quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Templo das Artes (Cine Alvorada, em Alagoas)


Publicado originalmente no site MALTANET, em 22/11/2018 

Templo das Artes ( Cine Alvorada)

Por João Neto Félix Mendes 

A grandiosidade do Cine Alvorada impressionava. Um prédio naquelas dimensões numa pequena cidade do sertão de Alagoas era um feito histórico. Construído nos anos 60 pelo santanense Sr. Tibúrcio Soares, no mesmo modelo do Cine Albatroz, no bairro Casa Amarela, na cidade do Recife. Esmero e ousadia foram marcas indeléveis do empresário. O engenheiro civil responsável pela obra foi o Sr. Carlos Wanderley. Sua fachada moderna e imponente se destacava na Praça Manoel Rodrigues da Rocha.

Inaugurado em 1962, com capacidade para 800 pessoas, com as presenças de diversas autoridades, dentre elas: o Padre Cirilo, Ex-Governador Arnon de Melo, Elesbão de Carvalho, Prefeito de Maravilha, Manoel Barros, João Yo Yô, Eraldo Barros e Cleto Duarte, além do proprietário, Tibúrcio Soares. O empreendimento elevou a cultura local.

Na entrada, cavaletes ofereciam à vista cartazes chamativos dos próximos lançamentos. Os sofás de napa azul-celeste, na charmosa sala de espera eram curvados, no lado direito de quem entrava. Design sofisticado, acompanhando a tendência romântica dos móveis dos ambientes chiques. Nas paredes, vários quadros de aviso exibiam cartazes das atrações vindouras. Naquela época só havia uma sessão por noite. Mais de uma projeção, somente aos sábados, domingos e datas festivas. Aos domingos havia uma exibição vespertina para o público infantojuvenil.

No lado esquerdo de quem entrava estava a lanchonete, com arquitetura moderna e ampla visão. Quem estava fora via quem estava dentro e vice-versa. Amplo sortimento de balas, guloseimas, lanches, refrigerantes e assemelhados.

Do hall de entrada e após a subida de vários degraus, adentrava-se à imensa sala de exibições por dois longos corredores. Impressionava a grandiosidade! As incontáveis filas de cadeiras de madeira marrom, com assentos dobradiços, tomavam conta do ambiente. No lado direito do prédio, ficavam as saídas para os banheiros masculinos e a saída de emergência. Os banheiros femininos estavam localizados abaixo da área da tela de projeção. A plataforma do espaço da tela também servia de palco para apresentações musicais e programas de auditório.

Assistimos aos shows dos artistas Balthazar e José Augusto, dentre outros. Vimos despontar o talento irrefutável do cantor Santanense Waldo Santana, além de grandes vozes dos nativos: Dotinha, Guilherme, Genivaldo Barbosa e Sílvio Bernardo, dentre outras. O animado comunicador e radialista Chico Soares comandava os programas de auditório com transmissão ao vivo da emissora de rádio local. Apresentações performáticas do cantor seresteiro, de voz gravíssima, Manoel Teles, vulgo “Caçador”. O cinema ficava lotado. O público vibrava com os seus artistas prediletos.

O ambiente artístico absorvia-nos, silenciava-nos e nos convidava à contemplação dos murais de pinturas sertanejas nas paredes laterais. Traços pretos delineavam vidas negras e inertes que ganhavam alma nos olhares dispersos de gente anônima, escancarando a realidade da idiossincrasia de quem somos, com sutileza e magia. Vozes do sertão gritavam e nos chamavam à meditação da condição humana através da exaltação da estética do simples, sem voz e sem vez!

Ficávamos boquiabertos com tanta beleza! Eram pinturas cubistas retratando o cotidiano do semiárido nordestino: vegetação, trabalho, lazer, feira, trovadores, utensílios, lavadeiras, donas de casa, vaquejada, artesanato, caça, zabumbeiros, rio, pesca, água, homens, mulheres e costumes da roça. Os desenhos e as cores encantavam até os incrédulos. Só se deixava de olhar para os murais quando as luzes se apagavam sinalizando início da sessão, obrigando-nos a assistir ao filme. Não havia outro jeito, era quase uma catarse!

Os murais tinham aproximadamente 5 x 30 m(150m²) de cada lado. Para se ter ideia dessas dimensões, “Guerra e Paz” são dois painéis de, aproximadamente, 14 x 10 m(140m²) cada um, produzidos pelo pintor brasileiro Cândido Portinari, entre 1952 e 1956. Os painéis foram encomendados pelo Governo Brasileiro para presentear a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York.

Com o auxílio de Enrico Bianco e de Maria Luiza Leão, os painéis “Guerra e Paz” foram pintados a óleo sobre madeira compensada naval. Enquanto um é uma representação da guerra, o outro representa a paz. Por seu trabalho com os painéis, Portinari foi agraciado em 1956 com o prêmio concedido pela Solomon Guggenheim Foundation de Nova York.

No caso do cinema, obra magistral do singular pintor caruaruense, Senhor Reginaldo Luís de França, falecido. Restaram memórias, fotos, reconhecimento e gratidão do povo santanense ao pintor que nos proporcionou tantos momentos de sonhos, silêncios e o olhar inquieto de admiração.

Segundo seu filho, herdeiro da arte e do nome, seu pai era um artífice de placas luminosas de acrílico, que andava pelos sertões divulgando, vendendo e instalando a novidade nos estabelecimentos comerciais. Nas horas vagas, exercia o ofício da pintura, sua grande vocação.

Não há registros de quanto tempo durou o trabalho ou se alguém o auxiliou. Segundo o filho, ele mesmo misturava as cores primárias para criar novas tonalidades de tinta óleo a serem utilizadas nas pinturas. O certo é que Seu Tibúrcio o escolheu porque era o melhor pintor que havia na região.

Autor de inúmeras obras tombadas pelo Patrimônio Cultural de Pernambuco, dentre as quais citamos painel em exposição no “Museu da Feira”, na cidade de Caruaru. Há outras obras espalhadas pelo Brasil e até no Exterior.

Da sala de exibições, no lado esquerdo de quem entrava, havia outro lanço de escadas ascendentes para o mezanino, que era ambiente com capacidade mais ou menos de 70 pessoas. Do mezanino, outra subida de degraus conduzia à cabine de projeções.

Na sala de equipamentos, 02 máquinas Philips, de fabricação Holandesa, projetavam as imagens na tela a mais de 30 metros de distância.

As películas dos filmes eram armazenadas em caixas metálicas para evitar danos ao material e garantir proteção nas viagens de uma cidade para outra. Os rolos de fitas de um filme de um hora e meia eram guardados em cinco ou seis caixas metálicas. Atualmente os filmes tem armazenamento digital e distribuição via internet.

O projecionista é um profissional solitário e essencial nas salas de cinema. Ofício de controlar e ajustar equipamentos na cabine de projeções. Os projecionistas desde a inauguração, foram José Gomes, que também era eletrotécnico, ainda em atividade e Dema, falecido. Caso curioso é que o Dema foi encontrado morto na cabine de projeções nos anos 90, tal era seu apego e dedicação ao ofício. Nessa época, o cine já havia paralisado as atividades, mas ainda mantinha a estrutura original, embora bastante depreciada.

