambiente.

A herança de Humberto, unida à coleção de mais de 15 mil filmes do professor e amante do cinema Edimilson Martins (82), fez renascer o extinto Cine Eldorado. As velhas cadeiras doadas por Expedito Costa, antigo dono do cinema de rua, se mudaram para o sótão e agora o lugar é um espaço de exibição de filmes toda sexta-feira a partir das 19 horas. Até chegar à sala de projeção, os espectadores podem conhecer a história da cidade, de costumes, utensílios, móveis, músicas e quadros de filmes clássicos.  Nas manhãs de quinta, os assentos são ocupados por alunos de escolas públicas. “O cinema também educa”, diz Edimilson.

Mesmo agregando um museu e um cinema, a fachada anuncia um bar, a Cantina Zé Ferreira. Lá nos fundos, onde um dia foi um quintal, petiscos e bebidas são vendidos. De uma forma curiosa, quando algumas luzes são apagadas, a boa e velha lamparina que fica em cima de uma radiola produz um sombreamento inesperado, formando um contorno que lembra a silhueta do patriarca, Cicero Romão Batista, na parede amarelada. Nesse clima místico, Humberto não sabe se acredita ou não na relação disso com o histórico de vivências do padre naquele lugar, mas prefere não mudar. “Ele costumava armar a rede aqui para descansar e também fez importantes reuniões nesse local. Desde que minha esposa notou essa sombra, resolvi deixar como está”, diz ele.

Talvez apenas uma pequena parcela dos 260 mil habitantes de Juazeiro saiba da existência da Cantina Zé Ferreira, na rua Padre Cícero. Certamente, a maioria conhece o Horto, o Memorial e as igrejas – pontos preferidos pelos mais de 2 milhões de romeiros que vêm todos os anos. Juazeiro do Norte vai além do Padre Cícero, e nessa velha casa preservada pelos descendentes de José Ferreira, talvez a história esteja contada com muito mais riqueza de detalhes mostrando as diversas perspectivas da nossa história. Não é um convite a voltar para o passado, mas, sim, uma nova forma de usar as memórias preservadas para dar um novo significado a elas.

Texto e imagens reproduzidos do site: caririrevista.com.br

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Recomendação Técnica para Salas de Exibição Cinematográfica

Recomendação Técnica para Salas de Exibição Cinematográfica Parte 1

Recomendação elaborada pela ABC em parceria com o Centro Técnico Audiovisual e a Cinemateca Brasileira

Por Osvaldo Emery

A ABC, em parceria com o Centro Técnico Audiovisual, CTAv, e a Cinemateca Brasileira, acaba de concluir a primeira etapa da elaboração da ‘Recomendação Técnica para Arquitetura de Salas de Projeção’. Esta Recomendação tem por objetivo estabelecer parâmetros objetivos para obtenção de ambientes adequados à projeções de boa qualidade, de acordo com as particularidades da fisiologia humana e as potencialidades da mídia cinematográfica contemporânea.

O texto integral da Recomendação está disponível em versão em PDF para download e nas páginas seguintes, onde são discutidos e explicados cada um de seus parâmetros.

PARTE 1

O ponto de partida para a elaboração desta Recomendação é a norma técnica NBR12237 “Projetos e instalações de salas de projeção cinematográfica”, elaborada por iniciativa do CTAv e publicada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, ABNT, em 1988. Os parâmetros desta norma foram revistos para esta Recomendação visando incorporar as melhorias resultantes do desenvolvimento da tecnologia cinematográfica desde então além de acrescentar outros aspectos não abordados anteriormente, de acordo com parâmetros definidos por normas e recomendações técnicas nacionais e internacionais.

Dessas fontes, foi dada preferência às normas e recomendações técnicas já que representam o consenso de diferentes atores envolvidos no setor de exibição: laboratórios, produtores, exibidores, técnicos etc., o que nem sempre acontece em trabalhos de cunho mais teórico e/ou acadêmico.

As principais fontes de referência no que tange a qualidade da exibição são:

Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), NBR 12237 - “Projeto e Instalações de salas de projeção cinematográfica”
Associação Francesa de Normatização, (AFNOR), NF S 27-001 - “Cinématographie, Théatres cinématographiques, Caractéristiques dimensionnelles des Salles”;
Comissão Superior Técnica da Imagem e o Som (CST, França), CST-RT-0012-P-2003, “Salles de spectacle cinématographique. Confort du Spectateur”;
 Dolby Laboratories, Dolby Laboratories, 1994, “Technical guidelines for Dolby Stereo theatres”.
 Organização Internacional para Normatização (ISSO), ISO 9568:1993, “Cinematography -- Background acoustic noise levels in theatres, review rooms and dubbing rooms”;
Sociedade de Engenheiros de Cinema e Televisão (SMPTE), artigos técnicos relevantes.
Os parâmetros definidos pela presente Recomendação aplicam-se, preferencialmente, a projeções utilizando processos foto-químicos 35mm ou digital (resolução de 2k ou superior), devendo ser utilizados também para projetos de salas de projeção eletrônica (abaixo de 2k) posto que os aspectos nela abordados, em sua maioria, relacionam-se à fisiologia humana que, obviamente, são as mesmas para qualquer tipo de projeção. Além disso, deve-se considerar que a tendência de melhoria da tecnologia de projeção digital, associada à sua popularização, permite antever que, em futuro não muito distante, ela venha a substituir tecnologias com menor qualidade.

