quarta-feira, 11 de abril de 2018

Morador de Cuiabá constrói réplica de cinema dentro de casa

















Fotos: Alair Ribeiro/MídiaNews

Publicado originalmente no site Mídia News, em 26.11.2017

Morador de Cuiabá constrói réplica de cinema dentro de casa

O sonho de criança de Tadeu Ferraz vira realidade nos fundos de sua residência, no Santa Rosa

O consultor imobiliário Tadeu Ferraz conta a história da réplica do Cine Alvorada

Por Cíntia Borges 

O consultor imobiliário Tadeu Ferraz, de 61 anos, jamais se conformou com o fechamento do único cinema de sua cidade natal, Águas Formosas (613 Km de Belo Horizonte).

Foi em uma viagem de férias à cidade, de onde saiu aos 15 anos, que ele se deparou com a nova realidade: o Cine Alvorada, onde passara boa parte da infância e adolescência, havia se transformado em uma igreja evangélica.

As lembranças do lugar onde desenvolveu sua paixão pela sétima arte - e o sentimento de impotência com sua nova condição - o perseguiram durante anos em Cuiabá, para onde mudou na década de 80.

Angústia que ele conseguiu estancar há cerca de 15 anos, quando decidiu construir, em sua casa, uma réplica do Cine Alvorada.

Da decepção a realização do sonho, foram quatro anos de construção e muito suor.

Nos fundos de sua ampla casa no Bairro Santa Rosa, o sonho foi tomando forma em uma edificação de dois andares.

Na escadaria, um mosaico do filme "Cantando na Chuva" (1952) ainda incompleto. “Ali vai ser instalada uma luz, mas por enquanto estou sem tempo”, diz Tadeu, detalhando um pouco sua obra inacabada.

Ao subir os lances de escada, o encontro com a réplica do cinema que o marcou: um verde-água dá o tom à parede, assim como no original. A bilheteria, o portal, e a entrada são como o do saudoso cinema da pequena cidade mineira. O letreiro quase idêntico ao de Águas Formosas também está lá, imponente no alto da construção.

Nas paredes, as lembranças de filmes que preencheram uma vida: o "Poderoso Chefão", "Casablanca"... Há ainda espaço para imagens de ídolos como Robert De Niro e Marlon Brando.
  
Coladas nas paredes, frases marcantes, como a da personagem Scarlett O'hara, do clássico "...E o Vento Levou": "Deus é minha testemunha, eu nunca passarei fome novamente".

A réplica do Alvorada tem oito cadeiras e funciona apenas para prazer do cinéfilo, que assiste aos filmes na companhia de amigos e parentes.

A paixão começou pela mãe. Na década de 50, ainda uma criança e por não poder entrar no cinema, a mãe assistia a película e contava – com riqueza de detalhes – toda a história. Ali, nascia o amante da sétima arte.

Filme preferido

O filme preferido Tadeu, no entanto, não é nenhum que tenha embalado sua infância e nem o primeiro a que assistiu na saudosa sala do cinema.

“Cinema Paradiso”, de 1988, tem um motivo para ser o preferido: conta a história de uma criança, que vivia em uma cidade interiorana na Itália, e tinha no cinema a janela para o Mundo, assim como Tadeu era na infância.

“Ninguém pode deixar de ver Cinema Paradiso”, recomenda.

O filme conta a história do garoto Toto (Salvatore Cascio), que, hipnotizado pelo cinema local, iniciou uma amizade com Alfredo (Philippe Noiret), projecionista que se irritava com certa facilidade, mas tinha um enorme coração. Todos estes acontecimentos chegam em forma de lembrança quando Toto (Jacques Perrin), agora um um cineasta de sucesso, recebe a notícia de que Alfredo faleceu. 

Indicações

Além do "Cinema Paradiso", Tadeu tem como referência a trilogia "O Poderoso Chefão". “Eu chamo os amigos do meu filho para ver pela milésima vez. Assistimos na sexta, no sábado e outro no domingo”.

Ainda naconversa com a reportagem, Tadeu ainda o clássico "1900", de Bernardo Bertolucci, e "Frida", o filme que conta a história de Frida Kahlo. “Espero alegre a partida, e espero nunca mais voltar", diz ele, sobre a frase final do filme.

Texto e imagens reproduzidos do site: midianews.com.br

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Metro Tijuca ressurge em miniatura num sítio em Conservatória








Fotos reproduzidas do Google

Metro Tijuca ressurge em miniatura num sítio em Conservatória

Spots lilás refletidos na fachada, casais conversando na entrada principal, envolvidos pela massa de ar refrigerado que vem do interior do cinema. O letreiro anuncia uma película que ainda não entrou no circuito, mas que define ao mesmo tempo a vida do diretor e da própria cidade: “Volta ao Passado”.

O corregedor da Região dos Lagos, delegado de polícia concursado há 40 anos, Ivo Raposo, 68 anos de idade, encarnou na infância, adolescência e boa parte da vida adulta o persoagem Totó, o menino que se torna amigo inseparável de Alfredo, projecionista do Cinema Paradiso, filme dirigido por Giuseppe Tornatore, um clássico do cinema italiano.

Apaixonado por cinema, Ivo transformou todos os seus sonhos em realidade em 2005, quando conseguiu construir no terreno de seu sítio, em Conservatória, sexto distrito de Valença, uma réplica de um dos cinemas mais tradicionais do Rio de Janeiro, o Metro-Tijuca, um dos ícones da Praça Saens-Pena nas décadas de 60 e 70, demolido em 1976.

Entre original e cópia, a diferença é o tamanho: o primeiro comportava 1.680 poltronas; o segundo, apenas 60. Por isso, ganhou de seu idealizador o nome de Cine Centímetro.

PEÇAS ORIGINAIS - Por mais de uma década, o delegado tentou de todas as formas obter a mobília, equipamentos, tapetes, lustres, enfim, tudo o que fizesse parte do cinema. Mas a resposta de Jorge Fonseca, responsável pelo material resgatado da demolição e guardado no prédio do antigo Condor do Largo do Machado, era sempre negativa.

Um dia, quando despachava inquéritos na 13a DP-Copacabana, o delegado foi surpreendido com um telefonema de Fonseca. Informava que o prédio do Condor fora vendido para a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, e que todo o material guardado em seu interior, incluindo o que fora retirado do Metro-Tijuca, deveria ser removido imediatamente. “Eu tenho certeza de que ninguém vai cuidar melhor dessa quinquilharia do que você” – disse-lhe Fonseca, alertando: “Mas tem que chegar aqui até o meio-dia, quando entregaremos as chaves.”

