Artigo compartilhado do site SUL 21, de 27 de setembro de 2025
Dos cartazistas aos baleiros, mostra relembra trabalhadores que deram vida ao Cinema Capitólio
A partir de outubro, exposição apresenta as histórias dos funcionários de um dos principais cinemas de rua de Porto Alegre
Por Marihá Maria (marihamaria@sul21.com.br)
Estar caminhando pela calçada e ver o cartaz de um filme, decidir entrar no cinema, adquirir o ingresso na bilheteria, comprar alguns doces e seguir para a sala para assistir à sessão. Uma rotina que marcou gerações nos cinemas de rua de Porto Alegre e que só acontecia graças ao trabalho de todos os funcionários que tornavam possível essa experiência. É isso que a exposição “Os Trabalhadores do Cinema Capitólio”, com estreia em outubro, coloca em destaque ao revisitar a trajetória de quem garantiu o funcionamento do Cine-Theatro Capitólio, um dos mais tradicionais da Capital.
A mostra reúne registros históricos e depoimentos para retomar a memória do cinema de rua inaugurado em 1928 e ativo até 1994. Documentação, fotografias, relatos orais e anúncios publicitários compõem a exposição, que preserva parte do patrimônio cultural de Porto Alegre graças ao esforço de pessoas que, décadas atrás, se dedicaram a guardar esses materiais.
Alice Dubina Trusz, historiadora responsável pela pesquisa e curadoria, explica que a mostra só é possível pela existência de um acervo raro, sob guarda da Cinemateca Capitólio, no Centro de Documentação e Memória. Esse acervo inclui documentos administrativos e contábeis da gestão do cinema ao longo de décadas.
Os registros foram preservados por Malvina Pianca, filha de Romeu Pianca, dono da empresa que administrou o Capitólio entre 1938 e 1967. Malvina atuava ao lado do pai na administração da sala e de outros cinemas de rua, como o Cine Vera Cruz, que mais tarde se tornaria o Cine Victoria, e o Cinema Ipiranga, localizado na rua Cristóvão Colombo. Após sua morte, os documentos, que também abrangem períodos anteriores à gestão Pianca, foram doados à Cinemateca, tornando-se bens culturais públicos.
“São dois momentos de consciência patrimonial aí. A pessoa que preserva e depois a quem faz a doação para uma instituição pública. Onde eles se tornam bens possíveis de ser apropriados por pesquisadores para produção de conhecimento sobre o passado”, destaca Trusz.
O acervo é composto por documentos administrativos e contábeis, como livros-caixa, que vão dos registros diários do gerente até os oficiais, preenchidos para a junta comercial, fichas de registros de empregados individuais, folhas de pagamento e recibos de pagamento e serviços pontuais. Além disso, a pesquisa utilizou fotografias, anteriores e posteriores ao período da administração Pianca, registros de memória oral obtidos em pesquisas feitas pela Fundacine e pela Cinemateca Capitólio e consulta aos materiais que eram veiculados na imprensa da época.
“Porque os anúncios publicitários são sempre muito informativo sobre o funcionamento de um cinema, a programação também, porque a gente acaba descobrindo quantas sessões tinha, quantos filmes passavam, quais os horários”, explica a historiadora. “Tudo isso depende do trabalho de alguém. Para um cinema funcionar precisa alguém trabalhar, cumprir esses horários. Estar lá” ressalta.
É com esse reconhecimento da importância do papel de cada um dos funcionários do cinema que a exposição toma forma. A mostra conduz o público por um percurso que apresenta o cotidiano e as característica dos profissionais que faziam parte da experiência de quem frequentava a sala no centro de Porto Alegre.
A exposição tem início pelo olhar sobre os cartazistas, responsáveis por produzir artesanalmente a publicidade dos cinemas. Eram eles que criavam um dos elementos mais emblemáticos dessas salas: os cartazes de filmes, que nos cinemas modernos já não carregam as mesmas características. “Tinha do lado de fora dos cinemas as fotografias, os quadros com fotografias, a pessoa olhava o cinema de fora e via o que ia passar. Hoje, no shopping, não. Hoje tu tem que entrar lá dentro e lá e não tem nem mais cartaz. Ninguém mais pinta as coisas e isso era artesanal, a decoração externa dos cinemas e interna”, lembra Trusz.