Quem quiser conhecer a visão poética do ofício de projecionista veja o filme “Cinema Paradiso” produção franco-italiano de 1988, do gênero comédia dramática, escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore e musicado por Ennio Morricone. Resumindo: Salvatore Di Vita é um cineasta bem sucedido que vive em Roma. Um dia ele recebe um telefonema de sua mãe avisando que Alfredo está morto. A menção deste nome traz lembranças de sua infância e, principalmente, do “Cinema Paradiso”, para onde Salvatore, então chamado de Totó, fugia sempre que podia, depois que terminava a missa (ele era coroinha). No começo, ele costumava espreitar as projeções através das cortinas do cinema, que o padre via primeiro para censurar as imagens que possuíam beijos, e fazia companhia a Alfredo, o projecionista. Foi ali que Totó aprendeu a amar o cinema. Assistam, o filme é sensacional!

A tela era enorme! Uma cortina de tecido azul-marinho a embelezava. De repente, as luzes se apagavam. O som forte estremecia tudo. A mesma música de sempre tocava ao abrir as cortinas. Os corações se aceleravam impulsionados pela força da emoção! “Il Silenzio”, de 1965, música de Nini Rosso (1926/1994) compositor e trompetista de jazz italiano. Ela parecia empurrar as cortinas azuis que escondiam e protegiam a magia da grande tela branca.

Enquanto a música era executada e a cortina se descerrava, três quadrantes luminosos gigantes no teto nas cores amarelo, vermelho e azul iam se acendendo um a um, emitindo um som que parecia toque grave de um grande sino. O ritual sonoro e luminoso estava sincronizado com o tempo de abertura das cortinas e a execução da melodia. Era espetacular!

Os primeiros filmes exibidos, quando da inauguração em 1962, foram: “Os Paladinos de França”(1956) e “Tormenta sobre o Nilo” (1955).

Foto painel em homenagem ao cinema e aos familiares, na residência de Rosiane Queiroz, 
filha do empresário Tibúrcio Soares, falecido. ( Acervo: Rosiane Queiroz, 2018)

Dependendo da “fita”, a fila dobrava a esquina, aguardando o atendimento das duas bilheterias. Como sempre, os filmes mais famosos ficavam vários dias em cartaz. Foram os casos de “Doutor Jivago”, com Omar Sharif e Julie Christie, em 1965; “Dio Come Ti Amo”, com Gigliola Cinquetti e Mark Damon, em 1966; “2001, uma odisseia no espaço”; “O Dólar Furado”, com Giuliano Gemma, Ida Galli, em 1965; com o tema marcante “Assim falou Zaratustra”, em 1969; a série “Poderoso Chefão”, iniciada em 1972; “O Exorcista”, em 1974, com atuação magistral de Linda Blair e efeitos arrepiantes.

Seu Costinha, rigoroso comissário de menores, não permitia descumprimento da idade de censura. Vários meninos tentaram assistir ao filme “O Exorcista”, censura 18 anos. Todos foram impedidos, inclusive eu.

Logo que se chegava, antes de começar qualquer sessão, o som da sala tocava os sucessos da época que inebriavam os expectadores. Muita gente bonita descia pelos dois corredores, observando as pessoas, especialmente casais e grupos de amigos, nas cadeiras, conversando. A maioria saboreando chicletes “Adams”, comprados na lanchonete da elegante sala de espera.

Mesmo durante o dia, aos domingos, antes da matinê, o movimento era grande. As crianças faziam o maior furdunço, enquanto os meninos e as meninas adolescentes iam à lanchonete do cinema para tomar sorvete e refrigerantes; guaraná “antarctica” da garrafinha, coca-cola e crush.

O bom da matinê era a torcida. Quando o mocinho ficava em apuros com índios e ou bandidos de toda a espécie, chegava a ajuda da cavalaria, anunciada ao som de um trompete agudo e forte. Todo mundo batia os pés no chão e o alarido ganhava dimensões da vibração de gol, numa grande conquista.

Ir ao cinema não era só um meio de assistir a um filme. Era um jeito de ver gente bonita, namorar, paquerar, curtir de forma especial o final de semana. Havia todo um ritual; a melhor roupa, o perfume, o melhor sapato, com a namorada ou amigos, a noite sempre prometia...

Em 1970, a família do Sr. Tibúrcio Soares mudou-se para Maceió. O cinema foi locado ao empresário Paulo Ferreira, inicialmente. A venda foi concretizada alguns anos depois. Nos anos 80, outros administradores tentaram manter a mesma qualidade dos serviços, mas não foi possível. A estrutura era muito grande para se manter rentável.

Os hábitos e os costumes foram mudando. A ascenção tecnológica da TV e vídeo cassete influenciou o declínio do cinema em cidades interioranas. No final dos anos 90 as atividades já estavam totalmente paralisadas. Por um período foi templo e eis que um milagre aconteceu:

Numa noite enluarada de verão, enquanto a cidade dormia, um clarão prateado invadiu o salão principal. Ao mesmo tempo, começou uma chuva fina criadeira, molhando todas as pinturas que escorriam as tintas pretas e disformes para o chão. Nesse ínterim, a chuva de prata animou as gravuras e todas ganharam vida num espectro prateado e transparente. Era um milagre da transfiguração poética. E, assim, as figuras tomaram as formas originais de seres animados e encantados. Uma a uma, enfileiradas, foram em direção à saída do prédio, prestando reverência ao Seu Tibúrcio, Seu Reginaldo Pintor e ao Dema. Integraram-se ao cenário da vida real em lugares que não se sabe. Tornaram-se guardiões da arte.

Naquela madrugada de luz e mistério, embora quase ninguém saiba, diz-se que, uma vez por ano, durante a lua cheia do mês de novembro, tudo retorna ao lugar original reiniciando o ritual silenciosamente, condição do Mestre Criador para que continuem o itinerário de arte, êxtase, peregrinação e transcendência.

Através do cinema aprendemos a mirar pra dentro de nós e ver o mundo com outros olhos, de outras perspectivas. Aprendemos a sonhar e acreditar que a arte permanecerá. Mesmo que não haja mais Cine Alvorada, mesmo sem as pinturas maravilhosas de Seu Reginaldo, dos shows e dos programas de auditório, jamais esqueceremos da magia do querido Cine Alvorada. Mesmo quando a gente não estiver mais aqui estas palavras continuarão a navegar indefinidamente nas ondas invisíveis da era digital e da informação, onde quase tudo existe e resiste às intempéries.

Entretanto, nada terá mais valor do que o testemunho de um olhar anônimo, no meio da multidão, que revolucionou a si mesmo com o auxílio das artes.