Raposo largou os inquéritos de lado, contratou um caminhão-baú e partiu para o Condor. Encheu a carroceria, levando tudo para Conservatória. No dia seguinte, novo telefonema e nova surpresa: “Você esqueceu os projetores” – disse-lhe Fonseca. “Os projetores são a alma de um cinema. Eu não conseguia acreditar que tudo aquilo fosse verdade...” – lembra o velho delegado, emocionado.

O Cine Centímetro foi inugurado em 2005, com uma homenagem especial a Jorge Fonseca, que também se emocionou. Conservatória ganhava o seu Cinema Paradiso disfarçado de Metro-Tijuca.

CINEMA PARADISO - A paixão pelo cinema começou quando Raposo ainda era criança. Residia na rua Desembargador Isidro, junto à praça Saens Pena, na Tijuca, onde havia a maior concentração de cinemas do Rio de Janeiro. Eram 13, entre eles o Metro, Art Palácio, Carioca, Bruni-Tijuca, Olinda – o maior da cidade até a inauguração do Imperator, no Meier – e o Santo Afonso, que seria o “Paradiso” na formação de Raposo.

Quando criança, o delegado criava cineminhas em caixas de sapato. Na adolescência, pedia aos pais pequenos projetores como presentes de aniversário e de Natal. Foi assim que transformou o quardo da empregada no primeiro cinema de sua vida.

Aos 13 anos, entrou na igreja Santo Afonso e convenceu o padre a dar-lhe uma vaga de projecionista no “poeira” que pertencia à paróquia, onde eram reexibidos filmes remanescentes do grande circuito. As cópias, porém, já estavam arranhadas ou até mesmo partidas de tanto uso. Por vezes teve que acender as luzes da sala de projeção para emendá-las, arrancando vaias e reclamações do público.

“Antes do filme entrar em cartaz, eu tinha que sentar com o padre e cortar todas as cenas que ele proibia. E eu guardava os fotogramas censurados numa lata de metal. Era tudo igualzinho ao Cinema Paradiso, mas só que aconteceu muitos anos antes de Tornatore fazer o seu filme” – compara Raposo.

REVISTA DESTINOS SERRA & MAR - Dezembro 2013 - ÍRIS EDITORA.

Texto reproduzido do site: destinosserraemar.com.br

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O nosso Cinema Paradiso

 O crítico Fábio Leite acompanha há um bom período a programação

 Por uma ótima causa: A atual equipe por trás do Cine Humberto Mauro

Gustavo Chaves é um dos frequentadores assíduos do espaço

Publicado originalmente no site O Tempo, em 03/03/18

O nosso Cinema Paradiso

Dedicado à formação e ao repertório, Cine Humberto Mauro chega a quatro décadas

Humberto Mauro O crítico Fábio Leite acompanha há um bom período a programaçãodfs Por uma ótima causa: A atual equipe por trás do Cine Humberto Maurodsadca Gerente do HM, Bruno Hilário é um dos curadores da mostra Buster KeatonM - A O crítico Fábio Leite acompanha há um bom período a programação Humberto Mauro Gustavo Chaves é um dos frequentadores assíduos do espaços de Ataídes Braga reuniu histórias da antiga Sala Humberto Mauro (hoje Cine Humberto Mauro) no livro “Cachoeira de Filmes”, cujo nome faz uma alusão ao cineasta que o espaço homenageia em seu nome ‘A General’ (1926) ‘The Railrodder’ (1965) ‘A Casa Elétrica’ (1922)

Transcorria o ano de 1978 e, como de praxe, filas se formavam em frente ao Cine Metrópole, na esquina das ruas da Bahia e Goiás. Em uma época na qual todos os cinemas da capital mineira eram “de rua”, o espaço atraia multidões exibindo filmes como “Grease”. Lançada naquele ano, a fita tinha como chamariz a presença de John Travolta, catapultado à condição de astro após “Os Embalos de Sábado à Noite”.

A poucos metros dali, no entanto, um grupo de entusiastas da sétima arte celebrava o início das atividades de uma sala com objetivos diametralmente opostos. Localizada nas dependências da Fundação Clóvis Salgado (FCS), espaço inaugurado em 1971, entrava em cena a Sala Humberto Mauro. A poucos meses, pois, de soprar as velinhas de 40 anos de atividades ininterruptas (salvo pequenas pausas para reformas), o hoje Cine Humberto Mauro prossegue em sua inabalável intenção de oferecer um cinema de repertório – desvinculado, pois, das produções dos grandes estúdios.

Trocando em miúdos, o Humberto Mauro aposta suas fichas na formação do espectador, exibindo clássicos ou filmes que, de outra forma, dificilmente chegariam ao écran aqui. Não por outro motivo, mostras dedicadas a diretores autorais de nacionalidades diversas – caso de Alfred Hitchcock, Andrei Tarkovsky ou Ingmar Bergman – dividem a programação com festivais que contemplam cinematografias pouco conhecidas, como a egípcia ou a polonesa.

Aliás, as comemorações das quatro décadas começaram na ultima sexta-feira (2), com a abertura de mais uma mostra em homenagem a um icônico diretor: o norte-americano Buster Keaton (1895-1966). Em cartaz até o dia 29, “O Acrobata do Riso” traz 30 filmes, entre curtas e longas, mudos e falados. No grand finale, o curta “The Railrodder” (1965) e o longa “A General” (1926) serão exibidos no Grande Teatro, sendo que a trilha sonora do primeiro será executada ao vivo por músicos convidados e alunos do Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart).

O início

A Sala Humberto Mauro foi inaugurada no dia 15 de outubro de 1978, tendo, à frente, a figura de Wagner Corrêa de Araújo, coordenador de cinema do Palácio das Artes. Dotada de 160 lugares e preparada para exibição de filmes de 16 e 35mm, exibiu, no début, uma retrospectiva do cineasta mineiro cujo nome batizou o espaço.

O livro “Cachoeira de Filmes – O Cinema Humberto Mauro Como Espaço de Exibição e Resistência” (2011), do pesquisador Ataídes Braga repassa que, além de todos os longas de Humberto Mauro, o espectador também conferiu uma seleção de curtas, um festival de filmes da Cinédia e, ainda, uma mostra de curtas brasileiros e mineiros da época.