A mostra também resgata profissões do cotidiano do cinema que desapareceram ou se transformaram com as novas tecnologias. O bilheteiro, substituído pelas vendas digitais, o porteiro, hoje chamado recepcionista, e o gerente, que além da administração, cultivava laços com a comunidade frequentadora. “O gerente, que era amigo das pessoas, conhecia todo mundo. Principalmente em cinemas de bairro, como era o Capitólio. Então o gerente, e também o porteiro, têm essa relação com o seu público”, conta a historiadora. Havia também os profissionais da zeladoria, que no caso do Capitólio, os pesquisadores identificaram que era uma atuação realizada somente por mulheres, principalmente negras e analfabetas.
Para além desses setores, a mostra também apresenta os profissionais que trabalhavam ainda mais nos bastidores, dentro da cabine de projeção. Ali, havia pelo menos dois funcionários, o operador cinematográfico e um ajudante. “Hoje, o operador é uma pessoa que tem que entender mais de informática, porque é tudo computadorizado. Mas na época não, tinha que entender de eletricidade e mecânica, para lidar com os equipamentos, que eram desse tipo, como os projetores 35 mm”, conta a historiadora. A sala de projeção ainda contava com o carregador, que transportava os filmes em lata.
Por fim, na sala de projeção, junto ao público, atuavam ainda o baleiro, um adolescente que muitas vezes não era contratado formalmente pelo cinema, e o lanterninha, que guiava os espectadores até seus lugares no escuro, funções hoje extintas.
A pesquisadora e curadora da mostra ressalta que a realização da exposição só foi possível graças aos editais públicos, que viabilizam o financiamento de trabalhos desse formato. “Não se valoriza atualmente a cultura. Já faz 20 anos que os governos que governam a cidade não valorizam a cultura, não investem nas instituições, não contratam profissionais”, diz. “Nós tivemos essa oportunidade de trabalho a partir de editais públicos. Nesse sentido de poder concorrer em editais com projetos que permitam que não só o proponente trabalhe, mas que ele integre uma equipe de outros trabalhadores”, complementa.
A exposição é a ação central do projeto aprovado no Edital SEDAC n. 31/2024 PNAB RS – Memória e Patrimônio, e foi financiada com recursos a partir da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).
Frente à desvalorização cultural, Trusz reforça o papel de iniciativas como esta, que resgatam a memória da cidade e mostram o lugar que a arte já ocupou no cotidiano dos moradores da Capital. “É uma maneira de chamar atenção mesmo para a importância da gente parar, dar tempo de pensar, se repensar, olhar para trás, olhar para frente e ver que a gente é capaz de mudar as coisas, porque as coisas sempre mudaram no tempo, as coisas não são estáticas”, destaca.
Para ela, preservar e revisitar o patrimônio cultural, como os cinemas de rua, é também preservar a identidade coletiva. “Eles contam a história de quem nós somos. Eles ajudam a contar como nós chegamos aqui, porque eles formaram nossa identidade cultural”, afirma. Trusz lembra ainda que, em uma época sem televisão ou mídias digitais, as salas de cinema eram espaços centrais de encontros entre famílias e amigos, sendo parte da dinâmica social da cidade.
“Ele é a história do trabalho, do lazer, da sociabilidade, de histórias afetivas. Sem falar da questão da relação do público, com a programação, com os filmes. Então, é uma formação coletiva e uma formação individual muito ampla, muito definidora de uma cidade. Uma cidade com cinema é diferente de uma cidade sem cinema”, pontua.
A abertura da exposição acontece no dia 11 de outubro, um sábado, às 18 horas. A visitação seguirá até 11 de fevereiro de 2026, de terça a domingo, das 14h30 às 19h, com entrada gratuita.
Texto e imagens reproduzidos do site: sul21 com br



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