João Neto Felix Mendes/Outono/2018

Texto e imagens reproduzidos do site: maltanet.com.br

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Projecionista Mário de Jesus Gonçalves Pereira, do Cine Primor


Cine Primor – Centro/RJ

Publicado em 17 de fevereiro de 2018 por Renato C. Santana

CINE PRIMOR

Endereço. Avenida Passos, 119/121 – Centro

Alt. razão comercial: Cinema Primor

Empresa exibidora. Empresa Celestino Abreu

Reinaugurado em 14/12/1938 (prédio novo)

Lotação.: 1704 lugares (1941)

Funcionamento. 28/05/1916 até 06/07/1958

Projetores 35 mm da marca Century

O Primor ocupava uma grande área entre as avenidas Passos e Marechal Floriano, onde hoje existe um prédio comercial

NOTA DE FALECIMENTO

É com profundo pesar que comunicamos o falecimento do Sr. Mario de Jesus Gonçalves Pereira, aos 80 anos. Mais conhecido como seu Mario, que veio a óbito no dia 31 de janeiro na cidade de Nilópolis.

Operador cinematográfico, começou a trabalhar em cinema como ajudante nos anos 50, no Cine Santo Afonso na Tijuca, onde o conheceu o ainda garoto Ivo raposo. Dessa época até a aposentadoria trabalhou em vários cinemas do subúrbio, como: o cine São Lucas (Parada de Lucas), Cine Leopoldina, Cine Brás de Pina, Cine Santa Emília (Marechal Hermes) entre outros, vindo a se aposentar no Art Casa Shopping da Barra. Também trabalhou como operador em algumas edições do Festival CineMúsica de Conservatória, onde tive o prazer de conhece-lo com suas histórias de vida como projecionista.

Vai com Deus amigo Mário


Em 1988, no lançamento do filme Rambo III, no Art Casa Shopping, em um dos raros momentos que saia da cabine de projeção.

Abaixo, já aposentado em sua casa em Nilópolis com seu projetor de cinema 16 mm Varimex
Fotos.: cine Primor (Revista Filme Cultura)


Texto e imagens reproduzidos do site: cinefechadoparareforma.wordpress.com

sábado, 26 de janeiro de 2019

A Trajetória das Salas de Cinema


Texto publicado originalmente no site MNEMOCINE, em 22 Julho 2008

A Trajetória das Salas de Cinema*

Por Simone Dias

No início do século São Paulo assistia com orgulho a velocidade das construções de seus edifícios, vivia o burburinho de seus cafés e, principalmente, a suntuosidade de suas salas de cinema: os palácios cinematográficos. A capital paulista abrigava as mais requintadas salas da América Latina e a efervescência cultural e artística da urbe estava diretamente ligada à sétima arte.

Com o tempo, no entanto, o cinema ´físico´ se transformou. Surgiram os cineclubes, as salas do cinema arte. Os palácios monumentais, aos poucos, cederam espaço para templos evangélicos. E, no final dos anos 90, um paradoxo: a cidade e o mundo recebem o requinte tecnológico do sistema Multiplex mas ainda convivem com a tradição mambembe.

Números de magia, engolidores de fogo e até mulheres barbadas. As primeiras projeções de cinema surgiram em meio às grandes folias dos espetáculos circenses e causavam frenesi entre seu público variado. A primeira exibição cinematográfica pública paga, no mundo, aconteceu em 1895, em um café parisiense. "Aquela que viria a ser um das mais importantes formas de comunicação e arte do século XX, veio ao mundo em um ambiente modesto: uma tela de tecido, uma centena de cadeiras, um aparelho de projeção colocado sobre um banco e, à entrada, uma faixa anunciando ‘Cinematógrafo Lumiére, entrada 1 franco", descreve Osvaldo Emery, arquiteto do Centro de Tecnologia Audiovisual da Funarte.

Modestos comerciantes da época, principalmente donos de mercearias, costumavam ceder o espaço - que ficava ocioso à noite ou nos finais de semana – para as apresentações assinadas pelos cinematógrafos ambulantes (ver box do Cine Mambembe). Era um transtorno que valia a pena. Clientes, parentes e vizinhos dos comerciantes não se continham de tanto encantamento. Do improviso de uma projeção simples, que acontecia entre uma estante de mercadorias e outra, a atividade de exibição sinalizava um bom negócio. "A rápida popularização do cinema por todo o mundo resultou na necessidade de se aumentar os pontos de exibição de filmes", completa Emery. No entanto, segundo ele, o desconhecimento dos arquitetos em relação à especificidade da nova mídia, fez com que os primeiros espaços construídos para a exibição de filmes fossem inspirados no teatro. "Considerava-se, então, que um cinema era apenas um teatro ou auditório no que se substitui o palco pela tela e se instala um projetor na extremidade oposta", considera o arquiteto.

Salas em São Paulo

Foi assim, como majestosos cines-teatros que o cinema reinou nas primeiras décadas deste século, em São Paulo. Por isso, os palácios cinematográficos são peças fundamentais na resgate da história social da cidade.

"A Mania cinematográfica não cessará em São Paulo enquanto existir o Bijou-Theatre, o lindo teatrinho que a empresa Serrador transformou no ponto obrigatório de rendez-vouz do que de mais chic há na nossa sociedade".

O Comércio de São Paulo 15.06.1910

Antigos teatros abriam suas portas para o grande público e a partir da criação do primeiro cinema na cidade, o Bijou, em 1907, outros nomes foram compondo a ‘sinfonia’ da metrópole. Rex, Roxy, Imperial, Plaza, Odeon tornaram-se populares e atraiam verdadeiras multidões.

O escritor e contador aposentado, Gustavo Venturi, de 89 anos, lembra com nostalgia desse tempo. "No final da década de 20 o cinema estava no auge e muitos teatros se transformaram em cinema", recorda-se. Para ele, outro fato importante de ser lembrado da época é a localização de alguns cinemas, como os inesquecíveis cinemas do Brás.

É que no Brasil, assim como nos Estados Unidos e Europa, nas primeiras décadas de exibição, o cinema era cada vez mais presente na vida das pessoas, não só pela arte, mas também pelo fácil acesso. Haviam salas espalhadas por toda a cidade. Se o Centro mantinha o glamour dos palácios exibidores das ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro, os bairros mais afastados também tinham motivo de orgulho, já que sediavam outros ´templos´. O historiador e jornalista Inimá Simões, em Salas de Cinema (da Secretaria de Estado da Cultura, 1990), uma raridade de registro do gênero, revela que, nos anos 40 e 50, as salas de cinema da cidade eram frequentadas com uma assiduidade que poucas cidades do mundo podem ter, hoje, a seu crédito.

O Brás, por exemplo, não é lembrado à toa por Venturi. Era um dos bairros mais populosos da cidade, era o segundo local em número de salas e bilheteria. "Para se ter uma idéia, em 43, os três maiores cinemas do bairro - Universo, Piratininga e Babylônia - ofereciam, juntos, cerca de 12 mil assentos. Na época, os cinemas eram projetados para receber de dois a cinco mil espectadores cada", diz Inimá. E não faltavam atrações para encher a platéia. A cidade buscava se superar. No Cine República, por exemplo, havia a maior tela do mundo, com 250 metros quadrados.