A Recomendação não trata de aspectos relacionados ao funcionamento e desempenho de equipamentos de projeção, que são objeto de normas e/ou recomendações técnicas específicas. Tão pouco são abordados aspectos que garantam a segurança e a qualidade do ambiente como um todo, bem como aspectos definidos por legislações e posturas federais, municipais e estaduais.

Para melhor entendimento dos parâmetros adotados pela Recomendação, eles foram agrupados em categorias afins, a saber:

1 Qualidade da imagem projetada
2 Qualidade da imagem percebida
3 Qualidade acústica
4 Conforto do espectador

Esta ordem não é a mesma constante no texto da Recomendação, na qual os parâmetros foram agrupados de uma forma mais fácil de serem aplicados na elaboração de projetos de reforma ou construção de salas. Cada item é apresentado abaixo seguido dos parâmetros recomendados pelas seguintes fontes de referências, quando relevantes para o assunto além das ilustrações da Recomendação, com a numeração do texto original..

1 QUALIDADE DA IMAGEM PROJETADA:

Os itens abaixo visam garantir que a imagem seja projetada na tela em sua totalidade e com qualidade.

1.1 Altura mínima do feixe de projeção:
O projeto da sala de exibição deve evitar obstáculos que venham a obstruir o feixe de projeção e impedir a projeção integral da imagem na tela. Estes obstáculos podem ser tanto elementos arquitetônicos (pilares, colunas, vigas etc.) e também os próprios espectadores.

Para evitar problemas decorrentes da acomodação e circulação de espectadores na sala, a NBR 12237 recomenda que a borda inferior do feixe de projeção tenha uma altura mínima de 1,80m. Mas como, na prática, essa altura pode vir a ser maior por conta de saltos de sapatos, chapéus, penteados etc. é recomendável utilizar uma altura maior.

A altura sugerida na Recomendação é equivalente ao percentil 99 da população brasileira; ou seja, 99% da população tem altura igual ou inferior a 1,90m, de acordo com pesquisa antropométrica realizada pelo Instituto Nacional de Tecnologia, INT.

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    A borda inferior do feixe de projeção deve se situar a uma altura mínima de 1,90m acima do plano de implantação das poltronas e de circulação do público.
AFNOR Altura mínima igual a 2,00m, tolerável até 1,80m na primeira metade da sala para salas para menos de 200 espectadores
CST        Altura mínima igual a 2,00m
Texto da Recomendação ABC
4.2.3 A altura da borda inferior do feixe de projeção (Hproj) em relação ao plano de implantação das poltronas e de circulação do público deve ser igual ou, preferencialmente, superior a 1,90m.

Hproj = 2,00m

FIGURA 6: Implantação do projetor: altura mínima do feixe de projeção.

1.2 Curvatura mínima da tela:
Idealmente, a tela de projeção deve ser plana, de modo a evitar que a imagem projetada se deforme acompanhando a curvatura da superfície da tela.

Por vezes, buscando de tornar a imagem do filme do filme mais “envolvente”, ou melhorar a distribuição da luz de projeção na superfície da tela, adota-se a solução de instalar uma tela de projeção curva. Nestes casos, a curvatura deve ser limitada para evitar deformação da imagem projetada.

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    Raio de curvatura deve ser superior a duas vezes a distância (D) entre a tela e a face anterior do encosto da poltrona mais afastado da tela, ou seja: R > 2 D
AFNOR R = 2 D
CST        R = 2 D
Texto da Recomendação:
4.1.2 A tela de projeção pode ser plana ou curva. Sendo curva, o seu raio de curvatura (R) deve ser superior a duas vezes a distância (D) entre a tela e a face anterior do encosto da poltrona mais afastada da tela.

R > 2 D

1.3 Distorção trapezoidal da imagem:
A principal fonte de distorção da imagem decorre do mau posicionamento do projetor em relação à tela de projeção, produzindo o efeito chamado “distorção trapezoidal”.

A distorção trapezoidal leva este nome por fazer com que o fotograma do filme, originalmente com formato retangular (Figura 1a), assuma uma configuração trapezoidal, deformando as imagens nele contidas. Ela é resultante de um posicionamento inadequado do projetor em relação à tela de projeção, provocando uma inclinação excessiva do feixe de projeção em relação à tela.