Ataídes, aliás, foi uma espécie de frequentador “avant la lettre” do espaço. E que antes mesmo de a sala existir, ele, então pré-adolescente, já frequentava as dependências da FCS, ávido por cultura. “Nunca mais saí de lá”, lembra o autor de uma iniciativa que, embora instintiva, acabou possibilitando um mapeamento histórico do percurso do espaço: guardou consigo, por anos, todos os folders das exibições que por lá aconteceram. Aliás, foi exatamente esse empenho que deu subsídio ao livro, posto que, segundo ele, nem a própria Fundação teve esse zelo. Tanto que, após a conclusão do livro, doou o material ao acervo da Clóvis Salgado.

Hoje à frente da Artesãos Tagarela, empresa de artes, cinema e cultura, Ataídes relatou, em seu livro, vários dos momentos que presenciou nestas quatro décadas de Humberto Mauro. Ao , lembrou, por exemplo, do frisson provocado pela exibição de “Querelle”, de Rainer Fassbinder. “Ou ‘Je Vous Salue Marie, de (Jean-Luc) Godard, que à época (meados dos anos 80), teve sua exibição proibida no Brasil pelo governo (José) Sarney. As sessões eram clandestinas”, rememora. Pampulha

Não só. Ele rememora a “era Zuba”, quando o saudoso José Zuba Jr, então gerente à frente do Humberto Mauro, promoveu uma mostra na qual filmes que traziam cenas de sexo explícito foram incluídos. “Zuba era genialmente ousado, mas fez a mostra com todo cuidado, frisando a classificação etária para maiores de 18 anos, com sessões madrugada afora. O que houve lá, porém, surpreendeu a todos. As filas percorriam a escadaria. Daí, o Zuba quis fazer uma exposição de cartazes de nus de Robert Mapplethorpe (fotógrafo norte-americano, morto em 1989)”. E veio o ti-ti-ti. “Senhoras acusaram o lugar de atentado violento ao pudor”.

Outras polêmicas vieram, mas, no cômputo geral, os atuais 136 assentos do espaço – que, vale lembrar, funciona de segunda a segunda – abrigam pessoas muito mais interessadas em sorver o crème de la crème da sétima arte que em celeumas.

Caso do crítico de cinema Fábio Leite. “A gente tinha o Pathé e o Roxy (que exibiam filmes menos comerciais), mas eram cinemas de lançamento. Na TV, a Globo tinha o ‘Cineclube’, que exibia títulos como ‘O Falcão Maltês’ (John Huston). E havia os cineclubes, mas, aí, a programação era irregular, dependia da boa vontade das distribuidores. Na Humberto Mauro não, a programação era regular. E, ao final, havia os debates, que se estendiam a um bar na rua Goiás”. Fábio conta que, nas sessões, um folheto sobre a fita era distribuído. “Um texto de alguém daqui mesmo ou um recorte, do ‘Jornal do Brasil’, do ‘Cahiers du Cinéma’ ... Para o espectador não sair do cinema boiando. Era muito bacana”, diz ele, que segue sendo um frequentador do espaço.

Muitas histórias pra contar

Projecionistas, gerentes e cinéfilos compartilham passagens marcantes do ‘templo’

Aos 25 anos, o médico Gustavo Chaves é um exemplo de que os jovens também acorrem à Humberto Mauro – na última quarta (28), ele conferiu “O Homem do Sputnik” (1959), de Carlos Manga. “Destacaria o fato de ser acessível (as atividades são gratuitas), diante do fim de quase todos os cinemas de rua de BH e da primazia das salas de shoppings”, diz, opinando que o cinema é porta de entrada para a cultura num senso mais amplo.

Nome por trás do site Mulheres do Cinema Brasileiro, Adilson Marcelino sabe bem disso. “Foi quando fazia Letras (também é jornalista) que descobri a sala. À época (anos 1990), a cinefilia era intensa na cidade. A gente ia de uma sala a outra para pegar o máximo de sessões. E lá era meio que um templo – como até hoje. Tem exatamente essa função de formação. Uma universidade da sétima arte. E o aprendizado se completava com as sessões comentadas, os debates”. Ali, Adilson viveu um momento ímpar: a ida de Dina Sfat (1938-1989) à exibição de “Das Tripas Coração” (1982) atraiu tanta gente que o bate-papo com a atriz se deu no lado de fora da sala. “Ela ali, sentada no chão, com os espectadores”.

O cinéfilo Fernando Fonseca lembra que o Centro de Estudos Cinematográficos – o antológico CEC, núcleo de intelectuais cinéfilos que pleiteava um espaço como o Humberto Mauro – fazia a programação dos sábados do espaço. Passado um tempo, Fernando virou o responsável pela seleção. “Um dia, programei ‘A Dama de Shangai’ (1947), do Orson Welles, mas não sabia que a cópia era dublada. E quando o Welles começou a falar em português, o crítico Paulo Lima, que estava na plateia, deu um berro: “É um desaforo. Não admito. E saiu da sala, xingando”, rememora.

Ele conta que, pelo caráter político do espaço nos primórdios, filmes norte-americanos eram sutilmente evitados. E havia, ainda, o boicote da empresa de Antônio Luciano, que controlava os cinemas da cidade (e influenciava as distribuidoras a apoiar o boicote). “Era difícil”. Em contrapartida, as descobertas eram sucessivas. “Godard, por exemplo, foi uma loucura para todos nós”, diz Fonseca sobre o cineasta francês Jean-Luc Godard.

Linha de frente

Daniel Queiroz, Waleska Falci, Rafael Conde, Patrícia Klingl, Ana Siqueira... Além do fundador Wagner Corrêa de Araújo, vários profissionais passaram pelo HM. Caso de Mônica Cerqueira, que depois lançou empreitadas antológicas, como o Savassi Cineclube, o Cine Imaginário, La Bocca e o Usina, todos extintos. Mônica lembra que, na época em que assumiu o HM, as sessões não eram de todo regulares. “Foi uma preocupação nossa, além de destinar a sala a outros fins, como o projeto musical ‘Fim de Tarde’, tocado pelo hoje falecido José Eymard. Tinha teatro de manhã para crianças, cursos de ópera, história da arte, seminários”.