Assim, a sétima arte nos aproximava do primeiro mundo, colocando-nos em contato com padrões de comportamento e novas regras. E o evento social que o cinema representava na época, a partir daquele sofisticado circuito exibidor, mostrou o poder da São Paulo que se transformava numa das cidades mais cobiçadas da América do Sul. O multiculturalismo era evidente na metrópole. Na música, o tango argentino e o maxixe, no dia-a-dia o cinema e o futebol dividiam as atenções dos jovens. "Depois da guerra e com sua incorporação ao serviço de táxis urbanos, os automóveis vão ter o seu boom ao longo da década de 20", diz Nicolau Sevcenko em Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo, Sociedade e Cultura nos Frementes anos 20.

E a metrópole, por estar em compasso com outros países do mundo, era rota obrigatória de filmes estrangeiros. As produções argentinas, mexicanas, européias tinham espaço cativo nas seleções dos exibidores, embora a hegemonia dos filmes americanos fosse evidente.

Números de salas

São Paulo conquistava os distribuidores também pelo seu número de salas. De acordo com dados da Secretaria Para o Desenvolvimento do Audiovisual do Ministério da Cultura em 1953 existiam aproximadamente 3.200 salas no país. Hoje existem cerca de 1.300.
O glamour dos palácios majestosos durou até meados da década de 50, quando a sala de cinema sentiu um pequeno afastamento do público, culminando com o fechamento de algumas delas. O descaso dos proprietários de salas de cinema com a conservação e qualidade dos filmes apresentados afetou rapidamente os grandes cinemas de bairro como o Brás, até então um ótimo negócio cinematográfico. Estudiosos da época atribuíram a queda de público e fechamento de algumas casas ao advento da televisão, no início de 50. Com a grande expansão do novo veículo, em 57 a perda do público de cinema leva a uma forte crise do mercado. É nesse período que os palácios cinematográficos perdem seu prestígio, coincidindo com o início da degradação do Centro.

E o cinema, como referência de lazer coletivo vai perdendo sua força, passando por um processo de adaptação e desdobramento. Nas décadas seguintes, as salas tradicionais foram se transformando em templos evangélicos, bancos, bingos. Algumas passaram a exibir apenas filmes americanos e os cinéfilos que se opunham à forte hegemonia americana praticavam a chamada ´resistência cultural´. Adhemar de Oliveira, que foi programador do Cineclube Bexiga e fundou o Espaço Unibanco, entre outras salas pelo país, diz que a intenção do grupo de resistência cultural, organizando os espaços chamados cineclubes, era a busca pela democracia. "Estávamos na época da ditadura e aquelas salas tinham o propósito de servir como resistência cultural", revela.

André Gatti, pesquisador da equipe técnica de Cinema da Divisão de Pesquisas do Centro Cultural São Paulo, concorda. Ele também trabalhou em cineclubes de 84 a 93 e disse que o ´cineclubismo´ passou por várias fases em São Paulo. " Houve o período em que a igreja estava envolvida, promovendo os cineclubes como centros de jovens. Cada cineclube era uma entidade cultural, fazia parte de um movimento alternativo, que durou até o começo dos anos 90", explica André, que atuou como programador da sala Oscarito e Elétrico durante cinco anos.

Novas salas – A qualidade e quantidade de ofertas de salas de cinema em uma cidade é a ponte com o grande público. Segundo informações divulgadas pela empresa de consultoria Filme B, responsável pela publicação de boletins sobre o mercado cinematográfico, em 98 a exibição deu um salto. A estimativa do total de salas de cinemas, incluindo os independentes, é de 1.300 salas. O Grupo Severiano Ribeiro é o principal exibidor, com 172 salas. Em seguida vem o grupo Cinemark, com 147; Paris, com 78 e a Haway, com 62 e UCI, com 61 salas. "Nosso mercado exibidor está sofrendo grandes transformações desde a chegada do Multiplex, um modelo de cinema que incrementou o aumento da frequência de cinema no mundo todo", diz Paulo Sérgio Almeida, cineasta responsável pela Filme B.

André Gatti disse que o final do cineclubismo e o surgimento do Multiplex se esbarram. " É uma coincidência histórica, porque o fechamento das salas de cineclube aconteceu por especulação imobiliária – já que os responsáveis pelas salas não eram donos dos imóveis - e também por causa da concorrência com a mídia alternativa, como TV a Cabo e o vídeo.

Multiplex

Os ´shoppings de cinema´, ou centros de cinema - com 8 a 14 salas de exibição - também são chamados de Centros de Exibição Cinematográfica Multiplex (Cecm). Esses espaços têm causado uma verdadeira revolução no mercado exibidor. As inovações que este conceito de cinema traz não se limitam ao número de salas, mas também à qualidade de som e imagem. As telas são gigantes, chamadas wall to wall e o sistema de projeção utiliza equipamentos automáticos de última geração, controlando, inclusive, as luzes das salas. A Cinemark foi a primeira a abrir um Multiplex no país, em São José dos Campos, em 97, seguido pelo lançamento, no mesmo ano, em Santo André, região do Grande ABC. A UCI Paramount\Universal, empresa distribuidora e gerenciadora de canais de TV e outros serviços nos Estados Unidos, há quase três anos no Brasil, já tem 61 salas inauguradas na Bahia, Paraná, Pernambuco e pelo interior de São Paulo.

As salas da Cinemark e UCI tem isolamento acústico, sistema de som ultra- estéreo e estão programadas para receber som digital, entre eles DTS (Digital Theatre System), Dolby Digital e SDDS (Sony Dynamic Digital System). A Cinemark pretende, só neste ano, faturar US$ 50 milhões.

Em 82, no Canadá, surgiu o modelo dessas ‘gigantes’ que chegaria ao restante do mundo. " O crescimento do Multiplex deu-se com a mesma volúpia de uma rede fast-food ", diz André Gatti. Segundo ele, na França, por exemplo, em 10 anos, os ‘Multiplexes’ abocanharam mais de 40% da renda do mercado francês. Já no Reino Unido, o Multiplex contribuiu para o salto da venda de ingressos de 54 milhões , em 84, para 139 milhões, em 97. " A exibição só segue o modelo da produção, concentrando maior número de salas nas mãos de poucas empresas. É o efeito concentracionista", diz. Já para Cláudio Willer, escritor e coordenador da formação cultural da Secretaria Municipal de Cultura, o modelo Multiplex cria oportunidade de lazer para as comunidades que sempre tiveram poucas salas de cinema e, ainda, serve como modelo para que as outras salas acompanhem os investimentos em equipamentos de alta qualidade.

Exterior

Segundo Leon Cakoff, organizador da Mostra Internacional de Cinema, a atividade exibidora em outros países é bem organizada. No Brasil, entretanto, segundo ele, não existe investimentos nesse setor. Em 77, quando trabalhava como programador no Masp, Leon, que é jornalista, resolveu apostar em uma mostra associada às comemorações dos 30 anos do museu. O desafio foi grande, mas Leon considerava importante trazer para o circuito exibidor paulistano produções de cineastas consagrados mundialmente. Hoje, além de já ter um saldo de ciclos especiais com personagens da história do cinema e exibição de seus filmes, Leon orgulha-se de trazer, todo ano para o Cinearte, Estação Vitrine, Cinesesc, Masp, Maksoud Plaza, MIS, SP Market, Cinemateca e Espaço Unibanco, cerca de 450 exibições em 15 dias, com um volume de 150 filmes novos para um público de cerca de 200 mil pessoas.