Este problema pode ocorrer devido a uma inclinação excessiva em relação ao plano horizontal (projetor muito inclinado para baixo, Figura 1b), ao plano vertical (projetor muito inclinado lateralmente, Figura 1c) ou em ambos os planos simultaneamente (Figura 1d).

Distorção trapezoidal da imagem

A distorção trapezoidal da imagem é calculada utilizando-se fórmula matemática e deve ser definida tanto para o sentido horizontal quanto para o vertical. A seguinte fórmula é fornecida pela Recomendação:

Distorção trapezoidal horizontal (DThorz) = (H sen a) ÷ (D’ cos a)
Distorção trapezoidal vertical (DTvert) = (L sen ß) ÷ (D’ cos ß)

Onde:
L = largura da tela
H = altura da tela
D’ = distância de projeção
a = ângulo de projeção horizontal
ß = ângulo de projeção vertical

1.3.2 Distorção trapezoidal horizontal

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    A inclinação vertical do eixo óptico de projeção em relação ao plano horizontal não deve conduzir a uma distorção trapezoidal de imagem superior a 5%, sendo recomendável limitar esta distorção ao valor de 3%.
AFNOR 3% recomendado; 5% tolerável
CST        3% recomendado; 5% tolerável, para uma situação na qual a distância de projeção (D) dividida pela altura da tela (H) seja maior do que 4; ou seja: D / H > 4

 Texto da Recomendação:
4.3.1 A distorção trapezoidal horizontal (DThorz) da imagem projetada provocada pela inclinação horizontal do eixo óptico de projeção em relação ao plano vertical passando pelo centro da tela deve ser, preferencialmente, inferior a 3%, sendo tolerável um valor máximo de 5%, desde que a relação entre a distância de projeção (Dproj) e a altura da imagem projetada na tela (Himg) seja maior do que 4.

DThorz = 3% (recomendada)
DThorz = 5% (tolerável, se Dproj ÷ Himg > 4)

1.3.1 Distorção trapezoidal vertical

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    A inclinação vertical do eixo óptico de projeção em relação ao plano vertical não deve conduzir a uma distorção trapezoidal de imagem superior a 5%, sendo recomendável limitar esta distorção ao valor de 3%.
AFNOR Distorção máxima: 3% recomendado; 5% tolerável
CST        Distorção máxima: 3%

Texto da Recomendação:
4.3.2 A distorção trapezoidal vertical (DTvert) da imagem projetada provocada pela inclinação vertical do eixo óptico de projeção em relação ao plano horizontal passando pelo centro da tela deve ser, preferencialmente, inferior a 3%, sendo tolerável um valor máximo de 5%.

DTvert = 3% (recomendada)
DTvert = 5% (tolerável)

OBS: A Recomendação leva em consideração a distorção em projeções com equipamentos eletrônicos que, geralmente, têm funções para correção da distorção trapezoidal.

Texto da Recomendação:
OBS: Embora alguns sistemas de projeção eletrônica disponham de funções para compensação das distorções da imagem, produzidas pelas angulações laterais ou verticais, é recomendável que a lente do projetor fique posicionada no interior da área definida por planos perpendiculares passando pelas bordas horizontais e verticais da tela de projeção. (FIGURA 5)

FIGURA 5: Ângulos de projeção e limites para projetor com 
correção eletrônica de distorção trapezoidal.

Recomendação Técnica para Salas de Exibição Cinematográfica Parte 2

Recomendação elaborada pela ABC em parceria com o Centro Técnico Audiovisual e a Cinemateca Brasileira

Por Osvaldo Emery

PARTE 2

1.4 Iluminação da sala:
Idealmente, a única fonte de luz no interior do auditório deve ser o de feixe de luz da projeção. Qualquer outra fonte de iluminação, chamada de luz ‘parasita’, contribuirá para reduzir o contraste das imagens projetadas e, ao iluminar a platéia, fará com que ela se torne visível e distraia a atenção dos espectadores.

Como são necessários pontos de luz para conforto e segurança dos espectadores (luzes de circulação e de emergência) a Recomendação define limites para a iluminação parasita.

Texto da Recomendação:
6 Iluminação da sala:
Deve ser evitada ao máximo a interferência de luminosidade parasita na tela projeção, proveniente de outras fontes que não a fonte de luminosidade do projetor cinematográfico tais como: avisos luminosos, reflexões das superfícies internas etc. É recomendável que o nível de luminosidade parasita refletida na tela de projeção seja inferior a 0,03cd/m2 (0,01ft-L).

2 QUALIDADE DA IMAGEM PERCEBIDA:

Estes parâmetros têm por objetivo garantir que todos os espectadores vejam toda a imagem projetada na tela, com o mínimo de distorções provocadas pelo posicionamento dos espectadores em relação à tela de projeção.