De sua passagem, ela se lembra, por exemplo, da ida do cineasta Leon Hirszman (1937 – 1987), para discutir “Eles Não Usam Black-Tie” (1981), com Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri. “Foi tanta gente que o debate passou para a Escola de Direito (UFMG), que é perto. E fazíamos muitos trabalhos conjuntos com embaixadas, com o Instituto Goethe”. Ela, que hoje se debruça sobre o ofício de roteirista e a produção de documentários, diz que o espaço segue atuante no que chama de “outro cinema”. “Não necessariamente alternativo, nem melhor ou pior, mas fora das majors (grandes estúdios)”.

Atualmente, é Bruno Hilário que responde pelo Humberto Mauro. Zeloso, ele prefere não revelar todas as atrações do ano que baliza as quatro décadas da sala. “Quando a gente pensa em todas as dificuldades que a cultura enfrenta nos dias atuais, fica feliz em ver que houve uma construção importante nestes 40 anos”, lembra, citando o público surpreendente que acorreu, por exemplo, à mostra do cineasta russo Andrei Tarkovski, no ano passado. “Várias pessoas ficaram de fora. E um público diversificado, de todas as faixas etárias e perfis”.

Para Hilário, o local é um motivo de orgulho para os mineiros. “Temos uma relação muito próxima com os realizadores daqui. Por conta da qualidade da projeção, muitos testam ali seus filmes antes de lançarem no mercado”. O orgulho que o gerente demonstra é compartilhado pela equipe, formada dos mais jovens (como Hilário) a veteranos, caso dos projecionistas Milton Célio Rodrigues, 62, e Mercídio Scarpelli, 72.

Milton conta que, em tempos passados, quando eventualmente o equipamento dava alguma pane, o público, sempre simpático, aguardava paciente a regularização. E, sim, ele também aproveita para dar uma espiada no que está projetando – é fã de Charles Chaplin e Alfred Hitchcock. Mercídio está na Humberto Mauro “de 35 para 36 anos”. Fã dos clássicos, se tivesse que optar por um, não titubearia. “Ben-Hur”, diz, referindo-se ao filme de William Wyler, de 1959.

O gerente Bruno Hilário conta que o nome de Buster Keaton para iniciar a programação comemorativa aos 40 anos do Cine Humberto Mauro veio dentro do pensamento de que seria um bom mote para homenagear, num espectro mais amplo, a própria sétima arte. “Nomes como o dele foram responsáveis por construir a própria linguagem do cinema e o sentido de ele existir. No geral, estamos sempre buscando exibir filmes mais conhecidos do ator e diretor em foco, mas também traçar um panorama completo – no caso de Keaton, os filmes falados. Muita gente acha que, com o advento do cinema falado, Keaton entrou numa ruína, o que é uma falácia. A mostra vem resgatar o talento que construiu um dos principais personagens do século XX, suas gags visuais. E não só. Também vamos mostrar filmes de diretores que foram influenciados por Keaton, resultando no que, espero, será uma mostra leve, divertida”.

Com o grand finale da mostra – quando o curta “The Railrodder” (1965) e o longa “A General” (1926) serão exibidos no Grande Teatro com a trilha sonora do primeiro sendo executada ao vivo –, Bruno entende que o Humberto Mauro volta ao seu embrião. É que, antes da sala propriamente dita, o Palácio das Artes tinha, sim, exibições de filmes, porém, em outros espaços. “Nos anos 70, os cinéfilos chegaram a reivindicar o Grande Teatro como espaço de exibição, mas, evidentemente, era muito grande, e pensou-se, à época, em um espaço adequado, que permitisse a intimidade necessária à fruição (do tipo de cinema que se pensava para ali, o dito cinema de arte)”.

Em tempo: Bruno também lembra o caráter de parceria da Humberto Mauro, ao integrar o circuito de exibição de importantes festivais realizados na cidade, como o Múmia e o Festival Internacional de Curtas de BH, que, este ano, chega à sua 20ª edição. “É um privilégio termos, aqui, em uma instituição pública, um festival deste nível”, diz.

Hoje localizada em frente à Galeria Genesco Murta e ao lado do Café do Palácio, a Humberto Mauro conta com tecnologia modernizada, fruto da aquisição de equipamentos de som dolby digital e exibição de filmes em 3D e 4K. E se em tempos passados nem sempre o público era contabilizado, hoje é diferente: somente em 2017, mais de 70 mil pessoas frequentaram o Cine Humberto Mauro para conferir as 21 mostras exibidas...

Texto e imagens reproduzidos do site: otempo.com.br 

quinta-feira, 22 de março de 2018

Samsung inaugura primeira tela de cinema em LED e 4K


Publicado originalmente no site Tecmundo, em 14 de julho de 2017

Samsung inaugura primeira tela de cinema com tecnologia LED e resolução 4K

Por Douglas Vieira  

Não há dúvidas de que as salas de cinema já contam com diversas tecnologias para melhorar a nossa experiência enquanto assistimos aos filmes de nosso interesse, mas a Samsung decidiu elevar isso a um novo patamar ao anunciar uma novidade: uma tela de cinema com tecnologia LED e resolução 4K.

De acordo com informações divulgadas, a tela em questão está no Lotte Cinema World Tower, localizado na Coreia do Sul, tem 10,3 metros de altura e 4096 x 2160 pixels. Quanto aos níveis de brilho, estes beiram 146 “foot-lamberts”, um número dez vezes maior que o apresentado por projetores convencionais.

Também é válido mencionar que esse display é HDR, melhorando os ajustes de contraste e saturação das imagens, além de contar com uma apresentação mais precisa das cores branca e brilhantes e oferecer mais realce para o preto. Outro detalhe importante é que a empresa sul-coreana trabalhou em conjunto com a divisão Harman para entregar a melhor experiência no que diz respeito ao som.

Caso esteja curioso para ver um pouco dessa tela, basta observar a gravação que está na sequência:

Até o momento a Samsung não confirmou se pretende levar essas telas a todos os cantos do globo, mas fica aqui a torcida para que ela ofereça a outras pessoas a oportunidade de conferir essa tecnologia com os próprios olhos.

   

Texto,  foto e vídeo reproduzidos dos sites: tecmundo.com.br  e  youtube.com

sábado, 11 de novembro de 2017

Cinéfilo de Cuiabá montou um cinema em casa

O começo de tudo: Ferraz descobre que o Cine Alvorada foi comprado e 
transformado em igreja evangélica.