Com a experiência de distribuidor e de idealizador desse consagrado evento, Leon acredita que o Brasil é um país privilegiado que precisa aprender a apostar na organização do circuito exibidor. " O Sesc, por exemplo, poderia ter um cinema em cada unidade", dispara. Para Cláudio Willer, a situação de São Paulo, comparada às outras metrópoles que conhece, não está ruim. "Pessoas como o Leon e o Adhemar, por exemplo, conseguiram definir um padrão de espectador de cinema na direção do pluralismo e diversidade, ampliando mercado até para produções européias e asiáticas", diz.

Saída para investidores

A dica de Adhemar de Oliveira é que os exibidores (ou interessados) também contem com o marketing cultural para levantar recursos. "Em 93 transformei uma sala em três ultra-modernas investindo R$ 1,5 milhão que veio de uma empresa", explica.

Na verdade, o grande problema, segundo Adhemar, é que falta pensar em estratégias para melhorar o circuito exibidor e também um pouco de ânimo. Adhemar também aposta na força das parcerias da iniciativa privada com o poder público. "Por que não a participação da Prefeitura, por exemplo, na compra do terreno, ou até mesmo o Governo do Estado participando, via Rouanet? Sem falar na importância da abertura de salas nas universidades, por exemplo", explica.

Circuito exibidor & cineastas

Para o cineasta Beto Brant, diretor de Os Matadores e Ação Entre Amigos, quem produz um filme quer exibir no grande circuito. No entanto, com as dificuldades e falta de apoio, os cineastas não chegam nem ao menos no ´pequeno´circuito. Como resolver? Segundo Beto, seus filmes já romperam muitas fronteiras pela sua obstinação. "Eu levo para todo o lado", diz.

Formação de público

José Carlos Avellar, da Riofilme, distribuidora carioca, responsável pelo lançamento da maior parte das produções nacionais, considera que o momento é de grandes transformações para a cinematografia brasileira. "As salas simplesmente terão de se definir como salas de cinema. Até 60, 70, o cinema ainda ficava esperando os filmes. Hoje, independente do tamanho da sala o importante é a formação do público".

Avellar ressalta, ainda, que a formação pode ser feita pelo distribuidor - para convencer o dono do cinema – e até pelos próprios cineastas, como faz Beto Brant. Para ele um sistema como o Multiplex não forma espectador porque é um modelo de sala que serve a grande indústria do cinema. "Antigamente o público era mais crítico. Hoje, é preciso que a sala apresente o filme para o público. Além disso, o cinema tem de agir para formar esse público. Não se pode mais esperar", explica. Afinal, é evidente que num país onde existe uma sala de cinema para cada 120 mil habitantes – enquanto nos Estados Unidos existe uma para cada 10 mil - há muito o que se fazer. Tirar o circuito exibidor da ‘sala de espera’ dos investidores é uma delas.

O Cinema nas Ruas

A ousadia dos cinematógrafos mambembes não existe só nas telas ou livros do início do século. Há três anos o casal de cineastas Luiz Bolognese e Laís Bodanzky, de São Paulo, desapontados com a falta de espaços para a exibição de filmes brasileiros decidiu apostar no modelo do passado: a ousadia das apresentações cinematográficas em espaços públicos. Com o projeto Cine Mambembe eles apresentam curtas-metragens pelas ruas, praças, entre outros espaços abertos de todo o Brasil. Uma proposta que permite ao casal levar a magia do cinema para quem nunca pôde vivenciá-la. "Existe até hoje no Brasil muitos jovens nunca viram cinema. Além disso, há os mais velhos que só assistiram o cinema projetado pelos caixeiros viajantes, que até os anos 70 viajavam muito pelo país, principalmente pelas feiras do nordeste", diz Luiz. Com um projetor 16 mm e uma tela de 1.80 m x 2. 40 m já atingiu um público de 20 mil pessoas em 68 sessões que aconteceram ao longo de três anos entre os estados de São Paulo ao do Amazonas. "Quando o cinema surgiu era um espetáculo de multidão, popular. Hoje, o povo quer ver cinema, gosta, mas não tem dinheiro para pagar o ingresso", reflete.

Em 2000 o casal irá lançar um novo projeto: Caminhão Cine Mambembe. Trata-se de um caminhão que irá percorrer o país exibindo longas-metragens brasileiros em praças públicas. O carro terá um projetor portátil 35mm e uma tela de 4m x 6m e apresentará duas sessões por semana em diferentes cidades do país.

Para o conforto do público durante as exibições, Luiz disse que está providenciando 500 cadeiras que poderão ser ocupadas pelos espectadores. "O lugar do cinema é na tela. Desta vez, com o caminhão, teremos uma tela maior e a novidade também é que iremos apresentar os longas nacionais", comenta Luiz. Com o projeto aprovado para as leis de incentivo do Ministério da Cultura o casal busca patrocínio de empresas. "É só abrir a janela da nossa casa para perceber que lá fora tem muita gente que tem pouco acesso aos bens culturais. Com projetos como o Cine mambmembe e o Caminhão Cine Mambembe estamos garantindo que o povo também possa ter acesso ao cinema", diz Luiz.

* Publicada originalmente na revista SESC de outubro 99

Texto reproduzido do site: mnemocine.com.br

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Mendel Aronis é o faz-tudo do cinema


''Sempre quis seguir a carreira artística, ser 
um artista de Hollywood dos velhos tempos. Não 
virei ator, mas trabalho no cinema''

Texto publicado originalmente no site Folha de Londrina, em 13/03/2007

Mendel Aronis é o faz-tudo do cinema

Com 73 anos, ele é gerente, porteiro, bilheteiro, pipoqueiro quando é preciso, operador de projeção e programador

Por Denise Ribeiro

Mendel Aronis tem 73 anos, oito deles dedicados ao trabalho como gerente do Cine Novo Batel, no Shopping Novo Batel, em Curitiba. Lá ele faz tudo, além de gerente, é porteiro, bilheteiro, pipoqueiro quando é preciso, operador de projeção e programador. Veio de Porto Alegre para Curitiba em 1997 para ficar mais perto dos filhos e foi aqui que realizou o desejo de trabalhar com a sétima arte, como conta na entrevista concedida à FOLHA.

Folha de Londrina Como o senhor começou a trabalhar com cinema?