2.1 Escalonamento visual:
A preocupação básica em relação a qualidade da percepção da imagem pelo espectador é garantir que todos possam ver toda a imagem projetada na tela.

Isto é feito evitando-se obstáculos que obstruam a linha de visão do espectador à tela, decorrentes de um mau dimensionamento de vigas, colunas, guarda-corpos e luminárias etc., ou então, mais comumente, quando os espectadores localizados nas fileiras posteriores têm a visão da tela obstruída pelos espectadores sentados à sua frente. Esta situação é especialmente prejudicial em filmes estrangeiros exibidos com legendas, localizadas próximas à borda inferior da imagem, a parte mais comumente obstruída por outros espectadores.

Para evitar este problema, faz-se necessário um estudo de visibilidade que garanta uma linha de visão desimpedida à borda inferior da tela para todos os espectadores. Este estudo pode ser obtido através de procedimentos matemáticos ou geométricos, traçando-se uma reta entre o nível dos olhos de cada espectador até a borda inferior da tela de projeção, sem que esta reta seja obstruída pela cabeça de qualquer outro espectador sentado à sua frente.

O escalonamento visual adequado, via de regra, aponta para a necessidade de se elevar o nível do piso da sala de projeção nas fileiras mais afastadas da tela.

Vale lembrar que, por se basear em dados estatísticos, o estudo de visibilidade não elimina por completo a possibilidade de obstruções da imagem do filme. Não há com evitar, por exemplo, problemas decorrentes de alguém com estatura anormalmente baixa sentado atrás de alguém cuja estatura seja anormalmente alta.

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    As poltronas devem ser dispostas de forma a se garantir um escalonamento visual vertical (EV) de 0,125m (correspondente ao comprimento entre o topo da cabeça e o nível dos olhos), considerando-se uma altura de 1,20m do nível dos olhos ao solo. Deve-se ainda, de forma a garantir uma boa visibilidade da tela, dispor as poltronas em quincunce, ou seja, quando num grupo de cinco pontos, quatro formam um retângulo ficando um no centro.
AFNOR EV = 0,12
CST        EV = 0,15

Texto da Recomendação:
4.2.5.1 As poltronas devem ser dispostas de forma a se garantir um escalonamento visual igual ou, preferencialmente, superior a 0,15m (correspondente à distância entre o topo da cabeça e o nível dos olhos), considerando-se uma altura de 1,20m entre o nível dos olhos e o piso. (FIGURA 3)

As poltronas devem ser intercaladas entre fileiras dispondo-as de modo que num grupo de cinco poltronas quatro formem um retângulo e uma fique no centro. (FIGURA 4)

FIGURA 3: Implantação das poltronas: escalonamento visual

2.2 Distância mínima à tela:
É aconselhável que o espectador a observe a imagem projetada na tela partir de uma distância suficiente a que sua visão possa integrar visualmente os grãos (projeção em película) ou pixels (projeção digital) que formam a imagem em uma imagem contínua, com contornos definidos.

A distância mínima entre o espectador e a tela também busca reduzir o efeito desconfortável associado ao cintilamento (“flicker”) provocado pelo desfilar intermitente de fotogramas individuais, que se torna menos perceptível a medida em se afasta da tela.

Além disso, a observação de imagens a partir de uma distância excessivamente curta pode provocar o cansaço dos músculos ciliares, o que pode se tornar desconfortável depois de um tempo.

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    A face anterior do encosto da poltrona mais próxima à tela deve se situar a uma distância
mínima (Dmin) igual a 60% da largura (L) da tela (Dmin = 0,6 x L)
AFNOR Distância mínima: 60% largura “scope”
CST        Distância mínima: 80% da largura da tela

 Texto da Recomendação:
4.2.1 A distância mínima (Dmin) entre a tela de projeção e a poltrona mais próxima a ela deve ser igual ou, preferencialmente, superior a 60% da largura (L) da tela no formato 1:2,35. (FIGURA 1)
Dmin = L x 0,6

FIGURA 1: Área de implantação de poltronas: distâncias máxima, mínima e ângulos laterais.

OBS 1:

O parâmetro sugerido pela CST provavelmente ser refere à telas no formato 1:1,78 (9:16), características de formatos eletrônicos/digitais. Ocorre que a distância de 60% de uma tela no formato 1:2,35 (“Cinemascope”), se traduzirá em 80% quando ela for utilizada para projeções 1:1,78, desde que mantida a mesma altura.

Exemplo:
Para uma tela 1:2,35 com altura de 3,80m, largura será 9,00m, 60% será igual a 5,40m
Para uma tela 1:1,78 com altura de 3,80m, largura será 6,76m; 80% da largura será igual a 5,41m

Por conta disso, foi mantido no projeto a recomendação dos 60% da largura do formato Scope, fazendo-se a ressalva de que, no caso de te

OBS 2:

O formato 1:2,35 tem sido substituído pelo formato 1:2,39 por conta deste último aumentar o espaço entre fotogramas e, com isso, facilitar a realização de emendas.