O Cine Alvorada "doméstico" não é aberto à visitação. O local é um tipo de "templo" 
mnemônico de Ferraz, onde ele recebe amigos e parentes.

O local é decorado com cartazes e frases de filmes clássicos, além de relíquias como o cinematógrafo presenteado por um amigo

Mesmo sem as poltronas originais de madeira maciça o advogado mineiro construiu uma confortável réplica do cinema de sua infância nos fundos de sua casa em Cuiabá.
Fotos Ednilson Aguiar/Olivre

Publicado originalmente no site O Livre, em 05 de novembro de 2017

Cinéfilo de Cuiabá montou um cinema em casa

Ao visitar sua cidade natal, Tadeu Ferraz descobriu que o cinema de sua infância foi transformado em igreja evangélica

Por Lázaro Thor Borges, da Redação lazaro.borges@olivre.com.br

A foto em que o advogado Tadeu Ferraz, 61, aparece debruçado no portão do Cine Alvorada, o seu cinema de infância, lembra um homem condenado, que teve o passado tomado de si. Mas quem está atrás das grades não é ele, é a sua memória, que cumpre a sentença aprisionada onde antes era livre.

No exato segundo em que a imagem foi feita, Tadeu acabava de descobrir que o único cinema de sua cidade natal, a pequena Águas Formosas no nordeste mineiro, foi desativado e transformado em uma igreja evangélica.

Para livrar a memória da danação, Tadeu a trouxe consigo para Cuiabá. Nos fundos de uma espaçosa casa no bairro Santa Rosa, o advogado mineiro construiu uma réplica do extinto Cine Alvorada, onde a fotografia aparece na parede.

O registro foi feito pela sua esposa, Nádia Calmon, 61, durante viagem de férias à Minas Gerais. “Ali eu estava chorando”, conta Tadeu com lágrimas nos olhos em conversa com a reportagem do LIVRE em sua casa.

Ao entrar no Cine de Águas Formosas, Tadeu - ou “Deu” como lhe chama a mulher - fez o que sempre fazia quando visitava o local: entrou porta a dentro. Ele, um ateu de cabelos brancos, não conseguiu segurar a revolta. “Andei pelo corredor entre as poltronas e subi onde virou o púlpito e antes era o telão”, conta.

Ávido por recuperar tudo que pudesse do antigo prédio, pediu ao pastor responsável oito das poltronas originais que ainda resistiam à igreja. Entre elas, a poltrona onde sempre se sentava desde os oito anos de idade.“Eu faço uma igualzinha para o senhor, eu só quero estas para levar para minha casa em Cuiabá, eu pago uma igualzinha”, implorou desesperado.

O pedido foi negado sob o curioso argumento de que a retirada das cadeiras “descaracterizaria o imóvel”. Como não pode ter um pedaço das lembranças, Ferraz resolveu domesticá-las. Pediu que um pedreiro tirasse todas as medidas do prédio e sentenciou: “Nádia, o Cine Alvorada pode acabar aqui, mas eu vou fazer um igual lá em casa”.

O homem que domesticou a memória

Tadeu é um cinéfilo de 61 anos completamente jovial. Alto, sorridente e esbelto. Tem um ar inevitável e agradavelmente quixotesco. No jardim de sua casa, ao lado da réplica do Cine Alvorada, placas de vidros exibem poemas que dão pistas sobre a personalidade do anfitrião. “Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.../Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer”.

Inteligentíssimo, ele desfila pelas histórias da infância enquanto detalha seus filmes, atores e diretores preferidos caminhando pela casa. Fiel ao passado e à beleza analógica do cinema, o advogado diz não ter se acostumado às novas tecnologias.

“Eu sou analfabeto digital”, declara com um orgulho disfarçado enquanto fala com um cliente no telefone de modelo ultrapassado e discreto. Às vezes, quando é inevitável, Ferraz usa o celular da esposa para mandar mensagens via WhatsApp.

Os amigos que Tadeu recebe na sua cópia do Cine Alvorada são os mesmos que o presenteiam com tudo quanto é regalo ligado ao cinema. Um colega que voltava do Rio de Janeiro, por exemplo, telefonou à meia noite direto do aeroporto. “Nádia, eu tenho que ir, ele disse que trouxe um presente e quer que eu vá buscar”, falou à mulher depois da ligação. No aeroporto, um cinematógrafo esperava por Ferraz.

“Do mesmo jeito que tinha teatro mambembe tinha cinema mambembe. Quando eu era menino o viajante chegava na cidade e cobrava mais ou menos o que hoje seria dois ou três reais para exibir o filme. Colocava o aparelho em uma mesa e a molecada sentava no chão, ficava atenta assistindo”, conta.

Cine Alvorada

Para dar mais força às recordações, outra foto na entrada da réplica do Cine serve de comparativo entre o original e a sua cópia sentimental. O Alvorada de Minas tinha uma fachada verde e delicada, que permanecia intacta mesmo sob o efeito da poeira das ruas da cidadezinha.

Mas há pequenas diferenças. Em Cuiabá, o Alvorada é mais alto. Ele é acessado por um lance de degraus íngremes. Nas laterais do portão duas janelinhas imitam a bilheteria. A cor é o mesmo verde de outrora.

Na parede da escada, do lado de fora, ladrilhos compõe um quadro ainda não concluído com a imagem de Gene Kelly rodopiando no poste de luz. A reprodução de Dançando na Chuva é feita de pedrinha em pedrinha, nos finais de semana em que Tadeu está de folga.

O apreço por trabalhos manuais levou Ferraz a participar da construção do cinema. “Eu fiz questão de instalar o isopor nas paredes para garantir o isolamento acústico”, relata.

Memória

Muito mais do que para apreciar as obras clássicas, a réplica do Alvorada é uma ode à infância, aos tempos pacatos da Minas vivida e relembrada. “O cinema era a janela do nosso mundo, tudo que eu vi no mundo eu vi antes no cinema”, diz.

É a partir dos oito anos que as recordações começam e não param mais: “O castigo que mamãe aplicava na gente era proibir de ir à matinê e aquilo para mim era pior do que não poder jogar bola ou brincar na rua”.

E as histórias talvez superem o roteiro dos filmes: o vai e vem do flerte na porta do cinema antes da sessão começar, a balinha entregue por um buraco entre a mercearia contígua do seu Quintelino, as poças de lama da rua rapadas a rodo pelo dono do Cine para evitar que os clientes sujassem os sapatos....