Mendel Aronis Sempre gostei de cinema, desde a tenra idade era apaixonado pelo Tarzan. E aí sempre quis seguir a carreira artística, ser um artista de Hollywood dos velhos tempos, do Humphrey Bogard e outros mais. Não virei ator mas trabalho no cinema (risos). Meu filho, que é diretor do Festival de Teatro de Curitiba, com os sócios dele alugaram o cinema por três meses para trabalharem com filmes de arte, alternativos. Como eu não estava fazendo nada, meu filho disse: ''Pai, vai lá e vê o borderô (arrecadação da bilheteria), recolhe o dinheiro''. Foi aí que eu comecei e acabei me apaixonando pelo maquinário. Depois de três meses, o dono do Shopping me convidou para gerenciar o cinema e eu aceitei. Foi inaugurado na minha mão no dia 12 de março de 1999. De lá pra cá, estamos indo. Estão sendo feitas mais quatro salas, daí vai dar para trabalhar melhor.

FL Como era esse cinema dos velhos tempos?

Aronis Era um espetáculo. Não tinha a tecnologia que tem atualmente. Naquela época não tinha televisão. Hoje tem os telões dentro de casa. A diversão era ir aos cinemas no fim de semana e nas noites da semana também. No início das sessões, a maioria dos cinemas tinha uma cortina na tela. Antes de iniciar a sessão, dava um sinal de três gongos. Na terceira vez, a cortina começava a se abrir, apagavam as luzes e começava o espetáculo, porque era um espetáculo naquela época, em 1942. Tinha aquele jornal, que dava as notícias da guerra e do futebol também antes do início da sessão. Dá saudade.

FL O senhor lembra da primeira vez que entrou em uma sala de cinema?

Aronis Eu tinha 7 ou 8 anos.

FL Qual foi a sensação?

Aronis Assustadora. Fiquei apavorado, mas depois adorei a coisa e continuei indo aos cinemas. Aí, a gente trocava gibi, antes de entrar, na rua ali, fazia troca de bolinha de gude, era uma inocência total. E a tranquilidade, não havia violência como tem hoje, né. Acabaram as salas de cinema de rua justamente por isso. Com o advento dos shoppings existe maior tranquilidade e olhe lá.

FL O senhor faz tudo aqui?

Aronis Faço. Sou gerente, porteiro, bilheteiro, faço pipoca quando a moça não vem. Sou operador de projeção também e programador, junto com o proprietário. Sou um faz-tudo.

FL Como é a sua rotina de trabalho?

Aronis O pessoal que frequenta aí é tudo gente conhecida já, dizem que eu sou igual o cara do Cinema Paradiso. Sou eu em pessoa. Sou o gerente e faço tudo também. Estou aqui todos os dias, todas as noites, de segunda a domingo, e tem sessões especiais também. Com esse filme ''Uma verdade incoveniente'', que é um filme instrutivo sobre o aquecimento global, a gente tem feito sessões pela manhã para escolas e empresas. A gente faz também programação para crianças de 4 anos pra cima, com desenhos infantis, e agenda com as escolas.

FL Como é a relação do senhor com o público do cinema?

Aronis É bastante íntima até, porque a gente fala de tudo que é assunto. Se ouve bastante histórias. E eu sou muito aberto pra ouvir e falar também. Modéstia à parte o pessoal me adora aí, principalmente as velhinhas (risos). Aqui, principalmente na primeira sessão, é o pessoal mais velho que vem. Ficam preocupados: ''onde é que o senhor andava?''. Tirei 20 dias de férias e aí senti que eu faço falta. A facilidade de papo faz com que as pessoas fiquem gostando de falar comigo. Sou bastante comunicativo e alegre sempre, sempre. E eles dão palpite na programação também. Nosso relacionamento com o público é muito chegado.

FL O que representa o cinema para o senhor?

Aronis É viver. É uma dedicação que ocupa o tempo da gente pra não pensar em bobagem, e faz com que a vida continue.

FL Se depender do senhor, o senhor não sai mais daqui?

Aronis Não, só morto (risos). É não parar na vida, né, porque se parar enferruja. Ajuda a viver.

FL Com as novas salas, a proximidade com o público vai continuar a mesma?

Aronis Vai continuar tudo como antes, sou um cara que não muda (risos).

Texto reproduzido do site: folhadelondrina.com.br

domingo, 13 de janeiro de 2019

Há 50 anos, jovens lotavam sessões de cinemas em Cuiabá

Cine Parisien lotava, principalmente nas sessões do final de semana (Foto: Arquivo)

Publicado originalmente no site G1 Globo, em 08/04/2014 

Há 50 anos, jovens lotavam sessões de cinemas em Cuiabá

Cinema era a grande atração dos jovens daquela época, diz escritor.

Com a chegada da TV, cinemas fecharam as portas por falta de público.

Por Pollyana Araújo  (Do G1 MT)

A grande diversão dos jovens de Cuiabá entre as décadas de 30 e 60 era o cinema, que ditava os costumes da época. Um desses frequentadores, que, de tão atraído pelo cinema, fez estágio em um deles aos 14 anos, conta que as sessões lotavam e que a 'moda e os modos' dos cuiabanos seguiam os padrões dos filmes exibidos nas telonas. Aníbal Alencastro, que hoje tem 70 anos, lembra que havia um grande entrosamento do cinema com a sociedade.

Antes da exibição dos filmes, eram transmitidos telejornais com notícias nacionais, por meio do qual os cuiabanos se inteiravam do que estava acontecendo, já que não tinham televisão. "O cinema fazia parte da vida das pessoas. Os jovens tinham os artistas de cinema como ídolos e tentavam imitá-los", contou. O lazer da juventude daquela época era ir ao cinema, à igreja e conversar na praça. "A grande vantagem é que não tinha violência como tem hoje", lamentou o professor de geografia e autor de livros de história.

Durante a semana, tinha sessão às 18h, 21h e 22h e, aos finais de semana, começava mais cedo. Eram exibidas das 13h até as 22h, com sessões a cada uma hora.

Depois de fazer estágio no Cine São Luiz, no Porto, Aníbal trabalhou no Cine Bandeirantes, que funcionava na Rua Pedro Celestino, região central da capital, e posteriormente, no Cine Teatro Cuiabá, que encontra-se em funcionamento até hoje. O interesse pelo cinema foi tamanho que ele foi para São Paulo estagiar em um cinema de lá. "Quando voltei para Cuiabá já era um técnico", comentou.

Os primeiros filmes exibidos em Cuiabá eram de curtas metragens, como documentários, que tinham em média 15 minutos de duração. Porém, depois da década de 20 passaram a ser exibidos no cinema os filmes, na época 'posados', como eram chamados. Entre eles, 'A Cabana do Pai Tomás', A Viúva Alegre e Alma Sertaneja, produzido no Brasil.

Bilhete de entrada do Cine Parisien, primeiro cinema da capital
Foto: Reprodução/livro 'Anos Dourados do Nosso Cinema'

O primeiro cinema de Cuiabá, contudo, surgiu antes da década de 30. O Cine 'Parisien' funcionava na esquina onde hoje abriga a Secretaria Estadual de Cultura (SEC) foi instalado no início do século 20 e, aos poucos, foi evoluindo. Até 1919, por exemplo, o filme era totalmente manual. A luz projetora era através de uma tocha de carbureto por gás de acetileno, acondicionado dentro de uma lanterna. A partir de então, foi adaptado um motor elétrico no sistema de manivela, aumentando a velocidade do filme no projetor.