OBS 3:
Outro aspecto importante, mas não coberto pela norma, é garantir que não sejam perceptíveis as perfurações da tela de projeção, o que pode ser resolvido pelo distanciamento do espectador em relação à tela e/ou pela utilização de telas microperfuradas.

2.3 Distância máxima à tela:
O espectador deve ser capaz de perceber todos os detalhes da imagem projetada na tela. Além disso, ela deve ocupar uma porção mínima de seu campo visual para que ele possa ter um maior envolvimento com as imagens, e conseqüentemente, com o filme.

Por outro lado, imagens com dimensões generosas em relação à distância com que são observadas propiciam uma melhor localização do efeito estéreo, desde que, logicamente, as caixas acústicas tenham sido corretamente posicionadas atrás da tela, nas suas extremidades laterais.

Esse aspecto é garantido tomando-se como referência a distância entre a tela de projeção e a última fileira de poltronas (quando se quer determinar a largura mínima da tela), ou então a largura da tela de projeção (quando se quer determinar a distância máxima entre a tela e a última fileira de poltronas).

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    A relação entre a distância (D) da tela com a face do encosto da poltrona mais afastada e a largura (L) da tela deve ser menor ou igual a 2,9
AFNOR Distância (Dmax) = 2,9
CST        Distância (Dmax) = 2

 Texto da Recomendação (utilizando-se a distância de projeção como referência):
4.1.1 A largura (L) da tela de projeção deve ser igual ou, preferencialmente, superior à metade da distância (D) entre a tela e face anterior do encosto da poltrona instalada na última fileira. Alternativamente, é aceitável que a largura (L) seja igual ou, preferencialmente, superior à distância (D) dividida por 2,9. (FIGURA 1)

L = D ÷ 2,0 (recomendável)
L = D ÷ 2,9 (aceitável)

Texto da Recomendação (utilizando-se a largura da tela como referência):
4.2.3 A distância máxima (Dmax) entre a tela de projeção e face anterior do encosto da poltrona mais afastada da tela deve ser igual ou, preferencialmente, inferior ao dobro da largura (L) da tela de projeção, sendo aceitável que a distância máxima (Dmax) seja igual ou, preferencialmente, inferior a 2,9 vezes a largura (L) da tela. (FIGURA 1)

Dmax = L x 2,0 (recomendado)
Dmax = L x 2,9 (aceitável)

2.4 Ângulos de visão lateral e vertical:
Como o cinema utiliza imagens bidimensionais, se observada a partir de um ângulo excessivo, elas parecerão deformadas, a ponto de, em casos extremos, tornarem-se imperceptível. Como exemplo, basta observar o monitor muito de lado ou inclinar uma foto progressivamente até o ponto que a imagem não possa mais ser percebida.

Idealmente, o espectador deve observar a imagem do filme a partir de uma posição que garanta que seu ângulo de visão coincidisse com uma reta normal ao centro geométrico da imagem. No entanto, esta solução raramente é possível na prática, devido tanto a limitações da arquitetura da sala, bem como à necessidade de se acomodar o maior número possível de pessoas na sala de exibição. Por conta disso, é necessário definir limites para a posição na qual o espectador observará a imagem projetada, tanto em relação ao plano vertical quanto em relação ao plano horizontal.
Ângulos de visão horizontal:

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    Todos os assentos devem estar compreendidos entre dois planos verticais que passem pelas extremidades laterais da tela formando um ângulo de 110º com este plano.
AFNOR Ângulo máximo em relação à lateral da tela: 20º em relação ao plano da tela
CST        Ângulo máximo em relação à lateral da tela: 16º em relação ao plano da tela

 Texto da Recomendação:
4.2.4 Todos os assentos devem estar compreendidos, em planta baixa, entre dois planos verticais que passem pelas extremidades laterais da tela formando um ângulo (?) de 106º com o plano da tela. (FIGURA 1)

Ângulo de visão vertical:

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    Todas as linhas de visão devem estar compreendidas, em corte longitudinal, abaixo de um plano que passe pela borda superior da tela, inclinado 110º em relação a este plano.
AFNOR Ângulo máximo em relação ao topo da tela: 110º
CST        Ângulo máximo em relação ao topo da tela: 110º

 Texto da Recomendação:
4.2.5 Todas as linhas de visão devem estar compreendidas, em corte longitudinal, abaixo de um plano que passe pela borda superior da tela, inclinado 110º em relação ao plano da tela. (FIGURA 2)

FIGURA 2: Implantação das poltronas: ângulos em relação à tela e ângulos de visão

Recomendação Técnica para Salas de Exibição Cinematográfica Parte 3

Por Osvaldo Emery

A “Recomendação Técnica para Salas de Exibição Cinematográfica” é uma iniciativa conjunta da Associação Brasileira Cinematografia, ABC, e da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, através do Centro Técnico Audiovisual, CTAv, e da Cinemateca Brasileira.

