quarta-feira, 15 de abril de 2026

Catador de sucata montou cinema na garagem de casa


Publicação compartilhada do site G1 GLOBO, de 24 de abril de 2008 

Catador de sucata montou cinema na garagem de casa

José Luiz Zagati exibe filmes há 10 anos em Taboão da Serra.

Na favela de Heliópolis, projeto de cinema também forma atores.

Por Carolina Iskandarian (Do G1, em São Paulo)

A iniciativa na favela de Paraisópolis, que inaugurou sua primeira sala de cinema na quarta-feira (23), pode ser a primeira de uma série se ali morar gente como o catador de sucata José Luiz Zagati. Há dez anos, ele exibe filmes para a comunidade carente da região de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Começou usando a garagem de sua casa. Quando viu que o espaço ficou apertado, resolveu vender o imóvel e construir um maior por ali mesmo.

“Se não tivesse vendido a casa, não teria conseguido montar o Mini Cine Tupy”, diz, orgulhoso, sobre o cinema que ocupa uma sala para cinqüenta pessoas na nova moradia. O nome é uma homenagem ao hoje extinto Cine Tupy, que Zagati freqüentava quando criança em Taboão da Serra.

“Sempre gostei muito de cinema. Costumo dizer que sou fã número 1 do Mazzaropi. Quando eu era criança, projetei um pedaço do filme dele que encontrei no lixo”, contou. Da sucata veio o projetor improvisado: um caixote, lentes de óculos, lâmpada e uma manivela de arame.

Aos 58 anos, o catador de lixo diz ser uma pessoa realizada, apesar de estar se sentindo “desesperançoso e triste”. “É muito difícil. Estou sem patrocínio”. As sessões acontecem às quartas-feiras e, além de não pagar nada, o espectador ainda ganha brindes. Zagati sorteia brinquedos e cadernos que consegue com doações.

“Eu penso muito no pobre. As crianças da minha periferia não vão ao shopping. Essas coisas (cinema) têm de ser criadas nas comunidades carentes porque as pessoas se sentem com mais dignidade”. E é com dignidade, catando sucata na rua, que Zagati sustenta a família. “Tem mês que tiro R$ 1mil ou R$ 2 mil. Tem mês que não tiro nada”. E mesmo assim o Mini Cine Tupy está de pé.

 Atuando na favela

A experiência cinematográfica também ganhou força na favela de Heliópolis, a maior de São Paulo. Desde 2003, o projeto Cine Favela leva a sétima arte aos cerca de 130 mil moradores da comunidade. Gente simples, que nunca tinha visto nada parecido e, de repente, virou até personagem de filme.

Além de exibir longas, a Associação Cultural e Artística de Heliópolis e Sacomã (ACAHS), uma das idealizadoras da iniciativa, promove uma oficina em que ensina a população local a atuar. “Tem de tudo. Pedreiro, dona-de-casa, aposentado”, contou Geneci Ledo, de 35 anos, integrante da associação. A comunidade já rodou “Gota de Sangue” e agora prepara “O Excluído”, que conta a história de um menino, morador da favela, que acaba virando bandido.

No começo, reinou a desconfiança. “Eu mesma não colocava fé no projeto. A gente começou com a cara e a coragem”, disse Geneci, que prefere produzir a atuar. Com desenvoltura, a dona-de-casa fala sobre cenário, textos, seqüências, continuidade da cena. Hoje, os filmes são passados em uma sala, montada na casa onde um bar seria demolido. É no mesmo espaço que fica a oficina de atores de Heliópolis.

O projeto contou com o apoio do Sesc Ipiranga e recebe doações também. As sessões dão gratuitas e acontecem de 15 em 15 dias, aos domingos. “O cinema mudou bastante coisa por aqui. As pessoas elogiam. Muitos não conheciam, não tinham acesso à cultura”, afirmou Geneci, que garante a distribuição gratuita de pipoca a cada exibição. “A gente faz uma vaquinha para poder comprar”.

Texto reproduzido do site: g1 globo com/Noticias/SaoPaulo

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