Aos 15 anos, Ferraz deixou Águas Formosas para morar e estudar em Goiânia. No curso de História, que abandonaria três anos depois, conheceu o cinema novo alemão, a novelle vague e as obras de Glauber Rocha. A paixão pela sétima arte o infectou ainda mais, se é que era possível.

Mais tarde, já em Cuiabá, o mineiro virou frequentador do Cine Teatro, do Cineclube Coxiponés e do Cine Bandeirantes. Neste último, Ferraz assistiu a derradeira sessão. Ele não se lembra do título do filme, mas não consegue esquecer a estrela principal, Robert De Niro, e a data: “Foi em 21 de fevereiro de 2001, não me esqueço”, acerta.

A morte dos cinemas de rua é também um dos motivos pelos quais ele decidiu domesticar o próprio passado. “Antigamente existiam 5100 cinemas no Brasil e hoje não passam de mil”, calcula. A diáspora dos cines para os shoppings aumentou ainda mais a frustração.

De sorte que o que para ele era cinema de rua, hoje é cinema de casa. Ferraz não abre o local à visitação. O templo da sua memória é onde recebe amigos, conversa sobre os filmes e onde às vezes se isola, como alguém imerso no rebojo do tempo.

Pergunto a Tadeu se ele ainda espera voltar à Águas Formosas para tentar novamente recuperar as poltronas. “Olha, eu falei com a Nádia e ela me disse que talvez já seja outro pastor e pode ser que ele me deixe levar”, disse entre um suspiro de esperança e outro de entusiasmo. Ele visitará a cidade em dezembro deste ano.

Texto e imagens reproduzidos do site: olivre.com.br

domingo, 8 de outubro de 2017

Cinemas de rua em Manaus deixaram saudades...

Segundo pesquisador, Cine Guarany era o mais popular da capital amazonense 
(Foto: Arquivo Pessoal/Ed Lincoln)

Ed Lincoln coleciona imagens de cinemas antigos da capital
 (Foto: Sérgio Rodrigues/G1 AM)

Joaquim Marinho chegou a ser proprietário de nove cinemas em Manaus
 (Foto: Camila Henriques/G1 AM)

 Marius Bell lembra com carinho de época trabalhando nos cinemas de Manaus 
(Foto: Camila Henriques/G1 AM)

O trabalho de Marius Bell em quatro atos: (da esquerda para a direita) o primeiro painel, 
de 'Bye Bye Brasil'; o segundo, 'Z'; e as polêmicas, 'Tubarão 3' e 'Emmanuelle' 
(Foto: Arquivo Pessoal/Marius Bell)

 Márcio Souza fez parte de movimento cineclubista na década de 1960
 (Foto: Camila Henriques/G1 AM)

 Jornal da época mostra declaração de Grande Otelo sobre cinema com seu nome 
(Foto: Arquivo Pessoal/Marius Bell)

Foto tirada nos anos 1980 mostra Marius trabalhando no cartaz de 
'Um Tira da Pesada', um dos grandes sucessos daquela década
 (Foto: Arquivo Pessoal/Marius Bell)

Publicado originalmente no site G1 AM, em 24/10/2015

Cinemas de rua em Manaus deixaram saudades aos amantes da sétima arte

G1 reconta história marcada também por empreendedorismo e criatividade.
Relação curisosa do Cine Guarany com número 7 é narrada por pesquisador.

Camila Henriques

Do G1 AM

O cenário na rua Jonathas Pedrosa, hoje, é tomado por pichações e sujeira. A fachada do Cine Eden, no entanto, faz quem passa na sua frente ser transportado para outra época da história do Centro de Manaus, quando o local era "ponto de encontro" com James Stewart, Marcello Mastroiani, Marilyn Monroe e outros nomes que são sinônimos de cinema entre as décadas de 1940 e 1970. O sentimento também ecoa em outros lugares da capital amazonense, que um dia fizeram a alegria dos amantes da sétima arte ou de quem, simplesmente, queria um lugar para pegar na mão da namoradinha ou do namoradinho pela primeira vez.

A relação de Manaus com as imagens projetadas na tela grande é tão antiga quanto a própria história do cinema. Em 1897, poucos meses após a inauguração do Teatro Amazonas, a casa de espetáculos foi o local da primeira exibição de cinema. Após 118 anos, a cidade conta com mais de 60 salas de cinema, todas em shoppings.

"A sexta-feira ou o sábado eram a certeza que eu ia me divertir. Às 12h a gente já almoçava, tomava banho, se arrumava para pegar um ônibus ou ir a pé para o cinema" Rodrigo Castro -  cineasta.

As lembranças físicas dos cinemas de rua estão presentes apenas em algumas poucas fachadas - como a do Cine Eden -  e por meio de fotografias e relatos, a exemplo dos que o pesquisador Ed Lincoln coleciona há duas décadas. O projeto dele é recontar essa história em um livro, ainda sem nome.

"Eu gosto de cinema desde a infância. O primeiro filme que vi foi em 1976 no Cine Guarany. Era 'As Três Espadas do Zorro'. Depois vi 'King Kong' no Ypiranga. A pesquisa começou porque as pessoas sempre me falavam dos cinemas [mais antigos], que eu nunca conheci. Em 1994 comecei a escrever um livro sobre o assunto, que ainda não terminei", contou, ao G1.

A primeira sessão de cinema no Teatro Amazonas aconteceu menos de dois anos após os irmãos Lumiére apresentarem ao mundo o cinema. Mas se na Paris de 1895 as imagens causaram furor, o mesmo não pode ser dito sobre a recepção da sétima arte em Manaus, em abril de 1897. "Não foi algo que revolucionou a cidade, porque as imagens eram conhecidas pela elite. Não empolgou o teatro, que ainda estava em obras. O cinema passou por restaurantes, café-concertos antes de se firmar como atração", conta Lincoln.

A história dos cinemas de rua começa com o Cassino Teatro Julieta - futuro Cine Guarany -, em maio de 1907. Após isso, Manaus viu nascer o Polytheama, o Odeon, o Rio Branco, o Olympia e o Rio Negro. Alguns desses pioneiros duraram menos de um mês.

O '7' e o Cine Guarany

A pesquisa de Lincoln lhe rendeu muitas histórias curiosas acerca dos cinemas da capital. Um dos símbolos da Manaus do século 20, o Cine Guarany tem uma relação interessante com o número 7, por exemplo.