Ela tem por objetivo determinar as características arquitetônicas básicas para projeções com boa qualidade técnica e conforto do espectador de acordo com as características da mídia cinematográfica contemporânea e da fisiologia humana.

PARTE 3

3 ACÚSTICA DA SALA

A preocupação fundamental em termos de qualidade sonora de uma sala de exibição é fazer com o som nela reproduzido seja idêntico ao som que foi finalizado em uma sala de mixagem, na presença do diretor e do ‘sound designer’ do filme. Para que isso aconteça, a acústica da sala de projeção deve ser idêntica à acústica do estúdio de mixagem – ou vice-versa.

Neste aspecto, além dos parâmetros definidos por normas e recomendações técnicas, deve ser dada atenção ao recomendado pela ‘Dolby Laboratories’ que detém o virtual monopólio da produção e reprodução de som para cinema, seja analógico (Dolby SR) seja digital (Dolby SRD e Dolby EX).

Os aspectos mais relevantes para a qualidade acústica da sala de exibição são o nível de ruídos de fundo e o tempo de reverberação.

3.1 Nível de ruídos de fundo:
Para que a trilha do filme seja adequadamente percebida pelos espectadores, é importante que sejam eliminados da sala de exibição quaisquer sons indesejados, ou ruídos, que venham a se sobrepor aos sons da trilha e impossibilitar que eles sejam ouvidos. Além disso, é preciso considerar que o próprio silêncio, ou a ausência de sons na trilha, muitas vezes é utilizado para enfatizar uma cena ou seqüência; se o silêncio é perturbado por sons estranhos à trilha do filme, o efeito desejado pelo diretor se perde.

O nível de ruídos de fundo refere-se ao somatório das fontes sonoras de caráter ‘constante’ (steady-state) sem grandes variações em relação ao tempo em que acontecem. As principais fontes destes ruídos são o sistema de aquecimento, ventilação e ar condicionado, projetores, sistemas de exaustão de cabine e outros equipamentos elétricos e mecânicos instalados no prédio. Ruídos externos à sala não são considerados posto parte-se do princípio de que eles foram eliminados.

Quando da projeção com trilha sonora óptica analógica, se utilizava um certo nível de ruídos de fundo para mascarar o nível de ruídos inerente à esta tecnologia. No entanto, a progressiva redução de ruídos do som óptico foi reduzindo esta necessidade, culminando com a adoção do som digital que virtualmente eliminou os ruídos de fundo da mídia.

Com isso, o valor sugerido pela norma da ABNT, NC30, não é mais adequado, posto que quando de sua elaboração, no final da década de 1980 ainda não havia sido adotada a tecnologia de som digital para cinema e sequer tecnologias de redução de ruídos da pista de som óptica analógica como a Dolby SR.

Novos valores foram sugeridos por várias entidades, das quais as mais relevantes são:

a) ISO 9568, “Cinematography -- Background acoustic noise levels in theatres, review rooms and dubbing rooms”, de 1993.

Esta norma propõe diferentes valores para o nível de ruídos de fundo, variando em função do perfil da sala:

Estúdios de som, salas de controle e salas para estréia (‘premier showings’) devem ter uma classificação (de nível de ruídos de fundo) mínima de NC-20 e máxima de NC-25.
Salas do circuito lançador de filmes (‘first-run theaters’) devem ter uma classificação máxima (de nível de ruídos de fundo) de NC-30
Salas que não seja do circuito de lançamento deve ter uma classificação máxima (de nível de ruídos de fundo) de NC-35.
Níveis (de ruídos de fundo) acima de NC-45 resultarão em uma reprodução de áudio de baixa qualidade.

A norma ISO também alerta para dois aspectos importantes:

Falta de ruídos na sala de projeção podem ser um problema tanto quanto seu excesso. Com excesso de ruídos, os detalhes se perdem, em casos extremos, a inteligibilidade fica comprometida. Com ruídos de menos, ruídos intrusivos intermitentes podem se tornar audíveis e irritantes; por conta disso, é recomendável utilizar um nível de ruídos de fundo razoável para mascarar as fontes de ruídos intrusivos.