"Os personagens na tela não ficavam mais a mercê do projecionista, que, quando mais cansado, diminuía a rotação da máquina, daí o artista na tela caminhava mais lento ou vice-versa", diz o escritor em trecho do livro 'Anos Dourados dos Nossos Cinemas'.

Por três anos, Cuiabá ficou sem cinema, com o término do contrato de concessão do Cine Parisien, que fechou as portas. Até que em 1933, após um italiano que morava na capital, chamado Ernesto Bonâmico, assumir a direção do espaço, o cinema foi reinaugurado, com o nome de Cine Teatro República. Na data de reabertura, em 21 de abril, os cuiabanos assistiram ao filme 'Marrocos'.

Dois anos mais tarde, o então prefeito de Cuiabá, João Ponce de Arruda, e o interventor federal da época, Leônidas Anthero, assinaram um novo contrato de concessão para que um novo 'Cine Theatro' fosse construído no prazo de cinco anos.

O prédio localizado na esquina da Rua Joaquim Murtinho com a Avenida Getúlio Vargas, no entanto, foi demolido posteriormente para a construção do 'Grande Hotel', já que Cuiabá não dispunha de nenhum hotel na época. Com a demolição, o cinema foi transferido para o prédio do lado, onde funciona até hoje.

A demolição do prédio ocorreu entre 1939 e 1942. Nesse período, outro cinema foi instalado na capital: o Cine Orion, que ficava na Praça da República, onde hoje abriga o Palácio do Comércio.

A inauguração do novo Cine Teatro foi um grande acontecimento. "Este cinema tão esperado, assemelhava-se à gestação de nascimento de um filho. Durante todo de sua construção, a comunidade cuiabana acompanhava atentamente as obras", diz Aníbal, que é formado em geografia.

Cine São Luiz ficava na Avenida 15 de Novembro, no Porto
Foto: Reprodução/Livro Anos Dourados do Nosso Cinema

Na década de 60, havia três cinemas em Cuiabá. "Nos dias de sábado e domingo, quando os filmes eram melhores, as sessões superlotadas, lembro-me da figura preocupada do 'seo' Gari, controlando o público entre as sessões do cinema", contou Aníbal Alencastro.

Além do Cine Teatro, tinha o Cine São Luiz, na Avenida 15 de Novembro, no Porto, e o Cine Cidade Verde, que ficava na Rua 13 de Junho, na esquina com a Avenida Dom Bosco. Diante do sucesso que fazia, novos cinemas foram construídos, entre eles o 'Cine Tropical', que funcionava na Rua Barão de Melgaço, também na região central. Naquela época, Cuiabá tinha em torno de 80 mil habitantes.

Cine Bandeirantes está fechado, mas a fachada ainda se mantém 
Foto: Pollyana Araújo/G1

Com a fachada ainda intacta até hoje, o Cine Bandeirantes foi construído na década de 60. Conforme o Aníbal conta em seu livro, o cinema fez grande sucesso após a inauguração. "Alguns diziam que logo aquele movimento iria cessar e que aquilo era só 'fogo de palha', por ser um cinema novo, e que logo o público voltaria para os tradicionais Cine Teatro Cuiabá e Cine São Luiz", disse. O cinema contava com equipamentos e sistema de som modernos para a época.

O cinema também chegou aos municípios do interior do estado. Aníbal foi um dos responsáveis pela instalação das salas em Guiratinga, Poxoréu, Rondonópolis e Poconé. "Em Poxoréu, montei o cinema escopo e, na estreia, exibimos o filme 'O Dólar Furado'. Teve um garimpeiro que ficou tão emocionado com o filme que deu um tiro para cima, dentro do cinema", recordou.

Já nos anos 70, com a chegada da televisão, os cuiabanos começaram a ficar mais em casa para assistir às novelas. Em 69 foi instalada a primeira estação de televisão no estado. "O cuiabano é preguiçoso e queria ficar em casa assistindo 'As Púpilas do Senhor Reitor', primeira novela transmitida na região. Desse modo, sem condições para se manter, os cinemas tiveram de fechar as portas por falta de público.

Acervo

Parte do cinema antigo tem espaço na casa do professor de geografia, que se diz apaixonado por história. Um cômodo é reservado para guardar as relíquias, entre elas um 'praxinoscópio', brinquedo que futuramente deu origem ao cinema. O inventor Emile Reynaud fez uma sequência de figuras de um cavalo em cinco posições diferentes para comprovar que em determinado momento o animal ficava com as quatro patas fora do chão. Ao girar o aparelho semelhante a uma roda, dá a impressão de que o cavalo está em movimento.

Aníbal mostra a 'lanterna mágica', aparelho usado para projetar imagens de cinema
Foto: Pollyana Araújo/G1

Além do praxinoscópio, ele tem, entre outros, uma 'lanterna mágica', equipamento usado pelos padres jesuítas para passar filmes e catequizar os indígenas. Com ela, é possível projetar imagens em suporte transparente. O equipamento era fabricado na Alemanha e nos Estados Unidos.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/mato-grosso

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Cine Humberto Mauro celebra 40 anos...



Cine Humberto Mauro /Créditos: Paulo Lacerda/FCS

Cine Humberto Mauro celebra 40 anos de trajetória com recorde de público

16 de abril de 2018  

By Editor 

O ÚNICO A EXIBIR EM 16 E 35MM É UM DOS MAIS TRADICIONAIS CINEMAS DO ESTADO E REFERÊNCIA EM FILMES CLÁSSICOS E INDEPENDENTES. EM 2017 SALA RECEBEU MAIS DE 70 MIL PESSOAS


Na década de 1970, bem antes do surgimento de exibições de cinema em formatos digitais como DVD, streaming e download, cinéfilos de Belo Horizonte costumavam se reunir no Grande Teatro do Palácio das Artes, espaço do Governo de Minas Gerais, gerido pela Fundação Clóvis Salgado (FCS), onde um projetor exibia filmes esquecidos pelo circuito comercial, com sessões regulares aos sábados e domingos.

Um dos mais tradicionais cinemas de Belo Horizonte, o Cine Humberto Mauro, que celebra seus 40 anos com o orgulho de ter se tornado referência em cinema na capital mineira, nasceu assim. Inaugurado oficialmente em 15 de outubro de 1978, seu nome homenageia um dos pioneiros do cinema brasileiro, o mineiro de Cataguases Humberto Mauro (1897-1983), grande realizador cinematográfico no período de 1925 a 1974.

Após inúmeras reformas e adaptações, atualmente a sala de cinema localiza-se em frente à Galeria Genesco Murta e ao lado do Café do Palácio. Com 129 lugares, sua tecnologia foi modernizada com a aquisição de equipamentos de som dolby digital e para exibição de filmes em 3D e 4K. Todas as atividades do Cine Humberto Mauro são gratuitas.