"O Guarany foi também Julieta e Alcazar. Os três nomes têm sete letras. Ele funcionou de 1907 a 1984, portanto, durou 77 anos. Na fachada dele, tinham sete arcos de cada lado e ele ficava na esquina da [avenida] Sete de Setembro", comenta.

O cinema se expandiu para outros pontos além do Centro da cidade. Entretanto, nenhuma sala foi mais popular que o Guarany, segundo Ed Lincoln. "Foi também o que durou mais [77 anos]. Ele tinha ingressos mais baratos, portões laterais, você entrava lá como queria, de sandália ou bermuda... [Pelo ingresso dos filmes] você podia trocar figurinha, revista... Todo dia 6 de agosto tinha festas de aniversário, com exibição de filmes e sorteio de brindes", explica.

Em 1936, surge o Cine Avenida, que, segundo Ed Lincoln, era considerado "de elite". Lá, o público pôde conhecer uma das figuras mais emblemáticas da capital amazonense: a dona Yayá. "Ele era famoso pela presença constante da dona Yayá e do marido dela, seu Aurélio. Eles ficavam vendo o movimento da bilheteria", lembra.

A maquiagem forte e a personalidade da dona Yayá também são lembradas por um frequentador ilustre do Cine Avenida. Integrante do movimento cineclubista de Manaus na década de 1960, o escritor Márcio Souza colocava em prática os ensinamentos cinematográficos como crítico. A função lhe rendeu passe permanente ao Avenida.

"Você ia assistir 'Vidas Secas' e [a dona Yayá] dizia ‘meu filho, você vai ver esse filme? Só tem miséria! É terrível!’”, recorda.

Após o surgimento do Avenida, Manaus ganhou outro cinema, em 1946. Citado no início desta reportagem, o Cine Eden pertencia a Aníbal Batista e Oscar Ramos Filho. Após um ano, ele foi vendido para a empresa Fontenele. Junto com a empresa A. Bernardino, elas eram os grandes responsáveis pela movimentação das salas de cinema na capital.

Crítica punida

Como acontece com todo crítico, "falar mal" de algum filme querido do público podia deixar Márcio Souza em uma posição difícil. No caso, ele era punido com a retirada do passe permanente - o que, para um estudante que não podia pagar a entrada do cinema com tanta frequência, poderia representar um grande prejuízo.

"Muitas vezes fiquei em maus lençóis, principalmente quando falava de algum filme como aquele [argentino] 'A Noiva' ou  [o italiano] 'Dio, Come Ti Amo'. Suspendiam meu passe e eu ficava três, quatro dias sem entrar”, diverte-se.

Quem frequentava

Assim como a turma de Márcio Souza, outros produtores culturais do Amazonas também viram surgir o interesse pela arte de forma paralela às filas quilométricas dos antigos cinemas de Manaus. É o caso do historiador e artista plástico Otoni Mesquita, que lembra com carinho das sessões que assistia na adolescência, nos anos 1970.

"O cinema era o principal lazer. Assim como a música, era outro momento. Os usuários de cinema eram pessoas que iam para entrar no ritual, onde a cortina se abria com as luzes e a música. Havia uma compenetração, diferente dos dias de hoje", compara.

Esse "ritual" citado por Otoni fez com que muitos nomes saltassem da cadeira de espectador para os bastidores da arte cinematográfica, como o cineasta Emerson Medina. "O clima era de um programa de fim de semana. Dependendo do filme, a fila era imensa, dobrava quarteirões. Mas não era bagunçado e não tinha celular para as pessoas ficarem ligando na hora da exibição. Eu peguei uma época de um público bem educado", lembra Medina, que destacou os cines Chaplin e Grande Otelo como os principais da época.

Também cineasta hoje em dia, Rodrigo Castro é outro que lembra com carinho dos cinemas do Centro de Manaus. Para ele, a chegada do fim de semana era esperada com ansiedade, justamente porque significava uma ou mais idas ao cinema.

"Era um evento. Não tínhamos muitas opções de diversão em Manaus. A sexta-feira ou o sábado era a certeza que eu ia me divertir no cinema - e isso engloba o dia que era [dedicado] para aquilo. Eu e meu pai acordávamos no sábado animados para limpar a casa. Às 12h a gente já almoçava, tomava banho, se arrumava para pegar um ônibus ou ir a pé para o cinema. Eu cansei de tirar sábados e ver dois, três filmes com o meu pai", conta.

O agitador cultural

A relação com o cinema acabou virando mais que uma profissão para Rodrigo. Com ela, ele ganhou um importante padrinho na carreira: Joaquim Marinho. Um dos principais agitadores culturais da Manaus entre os anos de 1950 e 1980, o português radicado na capital amazonense foi o responsável por modernizar os cinemas do Centro e transformar o 'blockbuster' norte-americano em parada obrigatória nos fins de semana.

Marinho recebeu o G1 em sua casa, no Centro da capital. Rodeado por filmes e livros, ele conta que não sente tanta nostalgia quando mencionam algum dos nove cinemas que teve na capital junto com o sócio, Antônio Gavinho.

"Eu continuo gostando e indo ao cinema. Infelizmente, os que eu tinha [terminaram] talvez porque eu tenha cansado de brigar para continuar. Cinema depende da movimentação do público. Eu não acredito que dê para retornar [com as salas de rua]", lamenta.

Nos cinemas que comandou de 1980 até o início do século 21, Marinho fazia questão de lançar ao menos um filme por semana. Os grandes sucessos da telona, que antes demoravam a estrear em Manaus, começaram a entrar em cartaz com menos intervalo de tempo em relação ao eixo Rio-São Paulo. Um exemplo é "O Exterminador do Futuro", de 1985. "Estreou [aqui] no mesmo mês. Eu tinha uma ligação com o pessoal de cinema do Rio de Janeiro e falei para eles que eu queria exibir [logo]. Eu já estava sabendo que o filme era um sucesso", afirma.

Outro investimento de Marinho era nos nomes dos cinemas. Para lançar o Cine Renato Aragão, por exemplo, ele convidou o humorista, que, na época, era campeão de bilheteria do cinema nacional.

Os cines Grande Otelo e Oscarito também contaram com aval dos homenageados. "O Grande Otelo meteu paletó e gravata e foi uma curtição. O do Oscarito foi autorizado pela viúva dele", conta.