Estúdios de som devem ser alertados para o fato de que se o nível de ruídos de fundo nos estúdios for muito abaixo do existente nas salas de projeção, sons de baixa intensidade que são audíveis no estúdio se tornarão inaudíveis na sala

b) “Technical Guidelines for Dolby Stereo Theatres”, novembro de 1994:

O nível de ruídos de fundo estável deve se situar, preferencialmente, abaixo de (os valores da curva) NC25, com (valores da curva) NC30 sendo o pior caso aceitável. Ruídos intermitentes não devem elevar o nível ruídos de fundo para valores acima de NC35.

c ) CST-RT-0012-P-2003, “Salles de spectacle cinématographique. Confort du Spectateur”, outubro de 2003:

Níveis de ruído de fundo máximos de NC 27, para reprodução com som digital, e NC 30 para som analógico.

Analisando-se as três recomendações acima, pode-se concluir que a norma ISO apresenta um complicador para sua aplicação por conta da definição de salas que não é utilizada no Brasil. Já a da CST é mais simples, porém limitada. Por conta disso, optou-se por definir limites de uma forma mais simples, combinando parâmetros da norma ISO e da recomendação da Dolby, ressalvando-se o tipo de projeto no qual será aplicada a Recomendação.

No caso de projetos para construção de novas salas, o parâmetro a ser utilizado deve ser o mais rigoroso: NC 25. No caso de projetos de reforma e/ou renovação de salas existentes, ou então de salas que utilizarão apenas som analógico, se aceitará um valor mais alto: NC 30. Foi definido também um piso mínimo para os ruídos de fundo, NC 20 e um teto máximo para sons intermitentes: NC 35.

Texto da Recomendação:
5.1 Nível de ruídos de fundo:
O nível de ruídos de fundo (NRFmax) no interior do auditório de salas novas e/ou com reprodução sonora digital deve corresponder aos valores da curva NC 25.

NRFmax = NC 25

Em salas existente e/ou com reprodução sonora analógica, o nível de ruídos de fundo máximo (NRFmax) aceitável será da ordem de NC 30.

Em ambos os casos, o nível de ruídos de fundo mínimo deve corresponder aos valores da curva NC 20. Ruídos intrusivos intermitentes não devem elevar o nível ruídos de fundo para valores maiores do que os da curva NC 35.


GRÁFICO 1: Níveis de ruído de fundo: Curvas NC

3.2 Perda de transmissão entre salas adjacentes:
Este item é importante para garantir que no caso salas adjacentes, como acontece em conjuntos do tipo ‘multiplex’, o som mais alto produzido em uma sala não venha a interferir com o nível de ruído mais baixo que espera na sala ao lado.

Texto da Recomendação:
5.2 Perda de transmissão sonora entre salas adjacentes:
A perda de transmissão sonora mínima (PTmin) entre salas de projeção adjacentes deve igual ou, preferencialmente, superior aos valores da TABELA 1, para salas novas, com som digital com NRF igual a NC 20:

O texto é acompanhado pela tabela abaixo:

Freqüência, Hz 63           125         250         500         1K           2K           4K           8K
Nível emissão máximo, dB          113         113         113         110         110         110         110         110
Nível recepção máximo, dB        54           44           37           31           27           24           22           21
PTmin, dB           59           69           76           79           83           79           88           89
TABELA 1 – Perda de transmissão entre salas adjacentes

3.3 Tempo de reverberação:
O som digital trouxe mais canais sonoros para as trilhas dos filmes e, com isso, uma maior preocupação com a preservação da ‘imagem estéreo’, ou seja a capacidade do espectador em localizar espacialmente a fonte que está reproduzindo o som da trilha do filme. Em filmes com som Dolby Stereo EX estas fontes podem chegar a sete: frente-esquerda, frente-centro, frente-direita, ambiente-esquerda, ambiente-direita, ambiente-traseira, além do canal ‘subwoofer’ (freqüências muitos baixas, para sons muitos graves) que, este último, por suas características, não são localizáveis.

Os requisitos principais (mas não exclusivos) para garantir esta imagem são a redução do comprimento da sala em relação à largura da tela e, do ponto de vista da acústica, a redução do tempo de reverberação, que mede o tempo em que um som permanece em um ambiente depois de ser emitido pela fonte.

Neste item, optou-se pela utilização dos parâmetros recomendados pela Dolby, já que praticamente todos os filmes são produzidos utilizando-se tecnologia e os parâmetros definidos pela Dolby

Texto da recomendação:
5.3 Tempo de reverberação:
O tempo de reverberação no auditório na faixa de oitava com centro em 500Hz será determinado em função do volume de sala, de acordo com o GRÁFICO 1. O tempo de reverberação nas demais faixas de oitavas entre 31,5Hz e 16kHz deve variar de acordo com os limites definidos pelo GRÁFICO 2. Note-se que o GRÁFICO 2 apresenta fatores de multiplicação que deverão ser aplicados ao valor recomendado para o volume da sala na faixa de 500Hz.

GRÁFICO 2: Tempo de reverberação ( 500Hz) em função do volume da sala


GRÁFICO 3: Fatores de correção para freqüências entre 31,5Hz e 16kHz

4 CONFORTO DO ESPECTADOR:

Garantidas condições para que o espectador perceba imagens e som com boa qualidade, é importante garantir também que ele isso aconteça em condições de conforto.