Nestes quase 40 anos de existência, a Fundação Clóvis Salgado tem investido na consolidação do espaço como um local de formação de novos públicos a partir de programação diversificada, bem como a criação de mecanismos de estímulo à produção audiovisual com a realização do tradicional Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte – FestCurtasBH, e o Prêmio Estímulo ao Curta-metragem de Baixo Orçamento.

“O Cine Humberto Mauro é uma sala de exibição que consegue reunir e agregar uma diversidade de público muito grande e coloca o espectador em condição de refletir sobre o cinema local e mundial graças à intensa programação nestes 40 anos. Com uma visão descentralizada do cinema, é um espaço com acesso gratuito e acessível ao cinema de diversas nacionalidades e diversos diretores” (Bruno Hilário, gerente e curador de cinema da FCS)

Mercídio Scarpelli, o projecionista mais antigo do Cine Humberto Mauro, 
com 36 anos de casa (Crédito: Paulo Lacerda/FCS)

A seleção das mostras privilegia a história de consagrados diretores como Tarkovsky, Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman e Quentin Tarantino, entre outros. Gêneros distintos do cinema, como terror, comédia e ficção científica, destaques da programação, também têm atraído público numeroso.

O Cine Humberto Mauro também é um importante difusor do conhecimento ao promover cursos, seminários, debates e palestras. Sessões permanentes e comentadas também têm espaço cativo a partir das mostras Cineclube Francófono e Cinema e Psicanálise.

“É interessante ver como a sala surgiu do diálogo com a sociedade civil e com a cinefilia de BH, que demandaram do poder público o espaço e as condições para exibição de obras que não têm caráter comercial, a priori, e de filmes com intenções mais artísticas”, afirma o frequentador André Gati.

Somente em 2017, mais de 71,4 mil pessoas frequentaram o Cine Humberto Mauro para conferir as 29 mostras – 21 delas promovidas pela fundação e oito por produtores externos. “Registramos recordes de frequência em 2017. Fica o convite para as pessoas abraçarem esse espaço para continuar construindo um lugar de arte e cultura que é referência em todo estado”, reitera o gerente Bruno Hilário.

História e cinefilia

O projecionista mais antigo, com 36 anos de casa e 72 de vida, Mercídio Alvinho Scarpelli, celebra a existência do cinema com bom humor e histórias. “No Cine Humberto Mauro usamos a película 16 ou 35mm, então você tem que desmontar e saber se o filme está ao contrário, senão dá zebra na tela”, conta o também cinéfilo “Cid”, como ficou apelidado no local.

Ele conta como é inusitado o dia a dia de um cinema histórico, que exibe em película. “Teve uma vez, eu estava exibindo um filme com carretéis enormes e passávamos de rolinho para rolinho quando, de repente, deu um chapisco nas imagens e chegou um senhor perguntando se eu estava roubando o filme. Aí passei apertado para explicar para ele o trabalho. Tem que saber montar, mas nós já estamos acostumados com isso”, conta.

Segundo Mercídio, como a cabine tem vidros dá para ver o público saindo de dentro da sala, fazendo caras diferentes, dependendo do filme. “É interessante ver a reação do público, me sinto parte desse universo. Eu saio daqui às 23h e muitas vezes ainda vou assistir filme, é um vício que eu adquiri, me considero um cinéfilo também, então entendo porque o público vem tanto no Cine Humberto Mauro. Temos filmes maravilhosos e todos gratuitos, é um espaço cheio de magia, é uma alegria trabalhar em um lugar especial, com público tão diversificado”, completa.

Celebrando

Para dar início às comemorações do 40º aniversário do Cine Humberto Mauro, a Fundação Clóvis Salgado resgatou a trajetória do ator e diretor norte-americano Buster Keaton (1895-1966), vanguarda na comédia e referência do cinema mudo.

O auge da carreira de Buster Keaton se deu nos anos 1920, quando Chaplin também despontava. Na era do cinema mudo, o ator e diretor se notabilizou pela expressão facial imutavelmente séria, mesmo diante das maiores trapalhadas que seus roteiros cômicos traziam. Essa característica fez com que Keaton se tornasse conhecido como “O cara de pedra” e “O homem que nunca ri”.

Trecho do filme de Buster Keaton / Crédito: Divulgação FCS

Iniciar a comemoração dos 40 anos da sala com o Buster Keaton é, basicamente, retomar a origem da sétima arte, diz Hilário.

“Ele tem um caráter muito popular, é um dos personagens mais carismáticos do cinema mundial e da comédia, o único que se compara ao Carlitos (Charles Chaplin). Queremos evidenciar o caráter de cinema de repertório que o Cine Humberto Mauro sempre adotou”, explica.

O curador lembra que serão utilizadas algumas cópias restauradas em DCP trazidas dos Estados Unidos.

Com 27 longas e 24 curtas-metragens, a seleção foi feita para a mostra, realizada até o dia 29 de março, incluindo os clássicos Marinheiro de Encomenda (1928), O Homem das Novidades (1928) e Nossa Hospitalidade (1924). “A proposta é trazer reflexões sobre a própria história do cinema”, afirma Hilário.

A seleção inclui filmes dirigidos, estrelados e influenciados pelo americano, além de produções que dialogam com seu legado.

Um grand finale ocorreu no encerramento da mostra, dia 29 de março, no Grande Teatro do Palácio das Artes. O público lotou a sessão de comédia para ver The Railrodder (1965), dirigido por Gerald Potterton e lançado um ano antes da morte de Keaton, protagonista do curta. Para a ocasião especial a trilha sonora foi composta por André Brant e executada ao vivo por músicos do Centro de Formação Artística e Tecnológica do Palácio das Artes (Cefart). Em seguida, foi exibido A General.

A Fundação Clóvis Salgado planeja outras mostras e festivais para comemorar os 40 anos do Cine Humberto Mauro, mas a agenda ainda não está fechada.

Fundação Clóvis Salgado

O caráter democrático da diversidade das manifestações artísticas acolhidas pelo Palácio das Artes, localizado no centro de Belo Horizonte, coloca em destaque a singularidade do seu espaço que reúne, num mesmo endereço, importantes equipamentos culturais como o Grande Teatro do Palácio das Artes, Teatro João Ceschiatti, Sala Juvenal Dias, Cine Humberto Mauro, Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, Galeria Genesco Murta, Galeria Arlinda Corrêa Lima, Galeria Mari’Stella Tristão, Midiateca João Etienne Filho e o Centro de Formação Artística e Tecnológica – Cefart.

Nesse ambiente convivem diariamente maestros, diretores artísticos, cineastas, artistas de teatro, dança, música e artes visuais, curadores, produtores, gestores, pesquisadores e estudantes de arte, oferecendo ambiência ímpar aos interessados em todos os passos do fazer artístico.

Fachada da Fundação Clóvis Salgado, no centro da capital / Crédito: Divulgação FCS
Cine Humerto Mauro – Palácio das Artes – Fundação Clóvis Salgado

Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro
www.fcs.mg.gov.br.

Fonte: Agência Minas Gerais

Texto e imagens reproduzidos do site: radio98to.com.br