Se a homenagem era internacional, não havia problema. Marinho também conseguia. "No Cine Chaplin a filha dele autorizou", disse, referindo-se à atriz Geraldine Chaplin.

Cartazes e criatividade

Imagine estar andando distraído e, do nada, sentir uma gota de sangue pingando em seu braço? Ou andar na rua e ser transportado para um clipe do Pink Floyd? Esse tipo de mágica era operada pelo artista plástico Marius Bell. Mais que meros pôsteres de filmes, ele criava painéis que podiam ser vistos à distância, por gente que às vezes nem pensava em ir ao cinema e que, atraída pelo colorido, resolvia dar uma chance ao filme em cartaz.

A história de Marius Bell com o cinema começou no fim da década de 1970, quando ele fez uma arte para um dos cinemas da empresa Bernardino. O filme era "O Peixe Assassino". "Era um painel meio sem jeito, eu ainda não dominava as cores primárias", lembra.

Mas foi com Marinho que o artista amazonense viveu o seu auge criativo. Desde o primeiro painel do filme "Bye Bye Brasil", em 1980, Bell fez mais de oito mil cartazes. Desses, ele só repetiu um, do filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos". "Eu pintava com uma velocidade danada. Se o filme não dava público, precisava ter outro cartaz logo para substituir. 'Manhattan', do Woody Allen, foi um desses. Deu duas ou três pessoas", revela.

O empenho que Marius colocava nos cartazes lhe rendeu algumas obras roubadas antes mesmo da estreia dos filmes. "O 'Rambo: A Missão', com o Sylvester Stallone, ia estrear no Grande Otelo. O painel era colocado à noite. Instalamos 23h e, quando é de manhã, o Marinho me liga perguntando onde estava o painel. Haviam levado. Isso também aconteceu com o do 'Um Príncipe em Nova York', no Cinema Novo", conta.

Outro "causo" que Marius recorda, entre boas risadas, é o que envolveu a visita do Papa João Paulo II a Manaus, no início da década de 1980. "No Chaplin tinha um cartaz do [filme adulto] 'Emmanuelle'. O Papa ia passar por lá. Não iria ficar bem. Eu fui chamado às pressas para botar uma 'tarja' com uma frase de boas vindas. Ele passou, abençoou e foi embora", diverte-se.

Na telona, o personagem-título de "Tubarão 3" aterrorizava os banhistas da Flórida. Em Manaus, o animal também causou problemas a quem frequentava o Cine Chaplin. "O Marinho perguntou se eu era capaz de fazer uma mandíbula. Um amigo dele que era químico preparou um líquido vermelho que ficava pingando. Teve um espectador que tomou um susto ao ver o 'sangue' caindo na camisa e foi reclamar. Só que a tinta saía pouco tempo depois", esclarece.

Após mais de 20 anos de sucessos, o fim dessa era dos cinemas comandados por Marinho se deu no início dos anos 2000. "Eu ia redesenhar o cartaz do 'Homem-Aranha'. Tinha umas ideias legais. 

Infelizmente, fui surpreendido pela notícia de que o Chaplin estava fechando as portas", comenta.
O apego com os cinemas do Centro impediu Marius de continuar frequentando os dos shoppings. Atualmente, a capital segue com 63 salas de projeção espalhadas nos centros de compras da cidade. "Não tem o mesmo encantamento da minha infância. O fascinante do cinema é que eu assistia não para pintar. [Os filmes] tinham uns temas gostosos. Os anos 1980 foram uma época marcante para nós todos que vivemos aquela época. Tanto o filme quanto a trilha eram bem trabalhados. Você se envolvia de graça no cinema", diz.

Esperança para o futuro?

Companheiro de Joaquim Marinho no movimento cineclubista dos anos 1960, Márcio Souza também não frequenta mais os cinemas de Manaus. Segundo ele, o comportamento dos espectadores e a qualidade dos filmes exibidos na atualidade não valem o ingresso pago.

"Não é possível ter mais essa cultura do cinema de rua, porque você não tem oferta. As pessoas estão hipnotizadas; se não tiver umas cinco explosões, ela não levanta o olho do celular. A diferença entre o cinema de rua e o de shopping não existe; é tudo projeção. O problema é que o Brasil sucumbiu aos interesses do grande capital internacional", lamenta o escritor.

Agora, ele está à frente de um projeto junto ao Sesc que pretende instalar um grande centro cultural na capital, com teatros, mediateca e uma sala de cinema, que deve ter exibição de filmes do circuito de arte. Para ele, isso é o mais próximo que o público amazonense pode ter do clima do cinema de rua vivenciado por ele e pelos seus contemporâneos, infelizmente, sem sair com a camisa manchada de tinta vermelha.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Sonho de gente grande



Publicado originalmente no blog Turismo e Desenvolvimento, em 25 de julho de 2017.

Sonho de gente grande

Por Leila Oliveira

O sonho em que você está no cinema assistindo a um filme é um grande indicativo de momentos maravilhosos que estão por vir, e o sonho veio...

Regilson Cavalcante Silva, paraibano, de Remígio, fez o seu sonho se tornar realidade. Um vislumbrado, que desde criança, frequentava o cinema da cidade, quando veio a ideia de ter seu próprio cinema. Já adulto usava os negativos de fotos de monóculo - fotos que eram vistas a olho nu, das décadas de 50/60 - utilizando fraldas de seus irmãos como pano de fundo como tela.

Assim nasceu o mecânico/empresário, viajando em seus objetivos e realizando seus sonhos, com recursos próprios, com força de vontade e muita determinação, tirando de seus parcos recursos como mecânico, para comprar seu primeira projetor, versão 35mm, e abrir seu cinema em 2012. Com um público pequeno, usou seu talento para "colocar na rua", como projetista, bilheteiro, eletricista, enfim, era o faz tudo em seu cinema, o CineRT, alugando mesmo prédio do antigo Cine São José, quando Remígio não era nem cidade, mas já exista a 7ª arte.

E Regilson, contrariando a tudo e todos, consegue resgatar o sonho de criança, agora realidade. E assim chega a 2017, com um cinema digitalizado, moderno, poltronas confortáveis, exibindo filmes que em todo cinema nacional exibe neste momento, com sessões de segunda a segunda, sempre com público cativo, e, com o Caminhos do Frio, esse público diversificou, visto ser uma atração turística da cidade.

Texto e imagens reproduzidos do blog: turismoedesenvolvimentopb.blogspot.com.br