Além das questões de saúde e bem estar, as condições de conforto na sala de projeção são essenciais para a perfeita fruição do espetáculo cinematográfico. Pode-se considerar que o objetivo de uma boa projeção é fazer com que o espectador se esqueça de seu corpo físico e mergulhe totalmente na experiência sensorial que lhe é oferecida na sala. Para isso, devem ser evitadas quaisquer condições de desconforto que façam com que o espectador se lembre de seu corpo físico prejudicando sua imersão na realidade do filme.

4.1 Ângulos verticais da linha de visão:
Ângulos de linha de visão vertical excessivos provocam desconforto no espectador por obrigá-lo a manter a cabeça desconfortavelmente inclinada para cima durante a projeção. Este problema acontece com mais freqüência e intensidade nas primeiras fileiras de poltronas; sendo resolvido para estas fileiras, as demais automaticamente se adequarão ao parâmetro recomendado.

Em relação ao topo da tela (a)

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    a = 30º em relação a um plano horizontal que passe pelo centro da tela
AFNOR a = 30º em relação a um plano horizontal que passe pelo centro da tela
CST        a = 30º em relação a um plano horizontal que passe pelo centro da tela


Em relação ao topo da tela (ß)

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    ß = 40º em relação a um plano horizontal que passe pela borda superior da tela;
AFNOR ß = 45º em relação a um plano horizontal que passe pela borda superior da tela;
CST        ß = 40º em relação a um plano horizontal que passe pela borda superior da tela;

 Texto da Recomendação:
4.2.2 Os ângulos máximos de visão do espectador sentado na poltrona mais próxima da tela devem ser iguais ou, preferencialmente, inferiores a:
30 graus em relação a um plano horizontal (a) que passe pelo centro da altura da tela;
40 graus em relação a um plano horizontal (ß) que passe pela borda superior da tela.

4.2 Ângulo de inclinação das poltronas:
Este aspecto busca garantir que os espectadores não tenham que se virar o pescoço e/ou o torso excessivamente para o lado para que possam visualizar as imagens projetadas na tela.

Atender este parâmetro implica em inclinar as poltronas mais afastadas do eixo longitudinal da sala de exibição em direção ao centro da tela, até situá-las no limite aceitável. Geralmente, a solução mais adequada é a utilização de fileiras de poltronas dispostas em arcos concêntricos.

FONTE PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT O ângulo formado pelo eixo perpendicular ao plano do encosto e o eixo ao centro da tela, para cada poltrona, deve ser menor ou igual a 15º
AFNOR O ângulo máximo = 20º

Texto da Recomendação:
4.2.7 O ângulo formado pelo eixo perpendicular ao plano do encosto da poltrona e uma reta perpendicular ao centro da largura da tela, para cada poltrona, deve ser igual ou, preferencialmente, inferior a 15°. (FIGURA 4)

4.3 Espaçamento entre poltronas
Este aspecto visa garantir um espaçamento confortável para acomodação das pernas dos espectadores e facilitar o acesso às poltronas. Essas medidas pressupõem a utilização de poltronas convencionais de cinema, de boa qualidade, porém sem medidas exageradas; no caso disso acontecer, deverão ser feitas modificações.

FONTE  PARÂMETROS SUGERIDOS

ABNT    Espaçamento mínimo: 1,00m.
AFNOR Espaçamentos mínimos: 0,80m para piso contínuo; 0,90m para piso escalonado
CST        Espaçamentos mínimos: 0,90m para piso contínuo; 1,00m para piso escalonado
 Texto da Recomendação:
4.2.8 O espaçamento entre as poltronas, medido da face anterior de um determinado encosto até a face anterior do encosto imediatamente à frente (ou atrás) deve ser igual ou, preferencialmente, superior a 1,00m. (FIGURA 4)


FIGURA 4: Posicionamento das poltronas.

4.4 Conforto térmico:
Como existe uma norma específica para isso, a Recomendação se limita a mencioná-la.

Texto da Recomendação:
7 Condições de conforto térmico:
As condições de conforto térmico deverão obedecer aos parâmetros definidos pela norma NBR 6401, “Instalações centrais de ar condicionado para conforto - Parâmetros básicos de projeto”.

4.5 Acessibilidade:
Deve ser garantida facilidade de acesso a todos os espectadores, inclusive os com dificuldades de locomoção e usuários de cadeiras de rodas. Para isso, devem atendidas as recomendações de norma específica da ABNT.

Texto da Recomendação:
8 Acessibilidade:
O projeto da sala deverá atender aos parâmetros definidos pela norma NBR 9050, “Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos”

Texto e imagens reproduzidos do site: abcine.org.br